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| Nesta página você vai conhecer os três indicados ao Prêmio Trip Transformadores na categoria Alimentação. Brasileiros que dedicam (ou dedicaram) a vida à ampliação do acesso ao alimento de qualidade e em quantidade suficiente para todos |
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HEBERT JOSÉ DE SOUZA(IN MEMORIAM)
Economista, o saudoso Betinho criou a Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida – uma das ONGs mais aguerridas no combate à fome
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Apesar das privações que ele sofreu em vida, a começar por ter herdado a hemofilia da mãe, ter contraído tuberculose na adolescência e ter precisado de sucessivas transfusões de sangue, que o levaram a adquirir, assim como seus dois irmãos – o cartunista Henfil e o compositor Chico Mário – o vírus da aids, Betinho fez com que seus inúmeros exemplos de cidadania e combate à fome entrassem para a história e fossem lembrados até os dias de hoje.
Nascido em Bocaiúva, Minas Gerais, Betinho engajou-se desde cedo nas questões políticas. Durante o regime militar brasileiro, passou alguns anos exilado no Chile, chegando, inclusive, a ser nomeado assessor do presidente Salvador Allende. Além disso, atuou em algumas das organizações mais importantes do mundo, como o Conselho Latino-americano de Pesquisa para a Paz (Ipra) e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).
No início da década de 1980 Betinho fundou, com o apoio de dois empresários, o Ibase: uma instituição dedicada a democratizar a informação sobre as realidades econômicas, políticas e sociais no Brasil, com sede no Rio de Janeiro.
Em 1985, ele descobriu que havia se infectado com o HIV numa das transfusões de sangue que fazia com freqüência por causa da hemofilia, mas, mesmo assim, continuou desempenhando seu papel como articulador da Campanha Nacional pela Reforma Agrária – buscando uma solução para a questão da distribuição, posse e uso da terra no país – e ao mesmo tempo atuou em diversas frentes ligadas à doença, chegando a fundar a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), uma das mais influentes instituições nessa área, e até a elaborar um livro.
Foi em 1993 que Betinho conseguiu colocar em prática dois projetos que viriam realizar profundas mudanças nos índices de desnutrição no país: organizou o Conselho Nacional de Segurança Alimentar através do governo federal e fundou a ONG Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida. Anos depois, recebeu o Troféu Criança e Paz da Unicef e foi recomendado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para integrar a Comunidade Solidária, um programa de ação social disposto a enfrentar a pobreza e a exclusão através da integração do voluntariado.
Betinho morreu aos 61 anos em sua casa, no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, em 9 de agosto de 1997, já bastante debilitado pela aids. Naquela época, se corresse a notícia que Betinho havia morrido, os chefes de redação recomendavam aos seus jornalistas que esperassem três dias por uma confirmação para divulgar a notícia. Esta era a força de viver que Betinho carregava. Tão grande que suas idéias para driblar a morte ajudaram outras milhares de pessoas a sobreviver assim como ele.
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Foi no desperdício de alimento que Luciana Chinaglia Quintão encontrou a solução necessária para reduzir os efeitos da fome. Formada em economia pela PUC/RJ e mestre em administração pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, a carioca de 44 anos inaugurou, em janeiro de 1999, o Banco de Alimentos, uma ONG cujo objetivo principal é ampliar o acesso de alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, a um número cada vez maior de pessoas. A fórmula parece simples, mas a luta contra a fome exige esforço diário. Sob o lema de “buscar comida onde sobra e entregar onde falta”, Luciana recolhe diariamente alimentos que não foram comercializados – geralmente bons para o consumo, mas que teriam o lixo como destino – e os distribui entre dezenas de instituições de caridade, incluindo lares de idosos e creches infantis.
A proposta espalhou-se para outras regiões do país e assim cresce cada vez mais o conceito de “colheita urbana” – pouco aplicado no país, porque a legislação brasileira proíbe que as empresas doem alimentos inutilizados. Apenas o Banco de Alimentos recolhe cerca de 46 toneladas de alimentos todos os meses, beneficiando mais de 20 mil pessoas assistidas hoje por 50 entidades, sem contar as que aguardam a oportunidade de receber as doações na fila de espera. Entre as 70 empresas doadoras, estão gigantes da indústria como Nestlé e Danone, algumas redes de supermercado, além dos pequenos pontos de comércio, como padarias e sacolões. “As arrecadações são realizadas geralmente no período da manhã e entregues no mesmo dia à tarde”, explica Luciana.
A formação antroposófica de Luciana contribuiu para o crescimento do projeto: “Estamos vivendo num limiar. É época de tomada de consciência e é justamente a quantidade e qualidade dessas pessoas que tomarem consciência que vai dar a chance de subsistirmos em paz dentro de um planeta preservado”, diz a autora do livro Como Combater o Desperdício, em que apresenta uma lista de recursos que o homem moderno tem feito sumir com sua desatenção e falta de consciência. “A comida que é descartada no Brasil daria para alimentar 35 milhões de pessoas por mês”, enfatiza. É dessa maneira decidida e ao mesmo tempo inconformada com as regras atuais de doação de alimentos que Luciana vem ajudando a combater a desnutrição no país, convencendo empresários e políticos. Afinal, como ela mesma afirma, “Ninguém deve se abster de sua responsabilidade individual de procurar agir no processo de construção, manutenção do ser humano, da natureza e da vida”.
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É fácil notar as tatuagens espalhadas pelos dois braços de Milad Alexandre Atala, sobretudo quando as mangas compridas do seu jaleco branco de chef sobem um pouco. Ninguém imaginava que o garoto ruivo, nascido 39 anos atrás no bairro da Mooca, em São Paulo, iria se transformar de punk adolescente a renomado chef de cozinha, hoje protagonista dos bastidores nos restaurantes mais chiques da capital mundial da gastronomia.
Tudo começou com uma viagem para a Europa na década de 80. Na época, Atala decidiu ir para a Bélgica e aceitou bicos como DJ e pintor de parede. Não tinha nenhuma ambição até que um amigo sugeriu um curso profissionalizante de gastronomia. Atala aceitou e inscreveu-se na Escola de Hotelaria de Namur, em Bruxelas. Formou-se entre os primeiros alunos e foi convidado para ser o primeiro brasileiro a dar aulas na escola clássica de gastronomia Le Cordon Bleu, em Paris. “Entrei na cozinha para escapar de um monte de coisa. Não me via capaz de outro trabalho. Sempre fui um garoto inconformado, muito agitado”, conta. Mesmo assim, Atala soube muito bem controlar sua hiperatividade natural e conseguiu assumir seu papel no restrito meio da gastronomia européia, passando por restaurantes na Bélgica, França e Itália.
De volta ao Brasil, em 1993, Atala passou a usar a experiência adquirida fora do país para renovar cardápios de diversos restaurantes, como o Filomena e o restaurante 72. Assim recebe o prêmio de Melhor Jovem Chef pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes Diferenciados e, anos mais tarde, consegue realizar seu maior sonho com a ajuda de mais dois sócios: inaugura o restaurante D.O.M., considerado um dos 50 melhores restaurantes do mundo em 2006 segundo a Restaurant Magazine. Discípulo do catalão Ferran Adrià – chef número um do mundo –, Atala ficou conhecido por valorizar a comida regional brasileira misturando elementos da culinária tradicional amazônica com produtos importados de qualidade. O resultado são pratos inusitados e criativos, como a anchova com purê de batata e raiz-forte e a salada de papaia com manga e camarão. “Gosto de usar técnicas clássicas européias para potencializar o sabor dos ingredientes nacionais”, explica. Autor do livro Por uma Gastronomia Brasileira, dividiu com a chef Flávia Quaresma o programa Mesa para Dois, exibido no canal GNT. Na edição #143 da Trip, Atala resumiu em sua entrevista para as Páginas Negras: “Somos o que comemos”. Hoje, ao lado do chef francês Alain Poletto, ele pretende recuperar o charme da comida caseira inaugurando nos Jardins paulistanos mais um restaurante – de “cozinha brasileira internacional”, como diz o mestre-cuca.
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