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Nesta página você vai conhecer os três indicados ao Prêmio Trip Transformadores na categoria Conexão. Brasileiros que demonstram em suas vidas e carreiras o valor das relações humanas na construção de um mundo melhor
CONTARDO CALLIGARIS
Psicanalista e escritor, este italiano radicado no Brasil entendeu como poucos a alma do brasileiro



Com seu estilo sincero e recheado de recordações pessoais, em oito anos de colunas na Folha de S.Paulo o psicanalista e ensaísta Contardo Calligaris tornou-se praticamente um amigo, se não um “orientador”, para os leitores que o acompanham semanalmente. Um jornalista já o considerou “uma filiação”. Quem está com Calligaris, mesmo que discorde de suas análises em um ponto ou outro, não deixa passar uma coluna. Sempre importa saber de que maneira ele vê determinado assunto polêmico do cotidiano, um filme ou livro, idéias e vogas, sentimentos, desejos, o amor, o casamento, a sexualidade, a fidelidade – temas constantes em sua pauta. Se há um seminário ou debate a que irá comparecer, os lugares se esgotam muito antes da data. Tamanha “adesão” talvez se deva ao fato de Calligaris, apesar de ter sempre em perspectiva a crítica da modernidade, jamais deixar de ser generoso para com seus pobres sujeitos históricos, esse “nós” que dá o tom em seus textos. Mesmo ao desvelar “nosso” individualismo, covardia, ignorância, ele o faz sem ironias maldosas, aproximando-se do objeto de sua crítica. Ao dividir seu profundo conhecimento de psicologia com os leitores, tem ajudado muita gente a refletir sobre si mesmo, os outros e o mundo, a reconhecer seus preconceitos, a correr atrás do desejo e ser mais feliz. Nascido em Milão, na Itália, em 1948, a crônica da vida de Calligaris dá conta de uma paixão que o fez fugir de casa, para Londres, aos 15 anos. E de outra paixão, fulminante, por sua exmulher, Eliane dos Reis, psicanalista gaúcha que conheceu ao dar uma palestra logo ao chegar ao Brasil, em 1985. Desde que se desgarrou da casa paterna, Calligaris nunca mais voltou a viver na Itália. Estudou filosofia na Suíça e fez sua formação em psicanálise na França. Até pouco tempo atrás, dividia-se entre Brasil e Estados Unidos, vivendo e clinicando nos dois países. Nos EUA, foi professor da New School for Social Research, em Nova York, e da Universidade de Berkeley, na Califórnia. Entre seus livros publicados no Brasil estão Crônicas do Individualismo Cotidiano (Ática), Hello Brasil! (Escuta), A Adolescência (Publifolha) e Cartas a um Jovem Terapeuta (Alegro).

WELLINGTON NOGUEIRA
E o palhaço o que é? No caso de Wellington, um transformador de tristeza em consolo e esperança. Ele é o clown-chefe da seção brasileira dos Doutores da Alegria

 

Wellington Nogueira é um grande palhaço. Desses de nariz vermelho, que fazem a festa das crianças. É também um dos melhores exemplos de comprometimento social e ternura para com o próximo em dificuldades. Há 16 anos, com 30 de idade, ele se tornou o fundador e coordenador da ONG Doutores da Alegria, que reúne em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Minas Gerais equipes altamente qualificadas de especialistas em besteirologia, todos com Ph.D em bobagem. Nogueira era um ator apaixonado por musicais quando embarcou para os Estados Unidos, nos anos 80, sonhando virar astro da Broadway. Mas lá conheceu o projeto Clown Care Unit, do artista circense Michael Christensen, que “tratava” crianças internadas nos hospitais de Nova York com transfusões de milk-shake e transplantes de nariz vermelho. Passou a integrar a trupe de Christensen e, de volta a São Paulo, em 1991, já tinha claro seu objetivo na vida. Saiu atrás de recursos e conseguiu, no mesmo ano, formar sua primeira equipe de Doutores da Alegria, que começou a “clinicar” no Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Lourdes.

Hoje a ONG do dr. Zinho, o nome do clown de Nogueira, realiza cerca de 50 mil visitas anuais, com efeitos terapêuticos notáveis não apenas sobre o ânimo e a saúde das crianças internadas, mas também de seus familiares e das equipes
médicas. Seu trabalho segue uma rotina, a começar pela formação dos doutores, todos atores profissionais com especialização em palhaço e treinamento para trabalhar em hospital dado pela própria ONG.
As equipes atuam em duplas, visitando as crianças leito a leito – inclusive em unidades de terapia intensiva e ambulatórios – duas vezes por semana, seis horas por dia. As duplas visitam as mesmas instituições por seis meses e depois disso revezam-se com outras. Nenhum hospital que recebe os doutores fica, portanto, sem eles. E já há muito mais doutores se formando e aprendendo com a própria ONG, que possui um centro de conhecimento procurado por estudantes, artistas e pesquisadores interessados em suas experiências.

PADRE JAIME
Um santo de verdade: o padre irlandês veio para a violenta zona sul de São Paulo há quase 30 anos e foi o motor de um movimento de revalorização de uma área carente

 

No ano 2000 o Jardim Ângela, imenso aglomerado de favelas na região que um dia já foi a charmosa Riviera Paulista, ganhou fama ao ser considerado o lugar mais violento do mundo pela ONU. Em nenhum outro lugar do planeta se encontrava uma taxa de 116,23 assassinatos para cada 100 mil habitantes – índice que subia para 200 se calculado apenas sobre a população masculina entre 15 e 25 anos. Hoje, já chegaram a ser registrados períodos de até seis meses sem uma única morte violenta no local – o Jardim Ângela nem figura mais na lista das Nações Unidas.

Não houve nenhum milagre. A mudança foi resultado de um processo iniciado muitos anos antes, envolvendo a ação coordenada de instituições sociais, prefeitura, universidades, voluntários e da própria comunidade. Mas o santo existe. Ele atende pelo nome de James Crowe – conhecido como padre Jaime –, religioso irlandês que chegou ao Brasil no final da década de 60. Reconhecida liderança no Jardim Ângela desde os anos 80, nos tempos mais duros o padre Jaime, hoje na casa dos 60 anos, não passava um dia sem realizar serviços fúnebres e missas para os mortos. Chegou a fazer seis enterros de jovens numa única manhã e a sentir-se “feliz”, como relatou ao site do jornalista Gilberto Dimenstein, ao enterrar um senhor de 83 anos, “porque era incrível ele ter chegado até aquela idade”. Mas rezar pela alma de pessoas à beira da sepultura não era o papel que desejava para si como religioso. Em 1996, organizou uma caminhada até o cemitério local que reuniu 5000 pessoas em protesto contra a violência e a negligência das autoridades públicas na região. Daí nasceu o Fórum em Defesa da Vida, que hoje congrega 200 entidades em torno da paróquia em que atua. Projetos sociais já existentes ganharam força e outros foram criados, sempre envolvendo a participação da comunidade. Quase todos surgiram da liderança ou com a coordenação direta do padre Jaime. São iniciativas como um fórum de moradores pela valorização da vida, outro sobre educação, projetos para inclusão de atividades extracurriculares nas escolas, de geração de emprego e renda, um Centro de Defesa da Criança e do adolescente, a Casa Sofia – que acolhe mulheres vítimas de violência – ou a Ucad – Unidade Comunitária de Álcool e Drogas.
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