JÚNIOR Idade: 19 Profissão: técnico em informática
"“Acho absurdo você ter que pagar R$ 100 num DVD de um
filme... se os valores fossem mais acessíveis talvez não houvesse
pirataria. Sempre que eles fecham um site de download, aparecem
outros dez. Faço upload há dois anos e o que me motiva a lançar
mais é o agradecimento dos usuários.”
Vida de pirata virtual não é fácil. Embora seja bacana navegar num oceano onde saltam livros, músicas e filmes de graça, pouca gente pensa em quem disponibiliza esse material na rede. “Subir” conteúdo para a internet dá trabalho. Digitalizar um CD pode demorar três horas e ripá-lo outras duas.
A parte mais rápida do processo, que é lançá-lo na rede, toma também um bom tempo, dependendo da banda disponível. Sem contar a paciência exigida para escanear a capinha do álbum e fazer o serviço benfeito. No mundo do compartilhamento virtual, hoje responsável por mais da metade de todo o tráfego da internet, esses piratas suam a camisa. Mas parecem não querer dinheiro. Fazem de graça e com um sorriso no rosto, na mesma lógica do vizinho que te empresta um bom livro. Querem um pouco de fama, um pouco de amizade e um pouco de diversão. E os uploaders esperam que você, representante do universo dos downloaders, tenha a bondade de retribuir com pelo menos um “obrigado”.
Nem sempre o mar está calmo para esses navegadores que alimentam a rede com tudo o que têm – ou não têm – direito. Considerados criminosos por violação dos direitos autorais, os piratas dos bits têm receio de conceder entrevistas. No fórum do The Pirate Bay, um site de download com 3,5 milhões de usuários registrados, postei um tópico explicando a ideia da reportagem e pedindo que o uploader interessado me enviasse um e-mail. A primeira resposta demorou cerca de 15 min. “Conversar por e-mail não é uma boa ideia. Você poderia rastrear nosso IP e colocar-nos em problemas. Como temos certeza de que você é realmente uma jornalista?”
Respondi com 20 perguntas e tentei provar que não sou uma agente de polícia (por sinal, como posso saber se eles não são policiais disfarçados de uploaders?). Em poucos dias, 11 respostas. Apesar da cautela, eles estavam dispostos a falar. Seis deles inclusive toparam criar, no site flashface.ctapt.de, os autorretratos virtuais que ilustram esta reportagem. Depois entendi o porquê de generosidade, como comentou um uploader brasileiro: “Nos chamam de piratas, mas não conhecem nosso mundo. Por isso gosto da ideia da reportagem. Mostrar o outro lado, mostrar que somos pessoas normais”. Tito, um estudante de engenharia elétrica de 22 anos, acertou em cheio. Queríamos justamente entrar no universo desses “procurados pela polícia”para saber quem são e por que violam leis em benefício da comunidade virtual (e para desespero da indústria do entretenimento).
FÊ Idade: 30 Profissão: médica
“Legendar não é fácil, mas pode ser divertido. Além de praticar
meu inglês, fiz grandes amigos. Gosto de compartilhar,
assim como gosto de ler e ir ao boteco com os amigos.
É um hobby.”
Uma pergunta específica gerou polêmica nesse primeiro contato com piratas estrangeiros. “Vocês já ganharam dinheiro ‘subindo’ material para a rede?” A resposta foi rápida e ácida. “Upar não é um business, é um hobby”, me contou um deles. Eu não sabia disso. Em comunidades do Orkut dedicadas ao compartilhamento, anúncios como “procura-se uploader” me fizeram pensar que a atividade poderia ter virado uma profissão. Mas não. A lógica do mercado parece não existir no mundo do compartilhamento. “Muitas pessoas nos chamam de piratas, mas no fim do dia nós somos compartilhadores voluntários, não a escória que usa a rede para vender material e ganhar dinheiro. A mídia trata esses dois perfis como iguais, mas acho que você deveria mostrar a diferença”, pede um uploader que se identifica como Sharkmister.
Nos últimos anos, instituições de defesa dos direitos autorais têm aumentado o cerco contra os piratas do
compartilhamento virtual. A caça aos sites de download e aos piratas virtuais chegou a seu ápice em meados do ano passado nos Estados Unidos. Daniel Dove, um norte-americano de 26 anos, foi condenado a 18 meses de cadeia, seguidos por dois anos de liberdade condicional, além do pagamento de uma multa de US$ 20 mil. A Justiça americana estima que, nos últimos anos, processou 30 mil pessoas por quebra de copyright.






















