Revista Trip

 
Tópico: Sono
Assuntos:

Comportamento

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Te vejo nos meus sonhos

Uma trip do Fórum Mundial Psicodélico, na Suíça, a um workshop de sonho lúcido no Hawaii
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01.06.2008 | Texto por bruno torturra nogueira Fotos bruno torturra nogueira

 

Trip envia seu repórter ao primeiro Fórum Mundial Psicodélico, na Suíça, para encontrar o lendário dr. Albert Hofmann, 102 anos, descobridor do LSD. Mas ele só consegue achá-lo no Havaí. Primeiro em um sonho lúcido, durante um workshop com Stephen LaBerge, papa do assunto. E, um dia depois da morte de Hofmann, em uma viagem de ácido puro

texto e fotos bruno torturra nogueira, de basel e havaí  ilustrações zansky

Havaí, 26 de abril

Então é isso: esta matéria é um fracasso. Que vergonha. Stephen LaBerge desistiu da turma, sem mais nem menos. "Vocês são umas bestas", disse algo assim e partiu, deixando para trás 14 alunos e seus companheiros de workshop. Quanta grana, ou melhor, quanta verba editorial foi gasta para que o presente repórter desfrutasse de nove dias em um curso que soava promissor. Dreaming and Awakening, uma série de aulas e exercícios que oferecem ao pagante a chance de obter a lucidez e poder controlar aquela hora doida em que seus olhinhos mexem depressa e seu corpo está entregue a uma doce paralisia: o sonho.

Um curso de sonho lúcido, resumindo, com o papa do assunto, Stephen LaBerge, Ph.D. Pesadelo, melhor dizendo. Pois, se agora mesmo eu estava em um pacato refúgio à beira-mar da Big Island do Havaí, olho para o lado e só vejo a avenida Rubem Berta. Plena tarde horrorosa de São Paulo. Ao meu lado caminham Keelin e Dominick, os parceiros de LaBerge. Eles mantêm o sorriso e tentam passar um pano no surto arrogante do dreamstar, temerosos do que esta reportagem vai relatar aos senhores leitores. "Calma, Bruno", a doce Keelin começa, "Stephen nunca fez isso. a maioria dos alunos sai muito satisfeita." Digo que sim, mas ainda me assombra a idéia de terminar tão esperada matéria com uma grande brochada onírica. Mas. Mas.

Hum.

Paro o passo e me pergunto. Keelin e Dom em São Paulo? Na Rubem Berta, indo a pé para o aeroporto? Espera. Espera. Presta atenção. Tem um outdoor do outro lado da rua. Publicidade exterior em SP?! Ahá! Me lembro! Sim, eu me lembro. Stephen não desistiu coisa nenhuma. Estou no meio de um sonho. Sim! Sim! Isso é um sonho!

Agora só preciso recordar das lições:

 

1- Esfregar as mãos. Sim, esfrego mãos de sonho como forma de estabilizar a presença. Sinto meu corpo sólido e seguro no sonho.

2- Não esquecer. Segurar a lucidez na base da martelação mental. Como um mantra repito: estou sonhando.

3- Caprichar. É o que faço.

Despeço dos dois com educação e saio voando como se a gravidade fosse um opcional do mundo.

 

Meu corpo está em uma cama de solteiro em um quarto de um retiro predominantemente gay e budista na Big Island. Uma máscara desajeitada cobre meus olhos com sensores de movimento rápido dos olhos (REM), timers, alarmes e LEDs piscantes.

Meu cérebro está influenciado por dias de vontade, exercícios, informação e duas pílulas roxas com extratos de plantas psicoativas - um turbo de memória para ajudar o sonhador lúcido na sua tarefa número um: lembrar que está sonhando.

Já minha consciência está aterrissando de barriga em um gramado bem aparado de uma mansão com vista para o oceano. Um cachorro enorme me recebe deitado no chão e diz: "É divertido!". Segue-se um sonho longo e exploratório trespassado de cenas cortadas e palavras que são lidas como frases. Atravesso paredes, faço vôos acelerados até que. de novo. eu ME LEMBRO. Ao lado do meu corpo, em cima do criado-mudo de meu quarto, o plano de sonho que redigi dizia a intenção da noite com todas as letras: encontrar Albert Hofmann.

Em um golpe só no sonho, me vejo no apartamento do chapa Ronaldo Bressane. Sentado em uma larga cadeira escura está ele, dr. Albert Hofmann, o pai do LSD, aos 102 anos de idade. Primeira pergunta:

- Recebeu meu bilhete, doutor?

 

Basel (Suíça), mais de um mês antes, 20 de março

Estou no lobby de um hotel bacana, redigindo um bilhete escorado no balcão.

- Pois não, senhor?, chega um funcionário ariano.

- Estou procurando o quarto do dr. Albert Hofmann.

Enquanto o fleumático bell boy vasculha um monitor oculto, a nata da psicodelia engrossa no leite suíço, fazendo fila para o check in. Eles estão ali para participar do primeiro Fórum Mundial Psicodélico. Ali do lado pode ser avistado Ralph Metzner, dos mais fluentes e influentes autores de pesquisas e teses psicodélicas. Parceiro de Timothy Leary ainda em Harvard, quando promoviam testes com psilocibina em voluntários. Por ali também está Stanislav Grof, psicólogo tcheco, radicado nos EUA, considerado por dr. Hofmann como o padrinho do LSD. Ele abriu largas estradas na psicoterapia com estados alterados da consciência e desenvolveu campos como a psicologia transpessoal e técnicas de respiração holotrópica. Carolyn Garcia, mais conhecida como Mountain Girl, está sentada com seu sorriso de Buda em uma poltrona. Comovente observar tão bela senhora, passageira VIP no ônibus psicodélico de Ken Kesey que percorreu os Estados Unidos nos anos 60, esposa de Jerry Garcia, do Grateful Dead. Seria possível gastar toda a reportagem dizendo quem eram aqueles sujeitos que lotavam o saguão do hotel. Mas agora não, o bell boy trouxe seu saldo:

- Ele não chegou. Mas tem a reserva. Quer deixar recado?

- Um bilhete, sim?

 

Caro dr. Hofmann,

me sinto feliz em lhe escrever de próprio punho. Especialmente hoje, depois de tantas coincidências que me trouxeram aqui a Basel. Há tempos procuro uma forma de me comunicar com o senhor.

Meu nome é Bruno, sou repórter de uma revista brasileira chamada Trip. Fui enviado para cá na ocasião do fórum para tentar entrevistá-lo.

Se uma entrevista não for possível, peço o quanto de tempo puder dispor para algumas palavras e para que eu possa lhe entregar um exemplar de nossa publicação.

Formalidades à parte, para mim seria uma imensa honra. Sou grande admirador de seu trabalho e rogo para que seu legado não se perca nas sombras de leis ignorantes.

Voltarei a procurá-lo mais tarde. Por enquanto, estou no mesmo hotel do senhor, quarto 516.

Muitas felicidades

Bruno

 

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