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Nesta página você vai conhecer os indicados ao Prêmio Trip Transformadores na categoria Acolhimento. Brasileiros que demonstram como se dedicar a oferecer amor, segurança e conforto ao próximo
ZILDA ARNS
Com R$ 1,58 por criança, ela tem acolhido os filhos dos brasileiros mais pobres e conseguido provar que ainda é possível uma volta por cima.



Zilda Arns Neumann chega aos 73 anos de vida com boa parte deles dedicada à saúde pública, lutando contra a desnutrição, a falta de informação e os altos índices de violência doméstica. Fundadora da Pastoral da Criança, organismo que acompanha todos os meses cerca de 1,9 milhão de crianças na faixa de 0 a 6 anos de idade, Zilda Arns tem sido responsável pela vida de quase 20% das crianças e gestantes de origem pobre em todo o território brasileiro. E ela ainda quer fazer mais.
Nascida em Forquilhinha, Santa Catarina, ela formou-se em medicina e encontrou, no convívio com as crian­ças, a sua força transformadora. Do setor de pediatria de um hospital comunitário de Curitiba, logo foi nomeada diretora de Saúde Materno-Infantil da Secretaria de Saúde do Paraná, chegando inclusive a se especializar em pediatria social na Colômbia. Em 1983, finalmente aceitou o convite da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da Unicef para colocar em prática a Pastoral da Criança, entidade que hoje conta com 270 mil voluntários, espalhados por cerca de 5 mil municípios, conhecida por realizar visitas periódicas nas comunidades, educando para a prevenção de doenças e promovendo diversas ações, entre elas o Dia do Peso, criado justamente para medir e comemorar ao lado das famílias cada quilo adquirido pela criança. “Nossa Constituição diz que o governo é responsável pela família. Como isso não é feito totalmente, procuro for­talecer e deixar claro o papel dela”, ensina.
Em 2004, depois de tornar conhecida a fórmula do soro caseiro e defender um melhor planejamento fami­liar, ela aceitou outro convite da CNBB, dessa vez para formar a Pastoral da Pessoa Idosa – que hoje acompanha de perto a saúde de 40 mil idosos em 280 municípios brasileiros. E Zilda Arns não parou por aí: assumiu um papel de destaque no Conselho Nacional de Desen­vol­vimento Econômico e Social e também no Conselho Nacional de Segurança Alimentar, ajudando com isso a reduzir ainda mais os índices de mortalidade infantil, além de divulgar uma cartilha, considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a mais completa para o desenvolvimento físico e humano da criança.
Entre os principais prêmios pelo reconhecimento de seu trabalho estão um título de “Heroína da Saúde Pública das Américas”, entregue pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), um diploma de “Mulher Cidadã”, concedido pelo Senado Federal em 2005, e uma “Medalha Pacificador da ONU” no mesmo ano, além de ter seu nome incluído entre as mulheres mais influentes do Brasil, segundo a revista Forbes. Zilda Arns mantém ainda uma expressiva coleção de chaves de cidade: é cidadã honorária em mais de dez Estados brasileiros, entre eles Rio de Janeiro, Paraná e Mato Grosso do Sul, e chegou a ser indicada para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz no ano passado. Prestes a se aposentar – ela anunciou seu afastamento da coordenação das Pastorais para o fim de 2007 –, Zilda Arns continuará sendo sím­bolo de uma luta pela
integração da família e saúde da criança, e lembrada para sempre pelos exemplos que serão seguidos.

ROMÁRIO
O lendário gênio da pequena área virou gente grande ao defender portadores da síndrome de Down.

 

A essa altura do campeonato, todo mundo sabe que o baixinho Romário é o segundo jogador de futebol, depois de Pelé, a completar o milésimo gol na carreira.
O terceiro maior artilheiro na história da seleção (mais de 70 gols), Romário de Souza Faria fez história dentro e fora dos gramados, sempre incensado pela crítica como bon-vivant ao revelar detalhes de sua performance se­xual. O camisa 11 teve seis filhos com quatro mulheres diferentes. E só parou de aumentar a prole depois de conhecer Isabella Bittencourt, com quem vive atualmente no Rio de Janeiro e teve duas meninas; uma delas,
a caçula Ivy, portadora de síndrome de Down.
Ivy de certo modo é responsável pela indicação de Romário ao Prêmio Trip Transformadores categoria Acolhimento, principalmente pelas diversas campanhas que ele tem realizado Brasil afora e pelo exemplo de ca­rinho, respeito e perseverança que tem dado a todas as pessoas que compartilham, direta ou indiretamente, das mesmas dificuldades.
Filho de Edevair de Souza Faria e Manuela Ladislau Faria, Romário nasceu no Jacarezinho, subúrbio carioca, onde viveu até os 3 anos de idade. Depois se mudou com a família para a Vila da Penha, onde começou a jogar no time montado pelo pai. Logo Romário seria convidado a jogar no infantil do Olaria, passaria pelo Vasco da Gama, se transformando em artilheiro e conquistando a chance de atuar no futebol europeu. Passou por PSV-Eindhoven, Barcelona, Valencia, Flamengo e Fluminense. Com o tempo, Romário foi conquistando cada vez mais prêmios. Acumulou títulos importantes como o de Melhor Jogador do Mundo e Melhor Jogador da Copa, ambos em 94, a Bola de Ouro de 2000, o Chuteira de Ouro e o Craque do Brasileirão em 2005. Além disso, aparece no topo do Hall da Fama do PSV, na Holanda, e ainda carrega com orgulho os elogios rasgados do craque Tostão ao seu futebol – sem esquecer que o Baixinho até hoje é cumprimentado nas ruas por ter tirado a seleção brasileira de um longo jejum. Romário vestiu a camisa verde-amarela pela última vez em 2005, prestando homenagem à filha Ivy ao entrar em campo para jogar contra a Guatemala, no Pacaembu, São Paulo, quando vestiu uma camiseta trazendo a mensagem: “Tenho uma filhinha down que é uma princesinha”.
O nascimento da filha do casal, considerado um divisor de águas na vida do jogador, mudou a vida de Romário. “Meu marido passou a ter os pés no chão, desceu da nuvem e viu que é uma pessoa normal. Percebeu que até ele, Romário, pode gerar um ser humano excepcional”, reflete a esposa.
Os exames durante a gravidez de Isabella não detectaram problemas com Ivy. “Passei uma gravidez muito tranqüila. Só soubemos do Down quando nossa filha nasceu”, conta. Hoje a pequena Ivy pratica natação duas vezes por semana, fisioterapia e sessões de fonoaudio­logia. “Todo dia, quando chega em casa, o Romário faz questão de repetir os exercícios da fisioterapeuta e da fonoaudióloga”, orgulha-se a mãe. A dedicação do Baixinho para dar qualidade à vida de Ivy e outras crian­ças que vivem na mesma condição que a filha aumenta a cada dia. No dia 21 de março deste ano, Romário esteve no Senado Federal, em Brasília, para lançar a campa­nha “Aprendendo com as Diferenças”, que marcou a data como o Dia Mundial da Síndrome de Down – referência aos três cromossomos no par 21 (21/3), presentes nos portadores da deficiência.

LUCINHA ARAÚJO
A mãe do cantor Cazuza tenta superar a morte do filho acolhendo e orientando pessoas portadoras do vírus da Aids, que a cada ano atinge 5 milhões de novas pessoas no mundo.

 

Maria Lúcia da Silva Araújo era mãe de Agenor de Miranda Araújo Neto – mais conhecido por poetas, músicos, compositores e roqueiros como Cazuza. O ano era 1987. E a notícia que rapidamente se espalhou pela família e estarreceu a todos os brasileiros não poderia ser mais dura: Cazuza havia contraído o vírus HIV. Em uma época em que o tratamento era quase boato, Lucinha fez as malas e embarcou com o filho para Boston, nos Estados Unidos, para buscar a ajuda que diziam estar na fronteira do impossível. Três anos mais tarde, aos 32 anos de idade, inúmeros tratamentos e uma saúde frágil que o deixou pesando apenas 38 quilos, Cazuza faleceu.
Mesmo com a morte prematura do filho, Lucinha arregaçou as mangas mais uma vez para ajudar ainda mais pessoas. E no enfrentamento diário do vírus
causador da Aids ela encontrou apoio, novos medicamentos anti-retrovirais e, aos poucos, foi chamando a atenção das pessoas para os riscos de contágio dessa grave doença, além de lutar para tentar minimizar o desespero e o preconceito que acompanham o soropositivo, sobretudo durante a infância. “Nenhuma das crianças que estão abrigadas na casa de apoio são meus filhos, mas os considero como tais, pois ainda tenho dentro de mim um sentimento maternal muito forte”, ela afirma. Aos 71 anos, Lucinha ainda acredita na possível cura da Aids e na força da prevenção.
No mesmo ano da morte do filho, Lucinha fundou no Rio de Janeiro a Sociedade Viva Cazuza, instituição cujas atividades vêm servindo de exemplo para outros Estados brasileiros e que beneficia diretamente a Casa de Apoio Pediátrico para crianças carentes portadoras do vírus HIV, em São Paulo, um site de notícias sobre Aids e um projeto que busca a adesão e ainda promove o tratamento de pacientes no Hospital da Lagoa e no Instituto Estadual de Infectologia São Sebastião, no Rio de Janeiro.
Ao lado do marido, João Araújo, ela vem conseguindo aumentar o número de leitos destinados aos pacientes com Aids tanto nos hospitais particulares como nos da rede pública, sempre ajudando do jeito que pode na reforma de enfermarias e berçá­rios, na realização de campanhas de conscientização, participando de debates, discutindo a importância do remédio gratuito e atuando na arrecadação de cestas básicas para os portadores de HIV. Assim Lucinha Araújo tornou-se símbolo na luta pela prevenção e controle da doença no Brasil. Há 17 anos à frente da Viva Cazuza, planeja este ano escrever um livro sobre a sua experiência na fundação e lançar um documentário sobre a história do filho, nos moldes do longa-metragem Cazuza: o Tempo não Pára, de Sandra Werneck, com Daniel de Oliveira no papel do cantor, filme que considera um retrato fiel da sua família no auge da crise – é inspirado em seu livro Só as Mães São Felizes, escrito em parceria com a jornalista Regina Echeverría.
Atualmente Lucinha vive em Ipanema. Chegou a cursar direito, mas os números falaram mais alto: “Segundo a Unaids, a cada ano 5 milhões de pessoas se infectam com o HIV no mundo e 3 milhões morrem por causa do vírus. A Organização Mundial de Saúde (OMS) havia previsto, no início da década de 90, que o Brasil ultrapassaria a casa de 500 mil casos de Aids no ano 2000. Graças ao trabalho de prevenção, e mesmo com todas as dificuldades, temos hoje em torno de 160 mil pacientes cadastrados no Ministério da Saúde”, enfatiza.

» LEIA O QUE JÁ FOI PUBLICADO SOBRE ACOLHIMENTO:

Trip #137 – Acolhimento
Especial Desarmamento
Páginas Negras: Rubens Barrichello
Reportagem: nos meandros de Brasília



 
 
 
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