Revista Trip

 
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Postado em 04.02.2010 | 13:02 | André Caramuru Aubert
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Do meu ponto de vista, já causava estranheza também o fato de que, ao crescer, as diferenças entre estilos familiares começavam a ficar mais claras. Até porque, embora houvesse uma inegável coragem, de meu pai e Marie, em deixar de lado as convenções e apostar numa vida meio hippie, essa percepção era difícil para mim. E as posições conservadoras deles já me incomodavam. Menos as referentes a política, que ainda não significavam grande coisa, mas com relação a educação, a relacionamento entre pais e filhos. Eu acreditava gozar de um respeito e de uma liberdade, em casa, que não tinha quando ia vê-lo. Em casa eu escolhia se ia tomar banho ou não (em geral, não ia), e quando. Escolhia o que comer, e quanto. O que vestir, o que fazer, se brincar, ler ou ver TV. Não que minha mãe não fosse também, do seu jeito, autoritária. Mas o estilo dela era aquele mais manso, mais manipulador, em que você acaba fazendo as coisas que ela espera que você faça, mas você pensa que a decisão foi sua. De uma forma ou de outra, quando estava com meu pai, a autonomia era muito menor, às vezes nenhuma. Em qualquer lugar que estivesse, eu encarava de frente quem me tolhesse as liberdades que, eu acreditava, se minha mãe me dera, não era algum fulano que iria tirar. Lá, não. Lá, mais do que o respeito por meu pai, eu morria de medo da mulher dele.

Carouge, Genebra, óleo de Jean Aubert, novembro de 1949

Carouge, Genebra, óleo de Jean Aubert, novembro de 1949

Teve uma vez, na rua Joinville, que, no almoço, como sempre, ela fez meu prato. Comecei a comer, e achei a carne do bife horrível. Não sei o que era aquilo, só sei que não dava para engolir. Só que não havia saída. Estava no prato, não podia sobrar. Do alto da minha sabedoria de criança, concluí que era carne de gente. Quando cheguei a essa conclusão, tudo ficou claro, era uma certeza absoluta e não dava mais para engolir um pedaço que fosse. Tinha gosto de carne de gente, só podia ser carne de gente! Aquele foi, possivelmente, o almoço mais difícil da minha vida. Porque eu não podia engolir a carne, mas também não podia deixar que sobrasse no prato. Então eu punha na boca um por um cada pedaço de carne, mastigava, mastigava, mastigava. E disfarçava, disfarçava, disfarçava. E dava um jeito de limpar a boca com o guardanapo, tirar o pedaço da boca, levar o guardanapo ao colo e esconder a carne no bolso da calça. Não sei como, consegui esconder um bife inteiro, em pedaços, sem ser descoberto. E nem sei se ela não me fez repetir, já que eu parecia ter gostado tanto do primeiro bife. O engraçado é que passei muitos anos acreditando que aqueles bifes eram realmente de carne de gente. Bem mais tarde é que concluí que aquilo devia ser carne muito barata, ruim mesmo: menos antropofagia, mais falta de dinheiro ou pão durice mesmo. Fosse com carne humana ou de vaca, o fato é que nessa época passava os fins de semana com eles não mais do que duas ou três vezes por ano.

Em algum momento, nessa época, eu meio que desisti de meu pai. Quantos anos eu tinha, exatamente? Talvez nove, ou dez. Haviam sido muitos anos de rejeição, e a coisa de alguma maneira se acumulara. Não que isso estivesse claro, então; que fosse uma decisão planejada, racional ou consciente. Acho que simplesmente aconteceu, ou foi acontecendo, sem que eu tenha percebido o processo. Ainda tinha um amor enorme e uma quase veneração por Jean, mas já não fazia questão de vê-lo. Até porque para vê-lo, teria que abrir mão de um fim de semana em Ubatuba, ou mesmo na fazenda de meu avô. E preferia ir para Ubatuba, que era um evento que me fazia atravessar a semana inteira em contagem regressiva. Durante um bom tempo, eu vi meu pai uma ou duas vezes por ano, no máximo. Pois agora, mesmo quando ele queria, eu já não fazia questão. E, para falar a verdade, não acho que ele quisesse muito. É que, para ela, manter as aparências de uma família normal era algo muito importante, e numa família normal o filho do primeiro casamento tem que aparecer, de vez em quando.

Ilha Grande, Angra, 1974 ou75

Ilha Grande, Angra, 1974 ou75

Ao longo dos anos seguintes, conforme a B. ia crescendo, aumentava também a pressão para que eu brincasse com ela. Ela, que não tinha culpa por nada daquilo, ouvia falar o tempo todo do “Irmão mais velho”, ao passo que eu passava meus dias sem nem sequer me lembrar que ela existia. Ora, ela para mim era pequena, menina, e esquisita, porque criada por aqueles malucos, além do fato de que os malucos eram gringos e ela era uma perfeita gringuinha no exílio, que aprendeu a falar francês antes do português e viria a fazer toda a vida escolar em escolas francesas. O pior de tudo, porém, é que não tínhamos intimidade, pois não crescíamos juntos vivendo como irmãos. E irmãos que crescem juntos desenvolvem uma intimidade, baseada ora na mútua arreliação, ora no mútuo apoio, que nós, infelizmente, não tínhamos. De forma alguma eu não gostava dela. Ela era uma criança bonitinha, doce, tranquila. Posso dizer tranquilamente que não tinha ciúmes dela, que não a via como alguém que estava roubando meu pai de mim. Essa perda, na verdade, acontecera antes dela nascer. Só que eu, supostamente, devia tratá-la como irmã, e isso eu não sentia que eu era, eu não queria e nem mesmo, no fim das contas, saberia como fazer. Então, às vezes eu estava lá, matando o tédio do tempo que não passava lendo algum livro, e meu pai entrava na sala: “Você devia ir brincar um pouco com a sua irmãzinha.” Aí eu ia. Vamos brincar de Forte Apache? Ela topava, mas não sabia brincar, não queria que soldadinhos ou índios morressem, e melava tudo. Então vamos fazer corrida de carro? Vamos. E aí eu ia pedalar o jipinho verde musgo do exército enquanto ela corria com o tico-tico, eu naturalmente ganhava e ela ficava triste, então, sob os olhares vigilantes de mãe (dela) e pai (nosso), eu tinha que deixá-la ganhar, e a brincadeira acabava, melada de novo. Na verdade, a vida da B., com eles, foi infinitamente mais difícil que a minha, e isso não apenas naquela época, mas sempre. Mas eu era então muito criança para perceber, e mesmo que conseguisse, isso pouco teria mudado minha relação com ela.

Praia Grande, Ubatuba, 1976

Praia Grande, Ubatuba, 1976

Mas acho que o grande divisor de águas no fim da vontade de ir para lá ocorreu num certo fim de semana em que, por algum motivo, era conveniente para Jean et Marie que eu fosse para a casa deles. Eu não queria ir, era um fim de semana de Ubatuba. Minha mãe ficou numa saia justa, porque ficava parecendo que ela é que não estava deixando, e insistiu comigo para que eu fosse. No fim chegamos a um acordo: eu iria para lá depois da escola, na sexta-feira, e quando ela e o Ewaldo fossem para Ubatuba, à noite (eles nunca viajavam cedo), eles me pegariam lá. Pareceu um acordo justo, e topei. Meu pai topou, mas não teve coragem de contar para a esposa. Então, à noite, quando ela soube, ela deu um escândalo daqueles, dos clássicos. Berrava para o bairro inteiro ouvir, batia portas, quebrava objetos. Saudades do André? É óbvio que não. O que ela berrava era que “eles” não me queriam lá, que não confiavam nela para cuidar de mim, que ela não era respeitada. O problema dela era sempre ela. Jean, fraco e inepto como sempre, fingiu que não era com ele e não se posicionou. Não conseguia enfrentá-la, não teve coragem de dizer que aquela era a combinação que havia sido feita, que ninguém me proibira de ficar lá, que era eu que queria viajar. Então, ao invés disso, ele, covardemente, me pediu para ficar. Eu me senti espremido, queria ir embora dali, mas tive pena de meu pai. Pelo telefone, minha mãe me disse que eu só ficaria se quisesse, que não estava obrigado. Mas a verdade é que, do lado de lá, ela também não fez muita força para enfrentar a situação, não queria confronto. Acabei ficando. Foi o fim de semana mais longo da minha vida. Passei aterrorizado cada minuto, imaginando quando aquela louca iria ter outro ataque (e sim, ela os teve), e ao mesmo tempo imaginando, a cada minuto, o que eu estava perdendo por não estar na minha verdadeira casa, com a Generosa, a Rosely, meus amigos, o mar.

Talvez porque eu tenha tido a dor de ver claramente a fraqueza e a miopia de meu pai cedendo gaguejante diante da loucura agressiva da mulher dele, talvez porque eu tenha experimentado uma forte sensação de “não pertencimento”, a verdade é que, ali naquela casa, durante aquele fim de semana, alguma coisa se quebrou em mim, com relação a meu pai, para sempre.

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Postado em 02.02.2010 | 12:02 | André Caramuru Aubert
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“You try so hard
But you don’t understand
Just what you’ll say
When you get home

Because something is happening here
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones?”


Bob Dylan, Ballad of thin man



Agora, enfim, eu ia conhecer minha irmãzinha. Situação, no mínimo, confusa. Eu não vira meu pai se casar. Não conhecia sua casa nova. Mal tivera contato com a felizarda noiva. E agora eu ganhava uma irmã. E eu devia, supunha-se, ou pressupunha-se, estar feliz com isso. Mas eu não estava feliz, nem infeliz tampouco. Não estava nada. Quando vi a B. pela primeira vez, ela estava numa cômoda, com a fralda sendo trocada pela mãe. Lembro do cheiro, cheiro de creme, de hipoglós, acho. E de algum perfume de neném, não sei se já havia por aqui, pelo menos se havia eles não usavam, fraldas descartáveis.

No verso está escrito  To Jean Aubert with love from Daddy, 27 July 1937

No verso está escrito To Jean Aubert with love from Daddy, 27 July 1937

Meu pai ainda trabalhava na Volkswagen, mas já buscava uma porta de saída, pois não suportava aquilo. Ele naqueles dias quase não pintava. Marie era pianista, chegara a tocar em concertos de menor vulto, e agora estava entre seguir dando aulas de piano para crianças e adolescentes ou virar dona de casa e mãe em tempo integral. Claro, isso tudo entre as crises de loucura. O parto da B. não foi bem. Contou-se que a Marie passou muito mal, que quase morreu, e com consequências sérias para a saúde e a impossibilidade futura de ter outros filhos. Não sei. Pode ser tudo invencionice de maluco, de gente que gosta de drama, e a Marie era assim. Mas pode também ser verdade. E pode ser um pouco das duas coisas.

Confesso que é muito difícil, para mim, pensar e escrever sobre aquele período, aquele universo. Primeiro, porque tive pouco contato com aquilo tudo. Segundo, e mais importante, porque aquilo me incomoda, em muitos sentidos. E escrever sobre aquele universo é trazê-lo um pouco de volta, e refazer, na mente, os espaços, os cheiros, a tensão sempre no ar, como naqueles dias de bafo quente um pouco antes de uma tempestade de verão. Como era a vida deles, lá?

Eles tinham um grupo reduzido de amigos, alguns dos quais se reuniam lá, uma vez por semana, à noite, para ouvir música clássica. Eram, contando Jean e Marie, uns três ou quatro casais. Lunáticos, todos eles. Estava-se em fins dos anos 60, quase entrando na década de 70, tempos de Beatles, Woodstock, Bob Dylan, Jimi Hendrix e Janis Joplin, enfim, faça a sua escolha. E Jean e Marie, ela bem mais nova que ele, reuniam-se com amigos, para sorver programas musicais previamente acordados entre todos, em que um ou outro casal era incumbido de levar os elepês, cobrindo uma ampla gama de estilos: às vezes mais clássicos, com Bach, Mozart, os primeiros Beethoven; às vezes os românticos, com algum Beethoven, Liszt, Chopin; neo-clássicos, como Stravinsky, ou pós-românticos, como Mahler; ou ainda modernos, como Schoenberg, Berg, Shostakovich. E aí eles punham os elepês na vitrola e ficavam todos em silêncio, no máximo fumando um cigarro, ou cachimbo, olhando para o teto, para o vazio, levantando a sobrancelha ou franzindo a testa num trecho ou noutro. Quando acabava a audição, aí então podia-se falar, e criticava-se: “o andamento que Bruno Walter impôs à Sexta fez com que certos cromatismos se perdessem, penso que Toscanini saiu-se melhor aí.” “Ah, mas Toscanini alongou-se, o senhor há de concordar, um pouco demais, no segundo e terceiro movimentos”. “Não é mau pianista, mas acelera demais, Glenn Gould. Vai bem com Beethoven, mas com Schubert ainda prefiro Schnabel, que domina as pausas como ninguém.” (essa atitude pedante, aliás, meu pai nunca perderia, nem mesmo moribundo, pouco antes de morrer. E nem sempre o pedantismo, devo dizer, era baseado em conhecimentos sólidos; em muitos casos, senão na maioria, eram pura e simplesmente pretensão e chatice).

E ficavam nessa frescura pseudo culta, pseudo civilizada, bebendo com moderação, fumando o que a sociedade mandava fumar. Meu pai, cachimbo. Encerrado o programa e os debates que se seguiam, as visitas iam embora, e então era a hora da Marie começar seus escândalos, acusando Jean de ter flertado com fulana, ou beltrana de ter olhado estranho para ele, e assim por diante. O ciúme dela, de qualquer coisa, era tão grande que, quando eu ia para lá, minha mãe não podia me levar. Eu ia com a Bê, ou com o Ewaldo. Na época, as coisas eram até boas. Com o tempo, elas ficariam muito piores, pois eu nunca ouvi falar que loucura melhore com a idade, além de que ela passou a beber muito, e os escândalos passariam a ocorrer também, e principalmente, enquanto as visitas estavam presentes. Os ataques de ciúme dirigidos contra o atrapalhado, inepto e tímido Jean, que jamais teria a capacidade de, digamos, agarrar uma senhora na cozinha, enquanto os outros estivessem na sala, em plena tertúlia cultural, não impediam que, a partir de um certo momento, ela fizesse exatamente isso: agarrasse visitas em algum cômodo da casa, enquanto Jean estivesse contando interessantíssimas histórias dos tempos dos escoteiros, para outras visitas, na sala ou no jardim. Para meu pai o saldo da relação com ela ainda traria outro prejuízo: tímido, com pouquíssimos amigos, ele ainda perderia, com a Marie, o contato frequente com seus pais e irmãos, especialmente meu tio Marc, de quem ele gostava muito, e que ela conseguiu afastar. Ele contava, sempre magoado, a história de que um dia, ao entrar em um restaurante em Santo Amaro, com Marie, viu numa mesa Jacques e Donana, que já moravam no Rio, jantando com outras pessoas. Como? O pai viera a São Paulo e não o avisara, não o procurara? A mágoa dele foi enorme. Mas, ora, eram sinais dos tempos, do relacionamento com Marie, que o pusera à parte de tudo e de todos. E, passado o choque inicial, ele não tardou em culpá-la. Era muito fácil, porém, responsabilizar a mulher. No fim das contas, para todas as besteiras que fez na vida, Jean costumava ter à mão, sempre, duas grandes desculpas: primeiro a mãe, com a história do Grande Abandono, e depois a Marie, com sua louca possessividade.

Com relação a Volkswagen, a porta de saída começou a ser construída nessa época. Meu pai e Marie começaram a estudar técnicas antigas de esmalte sobre metal e, inicialmente como hobby, passaram a criar peças de bijouteria, como colares, brincos e anéis, esmaltadas. Eles transformaram a sala da frente da “Joanvile” em ateliê, instalaram no meio dela uma grande mesa e compraram um forno. Logo eles compraram um espaço na feira hippie da Praça da República e, aos domingos, instalavam lá uma barraca e vendiam as peças. Como o trabalho era original e inusitado, eles vendiam razoavelmente bem, até que, a partir de um certo ponto, meu pai decidiu que dava para sair da Volkswagen e se dedicar ao artesanato em tempo integral. Eles ficavam o dia inteiro na oficina, como chamavam a sala transformada em ateliê. A Marie acabou se especializando nas peças menores, nas bijouterias, enquanto meu pai cuidava mais das coisas maiores. Tinha um rádio, que ficava o tempo todo sintonizado na Cultura FM, e quando uma música acabava, não importa o que você estivesse falando, os dois faziam “Psiu!!!”, bem alto, e se concentravam para ouvir o locutor falando com aquela voz eternamente pomposa da Cultura: “de Igor Stravinski, A Sagração da Primavera, Orquestra da Rádio de Praga, regência de...” Só depois de dada a ficha técnica, com algum eventual comentário, é que se poderia falar novamente.

São Luís do Paraitinga, guache de Jean Aubert, 1956

São Luís do Paraitinga, guache de Jean Aubert, 1956

O negócio evoluiu. Eles passaram a frequentar também a feira hippie do Embú e, depois de algum tempo, conforme também eles dominavam mais e mais as técnicas do esmalte, começaram a surgir novas frentes comerciais. A fábrica de lustres Dominici, por exemplo, passou a comprar peças maiores, para montar luminárias. E empresas de brindes encomendavam caixas, porta-lápis e cortadores de papel esmaltados, com logotipos personalizados de clientes, dos quais me lembro de alguns com General Motors, IBM e Varig. Algumas tentativas de arte “pura”, em esmalte, também foram tentadas por meu pai, que estilizou obras suas e de artistas com os quais se identificava, como seu amigo Lothar Charoux, e conseguiu espaços privilegiados para algumas exposições, incluindo o MASP.

Conforme essa atividade com o esmalte se desenvolvia, meus eventuais fins de semana com eles incluíam manhãs passadas numa barraca, na Praça da República ou no Embú, ajudando a vender. Eu tinha sentimentos conflitantes com relação a isso. Por um lado, queria continuar me orgulhando de meu pai. Por outro, me sentia envergonhado dele e da situação, de ficar sentado numa barraquinha, vendendo bijouterias, na verdade sofisticadas, mas isto não era muito claro para mim, ao lado de pessoas que vendiam bonecos de gesso do Mickey e quadrinhos de feltro da Turma da Mônica, para um público estranho e que me parecia primitivo. Nesse ponto, me parece, o problema era mais meu do que deles. Já era o ranço de família quatrocentona de minha mãe se manifestando, revoltado, numa situação que para mim soava subalterna e menor, e que para um gringo parecia absolutamente normal. No futuro, quando perguntavam a meu pai o que ele fazia, ele respondia “artesanato”, algo que me incomodava. Eu respondia, sempre, “arte”. De qualquer forma, a capacidade de trabalho dele, e de Marie, era enorme. Eles produziam aquele artesanato a semana inteira, às vezes até tarde da noite, e nos fins de semana ainda iam montar barraca em feira.

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Postado em 28.01.2010 | 12:01 | André Caramuru Aubert
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Andre na Praia Grande, Ubatuba, 1976

Andre na Praia Grande, Ubatuba, 1976

Nesse ponto, de qualquer forma, havia um conflito latente entre mim e o mundo que o Ewaldo levara com ele. Jornalista excepcional (de reportagens históricas, como a descoberta, escondido na Bolívia, do SS alemão Klaus Barbie), inteligente, culto, de uma cultura sólida e clássica moldada em seminário católico; mas por outro lado, com personalidade forte e uma certa dose de  egocentrismo, ele sempre ocupou, com muita intensidade, todos os espaços em que esteve, tendendo, ainda que sem querer, a sufocar as pessoas em volta. E foi assim com minha mãe, que, com sua personalidade mais contida, foi a vida inteira cedendo, cedendo, cedendo. E a casa de Ubatuba era o melhor exemplo. Lotada, nos fins de semana, de parentes dele, que não eram más pessoas, mas que eram muitos, e chegavam cedo, e saiam tarde, e falavam alto, e bebiam, e comiam, muito. O lado bom é que, em parte por essa sensação de estar na Roma invadida pelos bárbaros, num determinado momento, mais tarde, eu comecei a surfar, e passava o dia inteiro dentro da água.

Mas então, de repente, o Templo foi definitivamente profanado. Ou, usando uma palavra mais adequada, estuprado. Uma irmã do Ewaldo, que morava em Ubatuba, teve algum problema com a casa dela, e minha mãe cedeu a nossa para ela morar. Pronto: minha casa não era mais minha, tinha agora uma fulana que ocupava os espaços e mandava em tudo. O nome dela era Bessie (homenagem a Bessie Smith, embora a nossa Bessie fosse pronunciada Bêssí, e não Béssiii, como a blues woman americana), ela era uma professora de escola primária em Ubatuba, casada com um funcionário do Departamento de Estradas de Rodagem, o DER. A Bessie, naturalmente, com aquele autoritarismo típico das pessoas de classe média que vivem a decadência social com  pânico e inconformismo, costumava querer se impor a cada suposto subalterno que encontrava pela frente, e logo se encrencou com a Iosa e a Rosely, que por seu lado também não aceitavam aquela invasão de território. Nos fins de semana, nós agora ficávamos na antiga “garagem”, pois a Bessie, o marido e as duas filhas agora chamavam de lar a casa da frente, aquela que meu pai havia construído com as próprias mãos com a ajuda do caiçara Benedito Raposo. Ela mandava lá, e tratava como dela, a casa que meu pai fez e onde eu nasci! Mas o pior não eram os fins de semana, quando minha mãe estava por lá. Eram as férias, quando eu ficava por semanas sozinho, apenas com a Iosa e a Rosely. Agora, armada com as concepções psico-pedagógicas de um tempo longínquo, a Bessie achava que tinha não apenas o direito, mas a obrigação de mandar em mim, de interferir na minha educação, na rotina, na alimentação. Ela nunca conseguiu. Mas eu de qualquer forma me sentia como um francês na França ocupada pelos nazistas e, do ponto de vista prático, era obrigado a passar a maior parte do tempo longe de casa.

Assim, de um jeito ou de outro, em São Paulo ou na praia, rompia-se definitivamente com o passado mítico, outrora localizado em Ubatuba, onde vivera, na imaginação de um garoto, uma família feliz. E o Ewaldo, com todos os defeitos que pudesse ter, foi uma figura presente e carinhosa, para mim, e acabava representando o papel de figura paterna, do qual eu estava tão carente. Pois Jean, cada vez mais, se ausentava. Conforme o relacionamento com a namorada francesa, chamada Marie, se aprofundava, mais e mais ele se afastava. O desequilíbrio mental dela parecia, desde o começo, um caso clínico patente. Ela era emocionalmente instável, do tipo que, de uma hora para outra, e sem motivo aparente, entrava em transe, dando escândalos, berrando, chorando, batendo portas. A família de meu pai também se assustou com aquela figura, mas não houve nada que pudessem fazer para impedir que o carente Jean fosse ficando cada vez mais enredado na relação com ela. E um dos traços da Marie era um ciúme doente com relação a tudo o que, de alguma maneira, lembrava que ele tivera uma vida anterior a ela. Minha mãe, é óbvio, ocupava o primeiro lugar na lista. E eu vinha logo atrás, em segundo. A partir daí, a presença esporádica de Jean se transformou numa ausência quase permanente. Às vezes eu chorava, implorava para que minha mãe me deixasse vê-lo, e ela tentava preservá-lo para mim, em nenhuma hipótese dizendo que ele não queria me ver. Longe de mim, ela telefonava para ele, e pedia apenas isso, que ele me visse. Até porque dinheiro ele nunca deu. Escola, roupa, comida, médico, dentista, brinquedo, biju, tudo era pago por minha mãe, por Cleonice (roupa e sapatos eram com ela, sempre), por Brenno (uniformes do São Paulo, bicicleta, bolas e artigos esportivos em geral), até por Ewaldo. Jean alegava que não tinha recursos, que era pobre. Isso antes, desde a separação. Com Marie, ele era vigiado de perto, e qualquer gasto comigo seria duramente punido por ela. Então minha mãe telefonava, ele atendia, ela implorava que ele me procurasse. E ele ficava bravo: “Eu já falei para não ligar aqui em casa!”. Era a ex-mulher fazendo o papel da “outra”, da clandestina, da que faz telefonemas escondidos. E a ironia da situação é que ela não queria, nem de longe, o marido de volta. E nem queria o dinheiro dele, coisa que não só ela nunca cobrou, como pelo contrário, até evitou, para que ele não se arvorasse em pretextos e direitos. Sem a questão do dinheiro, ela sentia que podia cobrar dele, mais claramente, algum afeto, alguma atenção, ao filho.

1970 foi o ano da Copa do México, do Brasil tricampeão. Meu ídolo era o Jairzinho, e eu vestia, sempre que podia, a camisa 7 amarelinha, com o escudo da CBD (o D de Desportos, que seria mais tarde substituído pelo F de Futebol), e ganhava todos os jogos, desafiando o paredão lá em casa. Foi o ano, também, em que fiquei doente com uma nefrite que me deixou de cama por um mês, o que me rendeu duas coisas. A primeira foi um entupimento estomacal, quando comi uma quantidade absurda de nhocões, uns três ou quatro, um prato que a Bê fazia, massa de nhoque recheada com mussarela, do tamanho de uma baguete grande, molho de tomate por cima.  E a segunda coisa foi uma rara e preciosa visita de meu pai, comovido à força pela doença de seu filho.

Assim que Jean se casou com Marie, em um evento que não sei se teve festa ou comemoração, pois eu, pelo menos, não fui convidado, eles se mudaram para um apartamento na Avenida Nove de Julho, do lado do Centro, não muito longe do prédio da Fundação Getúlio Vargas. Que eu me lembre, só fui lá uma vez. Nesse dia meu pai montou, comigo (eu só olhava), um aviãozinho de madeira balsa, da Aerobrás, um Piper movido a elástico, que atravessava toda a fuselagem, e era retorcido, e aí, quando solto, fazendo girar a hélice e o avião voar. O avião tinha janelas pintadas, e eu pedi para que desenhasse na da frente ele próprio, como piloto. Ele desenhou. E me desenhasse, como passageiro, na terceira janela. Ele desenhou. E a Tuca, a cadela de Ubatuba, que nessa época já tinha morrido fazia tempo, e ele desenhou, e a Tuca ficou na última janelinha, de trás. E pedi que ele desenhasse minha mãe na segunda janela, e não me lembro como ele se saiu da situação, com a Marie por ali, rondando feito um cão bravo. Não tenho certeza absoluta, mas acho que ele desenhou minha mãe sim. E talvez tenha sido por este motivo que, quando torceu o máximo que dava o elástico, fazendo o aviãozinho decolar da mesa da sala, ele soubesse que o Piper iria então atravessar a janela aberta e sair voando, sem qualquer chance de ser recuperado. Para mim, a situação começou com o fascínio de ver que o aviãozinho estava completo, com todos a bordo, todos os passageiros que deviam estar lá, e atingiu o apogeu quando eu vi que ele decolou e voou com sucesso. Em seguida, correndo para a janela, o júbilo deu lugar ao desespero, quando percebi que ele não voaria de volta, que se perderia para sempre, nos vãos sombrios daquele mar de prédios que havia diante de meus olhos. Acho que ficou claro ali, naquela cena da qual nunca me esqueci, que aquela tão preciosa reunião de pessoas (e da Tuca), representada pelos desenhos nas janelinhas do avião, não aconteceria de novo.

Logo Marie estaria grávida, e eles deixaram o apartamento, mudando-se para uma casa um pouco maior, um sobradinho típico paulistano com um pinheiro na frente, na Vila Mariana, rua Joinville (que ele sempre pronunciou, com seu indefectível sotaque francês, “joanvile”), perto da 23 de Maio, mais ou menos na altura onde, alguns anos depois, seria construída aquela caravela/restaurante, “vendida” ao inculto público, na época, como réplica perfeita da nau de Cabral. A casa da rua Joinville foi onde, pela primeira vez, eu pude ver de perto, com clareza e sem disfarces, com todas as cores e todos os sons, a loucura.

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Postado em 26.01.2010 | 17:01 | André Caramuru Aubert
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As mudanças na vida não foram totalmente desprovidas de tensões. Minha avó, que nunca aceitou completamente o Ewaldo, novo marido de minha mãe, embora tampouco gostasse de Jean, morria de medo que as filhas dele fizessem alguma coisa ruim comigo, e obrigou minha mãe a levar a Bê com ela, no papel misto de governanta, cozinheira e guarda costas. De fato, o convívio com as meninas não era exatamente pacífico, embora não houvesse guerra o tempo todo. Mas houve algumas boas batalhas. Como a da vez em que eu derrubei um monte de açúcar no quarto delas, elas quiseram me pegar, eu tranquei a porta do quarto, elas chutavam a porta, tentando arrombá-la. Também foi com uma delas, um pouco mais tarde que, pela primeira vez, eu vi, cuidadosamente retirado de dentro de um sutiã especialmente para mim, um hipnotizante par de peitos de mulher.

O novo casal, a caminho de Buenos Aires (22)

O novo casal, a caminho de Buenos Aires (22)

Minha rotina, então, também mudou. Estudava à tarde, ainda no Vera Cruz, e passava as manhãs ora em casa, ora no escritório de meu avô (onde a conformada doutora Alzira estava trabalhando) na Avenida Liberdade 65, próximo ao Fórum da João Mendes, ora com o Ewaldo, na redação do Jornal da Tarde, no prédio do Estadão, na praça Major Quedinho. As piores manhãs eram em casa, sozinho (com a Bê, não exatamente uma parceira de brincadeiras). Foi aí que comecei a ler e me interessar por história, além de montar aviõezinhos, criar batalhas com soldadinhos, jogar futebol de paredão sozinho (do jeito que eu jogava mal, a única chance que eu tinha de ganhar um jogo era jogando sozinho e, ainda assim, roubando). Nessa época, a única eventual companhia da minha idade em casa era um garoto que subia a rua carregando um latão, vendendo biju, e que se anunciava com aquele plec plec plec que eles ainda usam hoje. Eu comprava um ou dois saquinhos, ele entrava, a gente jogava bola um pouco e ele seguia em frente, para vender o resto. Teve um dia, eu estava com dinheiro acumulado porque guardava toda a semanada, e queria que ele ficasse mais tempo brincando, então comprei o latão inteiro de biju, o suficiente para erguer uma parede, daqueles doces, quase até o teto do meu quarto. A gente jogou bola até a hora do almoço, e eu tive que dar algumas boas explicações depois.

Bem mais divertidas eram as manhãs no escritório de advocacia, onde eu, para passar o tempo, às vezes trabalhava como telefonista, atendendo e passando as ligações. Os telefones eram de disco, pesados, alguns pretos, e a central telefônica tinha interruptores que mais pareceriam, hoje, com disjuntores de caixas de luz, desses que caem, nas casas de praia, quando se liga mais de um chuveiro elétrico ao mesmo tempo. O engraçado era que eu me atrapalhava, e às vezes perguntava se alguém iria atender a ligação enquanto a pessoa que ligou estava do outro lado da linha, ouvindo. Outra coisa que eu fazia lá era editar um jornalzinho para a escola, numa máquina precursora de xerox, bem moderna, que meu avô tinha comprado. A máquina era cara, o papel, especial para ela, era caro, a tinta era cara. E eu mandava ver, imprimindo páginas e páginas, sem que Brenno tenha, nem uma única vez, posto um limite naquela minha precoce vocação para William Hearst. E na verdade, como ele chegava tarde, eu em geral mal o via por lá. Depois, na hora do almoço, eu descia com minha mãe até uma lanchonete na rua Álvares Machado, atravessando a Liberdade bem em frente ao prédio, onde eu invariavelmente comia um cheese salada e tomava uma vitamina de frutas, antes de ser levado por ela para a escola, com os exemplares do jornal que tinha produzido na mala.

Eu também gostava das manhãs na redação do Jornal da Tarde, onde tinha um monte de gente, era sempre uma balbúrdia e todo mundo me tratava muito bem. Fundado em 1966, o JT ainda era quase recém nascido e surgira, na linha do New Jornalism americano, sob o signo da revolução gráfica, do texto ágil, das reportagens inovadoras, e o Ewaldo, que já era então um jornalista experiente, fez parte do grupo que criou o JT e esteve desde o começo no centro dos acontecimentos. Estava sempre por ali o Roberto Pereira, o Bip Bip, especialista em armas e aviões, que um dia me levou para uma ExpoAir em São José dos Campos, junto com um amigo dele finlandês, piloto veterano da Segunda Guerra; o Gabriel Manzano, que arrumou uma brecha nas Mil Milhas de Interlagos e me apresentou ao Emerson Fittipaldi. Viviam por lá, claro, o Ruy Mesquita, e também figuras que fariam história no jornalismo, como o Murilo Felisberto, o Carlinhos Brickmann, o Ricardo Setti, o Fernando Morais, o Antonio Carlos Fon, o Mino Carta, a Lenita Miranda de Figueiredo (conhecida como Tia Lenita), o Rolf Kuntz, o João Vitor Strauss, além de um que passava por ali às vezes, o pré-famoso cartunista Mauricio de Souza, que publicava a tira “os bichos” no jornal. Na redação eu ficava de um lado para o outro, em geral perturbando aquele que estivesse menos envolvido em uma matéria, às vezes fingindo que datilografava alguma bobagem nas folhas retrancadas, às vezes sendo levado para ver as rotativas do Estadão, ou para cortar cabelo num barbeiro numa galeria na Avenida São Luis, em frente à Biblioteca Municipal, ou para comer um sanduíche num bar ali perto. Dava para sobreviver bem naquele ambiente, especialmente porque, nos jornais, as manhãs são sempre mais calmas que as tardes. E depois do almoço eu estaria na escola.

Estudo para azulejo, Jean Aubert, Ubatuba, 1960

Estudo para azulejo, Jean Aubert, Ubatuba, 1960

Quando acabava a aula, às 5:30 da tarde, nos primeiros tempos eu esperava minha mãe, que sempre atrasava. No inverno era pior. Começava a anoitecer, todo mundo ia indo embora, as professoras, os últimos colegas retardatários, e eu ficava lá, eu e o porteiro. Essa era a pior hora do dia. Aquela angústia, a vontade de ir pra casa, a sensação de ter sido deixado para trás. Mas isso acabou logo, porque a partir da segunda série eu passei a ir a pé, sozinho, para casa. Era bem melhor, eu recebi uma autorização especial para uma prática que não era usual num colégio particular, os colegas ficavam com inveja e eu me sentia orgulhoso e superior, saindo livre, Senhor de meu Destino, observando aquele bando de prisioneiros, atrás das grades, esperando pais e mães.

Fins de semana eram às vezes com meu avô Brenno Caramuru na fazenda Chapadão, em Porto Feliz, que eu gostava bastante, embora lá também não tivesse quase ninguém da minha idade, com exceção de alguns garotos da colônia, mas dos quais nunca fiquei realmente amigo. Mas havia um tanque, que a gente chamava de represa, bom para nadar e pescar lambaris; havia um enorme pomar, com mangueiras, abacateiros, laranjeiras. De manhã bem cedo, muito frio, ainda escuro, dava para levantar e ir até a cocheira, levando um copo grande com açúcar no fundo, para tomar leite tirado na hora da vaca.

Mas os melhores momentos eram no fim da manhã, depois que meu avô acordava. Os cavalos ficavam preparados, e nós saíamos, eu e ele, a cavalo, pela fazenda, para olhar as cercas, mudar o gado de pasto, checar o plantio, conversar com o administrador, com os trabalhadores. Nos fins de tarde nós às vezes saíamos com a charrete. Teve uma tarde em que foi se armando uma tempestade, a gente ainda estava longe da sede, ele fez o cavalo quase galopar enquanto puxava a charrete, e mesmo assim a chuva nos alcançou, com trovões, raios e muita água. Nessa noite, a tempestade, muito elétrica, não cedia. Depois do jantar, eu precisava decorar a tabuada para a escola, coisa que não conseguia de jeito nenhum, e meu avô estava me ajudando. A eletricidade havia acabado, estávamos sob a luz dos lampiões a gás e lamparinas a querosene, enquanto a dona Josefa, a gorda caseira, lavava a louça na cozinha. De repente, um clarão de cegar e um estrondo enorme, fazendo a casa tremer, e um berro. O raio caíra sobre a casa, e a dona Josefa, mexendo na água da torneira, tomou um choque e foi jogada ao chão, a uns dois metros da pia, e estava desmaiada. Isso foi muito, muito divertido. E eu continuei sem conseguir decorar a tabuada.

Meu avô também me levava para sair aqui em São Paulo, às vezes. A primeira vez de que eu me lembro, ele me perguntou para que time eu torcia. Eu ainda não sabia nada de futebol, mas como sobre esse assunto sempre circula um ruído por aí, alguém já devia ter me questionado, e como eu não soubesse, havia perguntado a minha mãe. Ela, que não ligava para futebol mas gostava de parecer “popular”, respondeu meio sem convicção que era para o Corinthians. Eu aceitei, mas pouco depois comecei a entrar na onda do Pelé, porque ele estava no auge, e só se falava dele. Então eu, meio que sem saber, virei santista. E daí chegou esse dia em que meu avô me perguntou pra que time eu torcia, eu falei que estava na dúvida entre Corinthians, que era a opção de minha mãe, e o Santos, que era o melhor, o time do Pelé, e meu avô quase enfartou. Me explicou que não, que eu “era”, naturalmente, são paulino. Ele, um dos fundadores do clube, conselheiro vitalício, e quem teve um papel fundamental na construção do Estádio do Morumbi, não poderia jamais deixar que o único neto virasse a casaca. E nesse dia, para que não restasse dúvida, ele me levou a uma loja e me comprou tudo do São Paulo: uniforme titular, reserva, bola, meia... E a partir de então, um dos programas que às vezes fazíamos era ir assistir a algum jogo juntos, no Morumbi, no Pacaembu, no Palmeiras. Embora não pai, mas avô, e sem um contato diário, Brenno Caramuru foi alguém essencial para mim, mais um que substituiu Jean como figura paterna.

Fora a fazenda e os jogos de futebol, os fins de semana, em sua maioria, eram de Ubatuba. Porque não só eu: minha mãe também não conseguia deixar aquilo tudo para trás, e acho que ela só ficava realmente feliz quando punha o pé na estrada. A viagem ainda era muito longa, cinco ou seis horas, pela antiga estrada de São José dos Campos, parando em Paraibuna e na Lanchonete do Gordo, no alto da Serra, às vezes de ônibus, mas, depois do casamento de minha mãe com o Ewaldo, com cada vez mais frequência de fusca e, quando a situação estava melhor e meu avô ajudou, com o Volkswagen Sedan TL bege, primeiro, um dos maiores orgulhos da minha infância, e a Variant verde abacate, depois. As coisas haviam mudado muito na minha vida, e eu estava, bem ou mal, me adaptando. Eu me acostumara com a vida em São Paulo, já não sofria tanto, às vezes não sofria nada, às vezes até gostava, de viver aqui. Mas Ubatuba era diferente. Eu considerava aquele lugar como meu território sagrado, e a casa era o templo que meu pai havia construído com as mãos. Aquilo era meu. Havia uma magia e um certo sebastianismo, uma sensação vaga de que um dia meu pai voltaria para lá, que era a verdadeira casa dele, e que a família voltaria a se reunir numa situação de harmonia que, é óbvio, só havia existido, um dia, em minha cabeça.

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Postado em 21.01.2010 | 11:01 | André Caramuru Aubert
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“O que sei é que aquela encosta do morro e a sombra
que dele se derramava sobre a chácara da Inhá Luísa
ficaram representando o lado noruega da minha infância.
Nunca batido de sol. Sempre no escuro.
Todo úmido, pardo e verde, pardo e escorrendo...”


Pedro Nava, Balão Cativo


“... Ao longo dos anos, cheguei à conclusão de que é desse rumor
que surge agora a vida que virá atrás de nós e nos destruirá
lentamente, assim como nós destruímos lentamente
o que existe há muito antes de nós.”

W. G. Sebald, Vertigem




No processo de adaptação a São Paulo, em algum momento a escola chegaria. Fui para a Serelepe, mas não me enquadrava de jeito nenhum. Estava inseguro, assustado, com muito medo de tudo. Tinha sido muita coisa em pouco tempo. Separação dos pais, saída de Ubatuba, quase nenhuma convivência com crianças da minha idade, vida num apartamento repleto de mulheres mais velhas, e finalmente a morte da tia Stellinha e o baixo astral geral que veio depois da tragédia. Minha mãe me levava para a escola no fusca, e a lembrança que eu tenho dessa época é de uma São Paulo cinzenta, chuvosa, que o clima deste inverno de 2009, enquanto escrevo, faz lembrar, e com o barulhento e ritmado limpador de para brisa do fusca subindo, descendo, subindo, descendo. Eu já ia sofrendo desde que saía de casa, e na porta da escola eu me enterrava no espaço para as pernas do passageiro do fusca, me segurava com toda a força que eu tinha, e era o maior sufoco me arrancar de lá. Quando minha mãe afinal conseguia, eu entrava na escola chorando, invariavelmente com algum bedel ou professora me “incentivando”, com firmeza e determinação. Não participava muito das atividades, ficava um pouco alheio. A saudade de Ubatuba era enorme. E Ubatuba, é óbvio, era menos o lugar e mais o lócus, a utopia, de uma maneira que seria, não para a razão, mas para a alma, por muitos anos ainda. Aí, claro, acabei sendo mandado a psicólogo, a neurologista. E os gênios logo constataram que eu tinha problemas. Um diagnóstico inicial foi desritmia e lateralidade cruzada (destro com as mãos, canhoto com as pernas), o que causava dificuldade para dormir, pesadelos, falta de apetite, coordenação motora ruim e assim por diante. Só para dar dois exemplos, eu demorei muito mais do que todos os meus colegas, na classe, para aprender a dar laço em cadarço; e naquele teste de fechar os olhos e levar o dedo até a ponta do nariz, meu dedo acertava qualquer coisa, orelha, queixo, testa, menos o nariz.

Andre, SP, 1970

Andre, SP, 1970

Comecei a fazer ludoterapia e na mesma época fui mudado de escola para o Vera Cruz, na rua Frei Caneca, bem em frente à Maternidade São Paulo, onde nasci. O Vera era então uma escola nova e ainda “experimental”, e que tinha uma equipe mais cuidadosa para lidar com casos como o meu. Na prática, porém, eu não me sentia nem um pouco melhor. Tinha medo de tudo, detestava ter que falar em público, era ruim nos esportes. Olhando retrospectivamente, acho que eu não tinha problema neurológico nenhum. Quer dizer, estava assustado e sufocado pelas mudanças bruscas e radicais na vida, pela morte de minha tia, a ausência de meu pai e pelo ambiente pesado da casa. Não poderia ter havido pior timing, para mim, para começar a escola. Mas é possível que fosse a única solução, porque também não havia ninguém na casa da minha avó, naquele momento, com capacidade emocional para cuidar de uma criança durante o dia inteiro. Aos poucos, porém, como todas as crianças, eu fui, não gostando, mas me conformando. Nos feriados, de vez em quando minha avó me pegava e me levava para Lindóia, Poços de Caldas, Serra Negra ou, se houvesse mais tempo, íamos de trem para São José do Rio Preto, passar uns dias com a tia Lili ou tia Maricy e tio Vicente, as cunhadas e o irmão dela.

E Jean, por onde andava? Inicialmente, ele morou com os pais, Jacques e Donana, em Santo Amaro. Fez alguns cursos e conseguiu um emprego na Volkswagen, onde era subordinado a um executivo alemão, barão von qualquer coisa, nazista do tipo de ter bandeira com a suástica na sala e retrato de Adolf Hitler sobre a mesa e homossexual que achou o jovem suíço uma graça, o que obrigou meu pai a ser muito criativo nas manobras evasivas, para conseguir driblar o chefe sem perder o emprego. Longe dos problemas do trabalho, meu pai conheceria, numa festa da colônia européia de Santo Amaro, uma moça francesa que morava em Santo André e cujo pai era um engenheiro de Marselha que viera ao Brasil na onda da industrialização do ABC paulista e construiu, entre outras coisas, aquela antena da Record na Avenida Paulista que lembra a Torre Eiffel. Ele era, sabemos, muito carente, ela lhe pareceu bonita, os dois começaram a namorar, ficaram noivos, e se ele antes procurava me ver muito raramente, agora veria ainda menos.

Em Poços de Caldas, depois de tomar leite de cabra, em uma de muitas viagens com minha avó Cleonice

Em Poços de Caldas, depois de tomar leite de cabra, em uma de muitas viagens com minha avó Cleonice

Então minha mãe também começou a namorar. Havia tempos eu insistia para que ela fizesse isso, inclusive criando situações bem embaraçosas, pois a oferecia, sempre que encontrava uma oportunidade, para homens que eu considerava aptos. De um caso eu me lembro bem. Na fazenda de meu avô, em Porto Feliz, havia sempre almoços aos sábados e domingos, em que a elite da cidade adorava comparecer. E nesse bolo tinha um rapaz, chamado Vítor, que ia com uma camionete Chevrolet azul e branca, e que eu sempre tentava convencer a se casar com minha mãe. Ele era muito magro, tinha operado o estômago, acho que por causa de um câncer, e ia ao banheiro quase que imediatamente depois de comer. Ofereci minha mãe em casamento a ele mais de uma vez, inclusive no meio de um almoço com a mesa cheia de gente. Mas não consegui convencê-lo, talvez pelo fato de que ele sabia que estava para morrer, o que de fato aconteceu logo, e talvez porque minha mãe não tivesse o menor interesse nele. Mas por Ewaldo Dantas, o jornalista que ela conhecera na Operação Ubatuba, ela se interessou. Eu, para falar a verdade, embora tenha (como a alguns outros) oferecido minha mãe em casamento, não cheguei a ver namoro nenhum. Certo dia foram me mostrar uma casa, um sobrado branco de janelas azuis, na rua Pamplona, do lado de lá da Paulista, perto do Hospital Matarazzo, então ainda ativo e imponente, onde iríamos morar minha mãe, Ewaldo, as três filhas dele (pois ele também era separado), mais velhas, já adolescentes, e eu. A Pamplona naquele trecho era bonita, em declive, bem arborizada, e do outro lado, quase em frente à nossa casa, moravam Os Incríveis, uma banda da Jovem Guarda que estava fazendo sucesso, e que gravou músicas bem legais, como “Era um garoto que, como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones”, e outras de não tão boa memória, como “Eu te amo, meu Brasil” (... a mão de Deus abençoou, em terras brasileiras, vou plantar amor. Eu te amo, meu Brasil, eu te amo, ninguém segura a juventude do Brasil...), e cujos integrantes, infelizmente, salvo um ou outro oi lá de longe, nunca deram a menor bola pra mim, embora eu jamais tenha perdido a esperança de que um dia eles me chamariam para tocar com eles.

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Postado em 19.01.2010 | 13:01 | André Caramuru Aubert
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Minha avó (de vermelho) e tia Yolanda, Guararema, 31 de dezembro de 96, ambas ainda em boa forma

Minha avó (de vermelho) e tia Yolanda, Guararema, 31 de dezembro de 96, ambas ainda em boa forma

Nessa época, no rescaldo da tragédia de tia Stellinha, quem se materializou, para mim, foi a tia Yolanda. Prima irmã de minha avó, as duas foram, desde meninas em Itatiba, as melhores amigas uma da outra, a ponto de sempre ter havido um ciúme velado, dos irmãos de uma e outra, do relacionamento das duas. Tia Yolanda, escrevi antes, era uma pessoa extremamente aguda, inteligente e rápida. Piadista implacável, tinha uma aparência externa de grande dama, com enorme e tradicional dignidade (uma persona que ela gostava de cultivar), que em geral se desvanecia com as trapalhadas que fazia. Ela e minha avó se chamavam mutuamente de Mimi e Nenê, mas um dos apelidos perfeitos, de minha avó para ela (que fisicamente era mesmo imponente), era João Grandão, usado em situações corriqueiras como uma em que estávamos, em Guararema, sentados em volta da mesa, à tarde, comendo um bolo e tomando café, e tia Yolanda falando, animada, enquanto brincava, com as mãos, com um suporte de guardanapos de minha avó. De repente, claro, enquanto ela se empolgava, o suporte se quebrou em dois irremediáveis pedaços. Tia Yolanda então fazia aquela cara desanimada, pedindo desculpas, e minha avó sorria, os olhinhos brilhando, e falava: “Ah, João Grandão”. Tia Yolanda tinha tantas histórias engraçadas que merecia um livro só para ela. Como sobre os acessos de riso nervoso que tinha em velórios. Num deles se agarrou à viúva, gargalhando, e a viúva achando que ela chorava convulsivamente, e ela não podia largar a viúva para não mostrar o riso, e a viúva a consolava, e a consolava, coitada, não imaginara que sofreria tanto assim aquela morte... Ou num outro velório, em que entrou com nariz em pé, com toda a sua dignidade de grande dama, e logo na porta tropeçou no sapato, se desequilibrou e foi caindo, caindo, até parar de quatro, debaixo de caixão, é claro, gargalhando. Ela adorava falar errado, de propósito, e cinicamente esperava a reação do interlocutor. E era imbatível nas frases de duplo sentido, que pronunciava com seriedade monástica, coisas como “chamei um homem para limpar meus fundos”, para designar o jardineiro que cuidaria da parte de trás do quintal dela. Por trás da casca besteirenta, porém, tia Yolanda era na verdade extremamente moralista e conservadora, mas não podia impedir que seu lado debochado às vezes levasse a interpretações erradas. Uma vez, em Ubatuba, ela achou que uma empregada da minha avó estava meio desanimada e resolveu perguntar o que estava acontecendo. “Ah, não posso falar, dona Yolanda”. “Fale sim, de repente eu posso ajudar”. E depois de alguns minutos de “não devo falar” e “fale sim”, a moça se abriu: “É que conheci um homem na praia e ele quer me comer. A senhora acha que eu dou, Dona Yolanda?”. E aí o João Grandão, de forma alguma preparada para aquela situação, teve que engolir em seco e tentar aconselhar a moça... Até o fim da vida, minha avó e tia Yolanda estiveram, o quanto puderam, juntas. Um certo dia, irritada com São Paulo, minha tia vendeu seu apartamento na cidade e comprou uma casa em Guararema, em frente ao rio. Cleonice gostou da idéia e comprou a casa ao lado. Elas abriram um portão entre as duas casas e, enquanto tiveram saúde, foram vizinhas.

Minha primeira lembrança de tia Yolanda foi o de uma vez em que minha avó foi visitá-la, na casa em que morava no Pacaembu, e me levou junto. Eu estava com um macacão azul, com zíper de alto a baixo, e não usava cueca. Fui fazer xixi e, ao fechar o zíper, prendi o prepúcio, ficando um pedaço de pele para fora. A dor era terrível, eu chorava e berrava, as duas vieram correndo e minha avó, que não queria me machucar mais, tentava, nervosa, abrir o zíper. Então João Grandão resolveu assumir. Tirou a hesitante Cleonice da frente, pegou o zíper e, com toda a força que tinha (e ela tinha), abriu aquilo, causando muita dor, mas um imediato e indescritível alívio. Nos últimos anos de vida, em Guararema, acho que tia Yolanda, que vivia sempre às turras com irmãos e filhos, mas sempre em paz com a prima Cleonice, foi feliz. Lá ela perdeu o marido, Paulo, mas lidou bem com a morte dele (assim como minha avó perdeu, para um sofrido enfisema pulmonar, a irmã Edith, a Yá, que viveu com ela por tantos anos). Ela e Cleonice se viravam, enchiam o tempo inventando necessidades, problemas e soluções, se divertiam. Até que, em 2000, morreu uma neta, minha prima Cynthia, de aids. Um ano depois, a filha da tia Yolanda, Ana Maria (mãe da Cynthia), não aguentou a perda e se foi. Aí foi demais para João Grandão. Ela estava sozinha (minha avó já estava de volta a São Paulo, doente, um pouco gagá, morando com minha mãe) e começou a minguar. Então, dois anos depois da neta, e um depois da filha, ela foi embora. Morreu dormindo.

Das pessoas daquele tempo, e que já se foram, tia Yolanda é quem mais vejo, mais visito, com quem eu mais falo. É que ela está no Cemitério São Paulo, meu caminho, quando vou a pé, entre minha casa e o escritório. Então, sempre que dá, passo por lá. Não fico muito, um ou dois minutos, mas me lembro dela, da Velhinha (que está no cemitério de Itatiba, para onde ela sempre quis voltar, com seus pais e avós), das tardes quentes e preguiçosas em Guararema, com rio Paraíba passando na frente da casa, enquanto o domingo ia escorrendo entre os dedos, barulho de mosca voando de um lado para o outro, de gente passando de carro, à cavalo, dos almoços que a Bete preparava, comida mineira, ou de quando preparávamos um churrasco para as velhinhas gulosas (e tia Lily costumava vir também), dos passeios à Santa Branca, dos cachorrinhos de tia Yolanda, todos sucessivamente, idênticos, poodle, chamados Pingo, tratados como se fossem um só, reencarnados ou imortais, não sei, e cercados de um cuidadoso hipocondrismo dela, que provavelmente os matava de tanto dar remédio.

Minha mãe, que ainda se adaptava à volta a São Paulo, tinha agora que segurar a barra da mãe dela, da própria dor pela perda da irmã, da culpa por ter incentivado tia Stellinha a descer, e do filho, que não entendia bem o que estava acontecendo, mas que via muita, muita tristeza em volta. Teria sido um excelente momento para que Jean desse as caras, assumisse alguma coisa, ficasse comigo por uns tempos. Nada. Ausência. Dessa época, me lembro de ter saído com ele duas, talvez três vezes. A que ficou na memória foi quando ele me levou para a casa dos pais dele, Jacques e Donana, em Santo Amaro, de bonde, e uma outra vez, quando ele me levou para um parque de diversões, onde o carrinho de bate-bate, momentaneamente dirigido por mim, acabou batendo de frente em uma pilastra, e como as condições de segurança dessas coisas fosse em meados dos anos sessenta bem mais precárias do que hoje, na batida acabei enfiando a testa com muita força na frente do carrinho, fazendo um corte grande, que fez sair muito sangue. Jean teve que correr a um pronto socorro comigo, e quando me devolveu, à noite, no apartamento da rua Maranhão, teve que passar pelo constrangimento de entregar o garoto, com quem ele raramente saía, com a cabeça toda enfaixada.

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Postado em 14.01.2010 | 11:01 | André Caramuru Aubert
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Tia Stellinha me ajuda com ocastelo, Ubatuba, 1965

Tia Stellinha me ajuda com o castelo, Ubatuba, 1965

O outro filho bem cuidado de Dona Stella foi meu avô Brenno. Ao contrário da irmã Lourdes, ele nunca se interessou muito por arte ou literatura. Seu último apartamento, o que conheci, tinha boas telas nas paredes, mas duvido que tenham sido escolhidas por ele. Mas ele sempre foi estudioso e, dedicado ao Direito, acabou se tornando um dos juízes mais respeitados de seu tempo, com decisões que viraram jurisprudência e usados em aulas de faculdade por muitos anos. Já para os três filhos do casamento anterior de meu bisavô Avelino (com sua sobrinha Escolástica, a Colaquinha, de quem enviuvara), Augusto, Maria Luísa e Tonico, ela foi mesmo uma madrasta. O mais velho já tinha catorze anos quando ela se casou com Avelino. A do meio, Maria Luísa, que cheguei a conhecer mas de quem não me lembro nada, acabou sendo uma segunda mãe para meu avô e tia Lourdes. O mais novo, Tonico, acabaria por se casar tarde, tendo um filho, José Carlos, um pouco mais velho que minha tia Stellinha.

Quando voltamos de Ubatuba para viver no apartamento de minha avó, na rua Maranhão, ela vivia aquela fase difícil da vida, o casamento desfeito, algo que ela nunca imaginara, pudesse acontecer, a falta de perspectiva, o convívio complicado com a tia Stellinha adolescente e rebelde. Ela tentou mandar a filha para um colégio interno, de freiras, em Itú, mas a experiência duraria apenas um ano. Pouco depois de termos chegado em São Paulo, tia Stellinha estava de volta. Para mim a presença dela mudava tudo. Naquele mundo de mulheres, todas mais velhas e em fases difíceis da vida, minha tia era não um sopro, mas um vento de vida. Ela tocava violão e cantava, ela tinha amigas adolescentes, ela era bonita. Quando quebrou a perna, caindo do cavalo Tupã, na fazenda Chapadão, e ficou com aquele gesso enorme cobrindo a perna toda, vinham as amigas e assinavam, desenhavam, escreviam mensagens. Eu adorava. Então ela começou a namorar o Zé Carlos, o primo, filho do tio Tonico, que fazia um estágio no escritório de Brenno. Eu gostava dele, também. Me lembro que um dia ele chegou com uma jaqueta preta que fechava com velcro, uma novidade, e eu ficava abrindo e fechando o velcro, aquilo parecia magia. Teve uma noite de Natal em que eu não queria dormir para ver o Papai Noel chegar, mas não aguentei, também, acho, porque me convenceram de que o bom velhinho não viria enquanto tivesse criança acordada. Mas em algum momento, com a festa ainda em curso, eu despertei, pulei da cama e corri para sala, e lá estava um enorme e brilhante trem elétrico, que o Papai Noel tinha acabado de deixar e o Zé Carlos ajudou a montar. Aquele seria, eu ainda não sabia, o último Natal alegre daquela família.

Tia Stellinha, em foto que minha avó teve, a vida toda, por perto

Tia Stellinha, em foto que minha avó teve, a vida toda, por perto

Tia Lourdes, em suas contidas memórias, escreve assim, na página oito, falando do meio irmão: “... Quanto a Tonico, muito mimado pela avó, em cuja fazenda viveu até a mocidade, casou-se tarde, deixou um filho único que morreu tragicamente.” Depois, na página trinta e dois, naquele mesmo trecho em que minha avó quase pulou da cadeira, ela escreve: “ ... [Brenno] teve duas filhas. (...) Ao passo que a segunda morreu em plena adolescência.” Os nomes de tia Stellinha e Zé Carlos não aparecem, não aparecem as circunstâncias das mortes deles e, claro, não aparece o fato de que as duas mortes estiveram entrelaçadas. Zé Carlos era alguns anos mais velho que tia Stellinha quando eles começaram a namorar. O que ela mais gostava na relação era exatamente isso, a diferença de idade, a mais, para ele, implicando a vantagem adicional de poder dirigir carros. Mas ele, por outro lado, foi desenvolvendo uma paixão obsessiva e doentia. Então, nesse ponto, as coisas começaram a perder a graça para ela, que então decidiu terminar o namoro. Ele não se conformou, telefonava, insistia. Uma noite, estávamos tomando lanche, minha mãe, minha vó, Ya, eu, e tia Stellinha cantando A Banda, do Chico, com o violão. Toca o interfone, o porteiro avisa: “o sr. José Carlos está aqui embaixo e pede para a dona Stella descer”.

Ela não queria ir. Estava sem a menor paciência de conversar com ele, de ouvir o lenga lenga choroso do primo apaixonado. Minha mãe insistiu para que ela fosse. “Vai, conversa com ele, explica, ele vai acabar aceitando”. A contragosto, ela foi. O lanche seguiu por mais algum tempo, agora sem o violão, mas com café com leite, pão, queijo, sopa. Dali a pouco, o porteiro interfona de novo e chama minha mãe. “Olha, dona Alzira, é melhor a senhora descer e dar uma olhada lá no carro, eles estão sem se mexer faz tempo”. Zé Carlos tinha estacionado o carro em frente ao prédio, do outro lado da rua, junto ao muro do Sion, sob os altos eucaliptos do colégio. Minha mãe desceu, saiu do prédio, atravessou a rua. Chegando perto, a cena parecia normal, com a cabeça de tia Stellinha recostada sobre o peito de Zé Carlos. Bateu no vidro, não houve resposta. Abriu a porta, que estava destravada. O corpo dele quase caiu para fora do carro, o de tia Stellinha junto. Havia sangue, havia um revólver sobre o corpo dele. Ela instintivamente entrou no carro, empurrando o inerte Zé Carlos para o lado, deu a partida e voou para o Hospital das Clínicas. Do jeito que tia Stellinha estava, pareceu-lhe que ela estava viva. Na verdade, ela morreu na hora, com um tiro na cabeça. Zé Carlos é que resistiria um pouco mais, vindo a morrer apenas na manhã do dia seguinte. Inconformado com o fim do namoro, ele cometeu homicídio seguido de suicídio, num ato que, houve quem achasse, teria sido uma arquetípica, atávica, junguiana vingança tardia do neto de alguém, o tio Tonico, criado pela madrasta, contra a neta do filho caçula, meu avô, criado com todos os mimos. Ou talvez, e eu me inclino por esta direção, tenha sido só loucura, só doença mesmo.

Então, naquele apartamento da rua Maranhão, onde as pessoas estavam, cada uma do seu jeito, procurando uma maneira de recolocar a vida nos trilhos, as coisas saíram do eixo de uma forma brutal, como num tsunami, numa onda gigantesca, violenta e inesperada, que destrói tudo sem dar qualquer aviso. Minha avó entrou em colapso. Não existia no mundo alguém mais visceralmente maternal do que ela e, conhecendo-a, parece um milagre que ela tenha sobrevivido à morte da filha. O que acabou triunfando foi o lado otimista e apaixonado pela vida que ela tinha. Mas a verdade é que a luta entre a profunda tristeza e a vontade de seguir em frente não foi fácil e durou um bom tempo. Sem querer, penso que a ajudei, pelo simples fato de ser uma criança, que estava ali, precisando de amor, atenção e afeto, com um pai que tirara o time de campo e uma mãe que precisava trabalhar muito. Pois ela respirou fundo e me deu as três coisas, amor, atenção e afeto, naquele momento e sempre. Ela também foi ajudada pelos irmãos e cunhados, a Yá, tio Vicente e tia Maricy (de Rio Preto) e tia Lily, a viúva de seu irmão mais velho, Nelito. Uma grande mudança, que a ajudou imensamente, foi ter se tornado uma pessoa mais religiosa. Ela foi a retiros, buscou a orientação de padres, chegou a pensar em entrar para um convento. De uma forma ou de outra, porém, a certeza, trazida pela fé, de que a filha estava bem, estava no Céu, que podia ouvi-la, e que um dia elas voltariam a se encontrar, foi fundamental para que ela pudesse seguir em frente. Houve um momento decisivo, nesse processo. Ela voltava de ônibus, para São Paulo, depois de alguns dias de retiro religioso no interior. E dentro do ônibus, rezando, ela pediu a Deus uma prova. Claro, explicou ao Senhor, não tinha esse direito, quem era ela, para pedir a Ele uma prova? Mas ainda sim, humildemente, meu Deus do céu, ela pediu. Se, ao chegar a São Paulo, pediu, ganhasse uma flor, ela deixaria qualquer dúvida para trás. E quando o ônibus parou, e ela acabava de descer a escada de saída, surgiu correndo, do meio da multidão desorganizada da plataforma de desembarque, uma garotinha, segurando uma rosa, e deu a ela. A partir desse momento, as coisas ficariam um pouco mais fáceis para minha avó.

Levaram algum tempo para me contar a respeito de tia Stellinha. Nisso, erraram. Provavelmente foi menos para me preservar e mais por não saber como fazer. Havia uma profunda tristeza no ar e eu, como qualquer criança, podia sentir. Ao mesmo tempo, tia Stellinha de repente desapareceu, e não havia qualquer explicação para isso. Sabendo na hora ou não, acabaria ficando um buraco na minha alma. Durante toda a infância, até mesmo avançando na adolescência, eu sentia vontade de chorar sempre que ouvia a canção “Dominique”, de Soeur Sourire, o pseudônimo da freira belga Jeanine Deckers, um hit mundial no mundo nos primeiros anos da década de 60, que tia Stellinha cantava na versão brasileira (Dominique nique nique, sempre alegre, a esperar, alguém, que possa amar, o seu príncipe encantado, seu eterno namorado, que não cansa de esperar). Minha avó manteve em casa, enquanto viveu, um altarzinho, com uma foto da tia Stellinha, sempre com rosas vermelhas. E muito bem guardado, lá no fundo do armário, o violão dela.

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Postado em 18.12.2009 | 12:12 | André Caramuru Aubert
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Cleonice, Brenno e Alzira, começo da década de 1940. Uma família (ainda) feliz

Cleonice, Brenno e Alzira, começo da década de 1940. Uma família (ainda) feliz

Os primeiros anos do casamento de meus avós Brenno e Cleonice não foram fáceis. Brenno não tinha (jamais tinha tido) dinheiro. E Cleonice era uma ex-herdeira. Ele, recém formado, trabalhava no Instituto do Café, ganhando pouco. Tentou abrir um escritório de advocacia em sociedade com seu colega e amigo José Frederico Marques, mas, desconhecidos os dois, os clientes não apareciam. Cada vez que o telefone tocava, eles corriam para atender, mas nunca eram clientes; era sempre cobrança. Meu avô começou então a prestar concursos para juiz. Passou no primeiro, mas não foi nomeado. A política do apadrinhamento então reinava ainda mais forte do que hoje, e ele não tinha padrinhos poderosos. Prestou o segundo concurso, a mesma coisa, e foi assim sucessivamente, prestando concursos, passando e não sendo nomeado, até que, a prestar o oitavo, jurou para si mesmo que, se não ganhasse o cargo, seria o último. Então, milagrosamente, conseguiu a nomeação, para uma comarca distante. E aí foi indo. Bananal, Guaratinguetá, São José do Rio Preto, Marília, São Paulo. Presidente do Tribunal de Alçada, desembargador do Tribunal de Justiça, presidente do Tribunal, aposentadoria, e finalmente o escritório, que era na verdade o que ele sempre quis, foi aberto, só que agora não faltariam clientes. Mas o salário inicial de juiz, na década de 30, era muito baixo, e Brenno só foi ter uma situação financeira mais folgada nos anos próximos a sua aposentadoria. Minha mãe passou a infância se mudando de comarca para comarca, sempre vivendo em casas pequenas, sempre com grandes limitações materiais. E lá na frente, meu avô, já bem de vida, inventa de arrumar uma amante, uma certa Catarina, judia polonesa que, contam, era meio prostituta e muito, muito feia, e até um pouco fedida. A velha dona Stella ajudando a envenenar a situação, e ele decide se separar de minha avó e se casar com a fulana. Para fazer isso ele esperaria, apenas, pelo casamento de Jean e Alzira.

Um mérito de Dona Stella, como mãe, for ter feito os filhos estudar. Tia Lourdes, a mais velha, desde cedo lia muito, escrevia. Escrevia bem. Colaborou com revistas literárias, com jornais, publicou contos aqui e ali. Casou-se com um sujeito muito rico, e cego, e autoritário, o Bilico Scavone, dono dos Cobertores Scavone, de Itatiba, acabou não aguentando a barra e, no fim da década de 40, se desquitou. Teve coragem, pois ele foi cruel, no processo, e fez o que pôde para deixá-la na penúria (deste casamento nasceria Rubens Teixeira Scavone, também escritor, respeitado autor de ficção científica, como O Homem que Viu o Disco Voador, de 1957, e O 31º Peregrino, de 1993). Logo depois, no entanto, tia Lourdes se casou com José Geraldo Vieira, já então um escritor conhecido, e aí a vida literária, intelectual, que ela sempre quis, virou realidade (o romance entre os dois está em parte relatado no livro A Ladeira da Memória, parcialmente autobiográfico, o mais conhecido dele). Com ou sem Zé Geraldo, a verdade é que tia Lourdes teve luz própria. Colaborou com os cadernos literários da Folha e do Estado, escreveu ensaios, traduziu Paul Valéry, Collette, Simone de Beauvoir. Publicaria o romance de estreia, O Banco de Três Lugares, em 1951, já ganhando um prêmio da Academia Brasileira de Letras, o primeiro de vários, incluindo dois Jabutis.

Capa da primeira edição de A Ladeira da Memória, de José Geraldo Vieira

Capa da primeira edição de A Ladeira da Memória, de José Geraldo Vieira

Um dos livros mais conhecidos deTia Lourdes

Um dos livros mais conhecidos deTia Lourdes

O pior livro de tia Lourdes foi o último, Carruagem Alada, de memórias, publicado em 1986, um pouco antes de sua morte, com defeitos causados em parte talvez pela idade, em parte por querer selecionar fatos de forma um pouco forçada e por fazer dos antepassados e do próprio passado um terreno de personagens perfeitos, ou, usando uma palavra da qual ela abusa no livro, “boníssimos”. Logo que Carruagem foi publicada, minha avó Cleonice estava em casa e pegou um exemplar para folhear. A rixa entre Dona Stella, a ex-sogra, e minha avó, sempre estivera no ar, mas velada. Ela e tia Lourdes sempre se deram bem socialmente, embora não gostassem realmente uma da outra. Eram, na verdade, completamente diferentes. Tia Lourdes, embora intelectualmente sofisticada, sempre foi pedante, um pouco arrogante e solene. Já minha avó nunca ligou para intelectualices, só lia best sellers, era puro afeto, pura emoção, sempre bem humorada e pronta para falar besteira e frases de duplo sentido. Pois minha avó estava em casa, sossegada, entre entediada e curiosa, folheando as memórias de tia Lourdes. E logo chega a um capítulo chamado “Brenno”. Óculos de leitura na ponta do nariz, xícara de café com leite sobre a mesa, lá foram os olhinhos dela, rápidos, seguindo as palavras, curiosa sobre o que encontraria sobre seu ex-marido, sobre a vida que compartilhara com ele por tantos anos. A Clélia e eu, do lado de cá da mesa, acompanhávamos a leitura e os comentários ora sarcásticos, ora generosos, da Velhinha. Eis que de repente ela solta um grito: “Minha filha nasceu sem mãe!!!!, coitada da minha filha, que nasceu sem mãe!!!!”. Dávamos muita risada, e quanto mais gargalhávamos, mais ela estrebuchava, se contorcia, se indignava, embora sem perder, jamais, o bom humor. O trecho do livro que ela lia era esse: “... Formado, casou-se logo. Teve duas filhas, das quais a primeira – Alzira Helena – fez o curso de Direito e...” E nada, nem uma linha, nem uma palavra, sobre “com quem” ele se casara, e “com quem” teve as duas filhas. Mas Carruagem Alada, embora não fazendo justiça ao que ela já produzira, tem seus momentos, especialmente no final, nas últimas linhas, quando fala de seus dias de velhice, já viúva de José Geraldo:

“ Não poderia ir ficando apaticamente em casa de meu filho. Tinha que reagir, tratar de minhas coisas abandonadas no apartamento, voltar a escrever. Morar então na avenida Duque de Caxias seria impossível por vários motivos, o primeiro dos quais era que eu não suportaria a falta de José Geraldo, ali onde havíamos sido felizes durante vinte e dois anos (...). Aqui estou, pois, há perto de oito anos, na minha solidão povoada [no antigo sítio de fim de semana dela e Zé Geraldo, em São Roque, onde ela viveria até a morte]. Tranquila, sempre às voltas com leituras, papéis e minha máquina de escrever, velha companheira. (...) No meu terraço cheio de plantas de que eu mesma cuido, deixo que os pássaros da memória abram as asas e alcem voo. Intercalo minhas leituras com a meditação sobre a vida que foi e já não é, sobre o que ainda me resta de mais precioso (...). Assim vivo. Sub rosa [em segredo, em silêncio], como diziam os romanos. Acompanho o evolver das árvores galho a galho, dos arbustos broto a broto, descobrindo a preferência das aves e das borboletas, a luz das estações, o significado das nuvens e dos ventos, enquanto a brisa me traz de longe, do fim do mundo, a sua infinita queixa. (...) Amo esta solitude, a vida contemplativa que me permite o estado de graça da lembrança (...) pois não tenho a alma doente de outrora e de jamais. E então, ao penetrar nos bosques do meu universo interior, aí descubro uma flor rara, fora da estação; e embora não me seja dado colhê-la, ela perfuma a minha vida e me faz feliz outra vez. Quando parece que o inverno tudo crestou, volta a primavera e uma caudalosa existência transborda em meu coração. Na magia de estar só o arcano do meu mundo sensível encontra o seu secreto valor.”

Não tive muito contato com tia Lourdes e Zé Geraldo, embora ambos sempre tenham sido carinhosos, embora com uma certa formalidade, comigo. Os via mais na casa do meu avô, e me recordo de ter estado uma vez no enorme apartamento deles no Largo do Arouche esquina com Duque de Caxias. Depois, lembro de ter ido ao sítio de São Roque por pelo menos duas vezes. Uma, antes de Zé Geraldo morrer do câncer que o comia, literalmente, pelos dedos (ele havia sido médico radiologista, numa época em que não se conheciam os perigos da radiação). Como o Aleijadinho de nosso imaginário, ele tinhas as pontas dos dedos cobertos por curativos, e seus últimos textos era ditados para alguém datilografar, pois ele não podia mais. Mas encarava o câncer e a morte iminente com uma calma e uma serenidade raras. Bem depois, voltei ao sítio do Serro Azul já com tia Lourdes viúva. Havia uma grande biblioteca, uma sala sombreada com quadros e objetos transbordando de história para ela, e a varanda, cheia de plantas, que ela descreve no livro, e que quando ela descreve eu vejo perfeitamente diante de mim, até com a jarra de limonada, muito doce e pouco gelada, na garrafa de plástico imitando cristal, sobre a mesinha.

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Postado em 15.12.2009 | 19:12 | André Caramuru Aubert
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Meu bisavô Avelino Teixeira

Meu bisavô Avelino Teixeira

Uma outra história curiosa dos parentes Teixeira, de São Pedro, e que virou causo familiar contado e recontado, é a do petróleo. Parece que um certo dia, num pasto distante da fazenda Sertãozinho, de algum antepassado, surgiu no chão, do nada, uma mancha de óleo. As terras acabaram vendidas, mas a família procurou se assegurar, com contratos e documentos, que teria direito sobre qualquer riqueza, eventualmente, a qualquer tempo, descoberta no subterrâneo daquelas terras. Na década de 30, no auge das campanhas nacionalistas de Monteiro Lobato, do “Petróleo é nosso”, escavações foram realizadas em toda a região, sem que nada fosse encontrado. Muitos anos mais tarde, a Paulipetro, uma das inesquecíveis realizações do governador Paulo Maluf, também escavou por lá e, (bem sabemos) nada achou. Mas o fato que importa é que houve um parente, um daqueles Teixeira de Barros, cujo nome não chegou até mim, que passou a vida inteira vivendo do sonho do petróleo, esperando o dia em que o ouro negro jorraria. Fez planos, sonhou, se imaginou grão-senhor viajando à Europa, aos Estados Unidos, à Ásia. Leu, releu, examinou e reexaminou os papéis, de laudos geológicos às cláusulas contratuais que dariam, a ele, uma vida de sultão por conta de ser dono de um pedaço importante daquele inesgotável patrimônio subterrâneo. Ia da varanda à biblioteca, da biblioteca à rede na varanda. Conversava com pesquisadores e engenheiros, lia e sonhava. Trabalhar, não trabalhava. Só não sei se ele teve a sorte de morrer antes de Getúlio Vargas decretar, em 1938, que só a superfície da terra, no Brasil, era passível de ser privada, e que toda riqueza subterrânea pertencia ao Estado. Se ele não morreu antes disso, certamente morreu, de desgosto, logo depois.

Já o lado de Dona Stella, a mãe de meu avô Brenno, vinha de Minas, do Rio e da elite governante do Império. Os Ribeiro de Resende eram originários da região de Tiradentes, Prados e São João del Rey, em Minas.  Do ramo que desembocaria na minha bisavó, o primeiro foi o coronel Severiano Ribeiro, casado com uma certa Josefa Maria de Resende (irmã do inconfidente Resende Costa), e que não poupou esforços para agradar à Coroa, inclusive fardando e armando tropas. Seu bom trabalho foi premiado com o título de Cavaleiro da Ordem de Cristo e, melhor ainda para meus antepassados, um cartório para um dos filhos. E o filho que recebeu o cartório foi Estevão Ribeiro de Resende, nascido em 1777 e cedo mandado para Coimbra estudar Direito. Lá, já era juiz quando os franceses de Napoleão invadiram a terrinha, e conta-se que, ao desafiar as ordens de um general francês, acabou condenado à morte. Perdoado graças à intervenção de um outro general, acabou voltando ao Brasil. Durante o período joanino, foi se aproximando da família real e, na medida em que ia ficando íntimo do príncipe D. Pedro, ocupou cargos cada vez mais altos. Na época da Independência já era uma das figuras centrais da Corte. Ele foi, por exemplo, o único político a sair do Rio de Janeiro com D. Pedro naquela famosa viagem do tudo ou nada para Minas, em que o jovem príncipe acabou aclamado em Vila Rica. Foi ele, também, quem prendeu José Bonifácio, quando D. Pedro se indispôs com seu antigo guru. Entre os cargos que ocupou estava o de Juiz de Fora em São Paulo, Chefe de Polícia do Rio, Desembargador, Ministro da Justiça, Ministro do Império, Senador e presidente do Senado. Recebeu, sucessivamente, os títulos de Barão, Conde e, por fim, Marquês de Valença, este último com o qual aparece, pintado na abóbada do Museu do Ipiranga como um dos próceres da Independência. Já nasceu rico e, claro, ficou muito mais. O Brasil tem uma longa tradição em recompensar os amigos do rei. Na pintura em que o jovem Pedro II aparece fazendo juramento ao ser coroado, é Estevão quem segura a Bíblia. Fazendeiro em Valença, no Vale do Paraíba carioca, teve, em apenas uma de suas propriedades, a Fazenda das Coroas, 4.000 escravos. Para a riqueza dele, também ajudou, é verdade, o casamento com Ilidia Mafalda, filha do brigadeiro Luis Antonio, que era uma das maiores fortunas de São Paulo no começo do século XIX. Estevão tinha prestígio e dinheiro e esteve sempre no lugar certo e com as pessoas.

O Marquês teve muitos filhos, o mais velho tendo sido outro Estevão Ribeiro de Resende, nascido em São Paulo em 1813. Este segundo Estevão foi o Barão de Lorena, também muito rico, formado em Direito em São Paulo e mais tarde (isso chega a ser monótono) juiz, desembargador, deputado, presidente de Mato Grosso, fazendeiro em Piraí e, finalmente, para não envergonhar a tradição conservadora da família, uma das maiores vozes do movimento antiabolicionista no fim do Império. Teve um monte de filhas e um único filho homem, meu tataravô, nascido em 1852, a quem naturalmente foi dado o nome de Estevão Ribeiro de Resende.

O primeiro Estevão, o Marquês de Valença

O primeiro Estevão, o Marquês de Valença

O terceiro Estevão, que veio ao mundo muito rico, foi um boa vida, às vezes depressivo, gastador e generoso com os amigos e os não tão amigos. É óbvio que, sem nunca ter trabalhado na vida, acabou perdendo tudo, até a casa, um palacete nos Campos Elísios, em São Paulo, e passou seus últimos dias num quarto de hotel no centro da capital, onde morreu, aos sessenta e quatro anos, em 1916. Este último Estevão, que na faculdade de Direito tinha o apelido de Barãozinho, era avô de meu avô. Brigou com o pai Barão ao se casar, por amor, com uma moça de Campinas, Querubina Teixeira. Teve apenas duas filhas, Ricardina (nome de sua mãe) e Querubina Stella, tendo ficado viúvo por complicações de parto da esposa, justamente no nascimento da segunda filha, minha bisavó. Transtornado com a perda, o Barãozinho passou a torrar mais dinheiro do que nunca, vivendo entre a Europa e o palacete nos Campos Elísios. Além disso, generoso com os amigos, emprestava sem ter coragem de pedir de volta. Um caso emblemático foi o de Ubaldino do Amaral (1841-1920), seu amigo desde os tempos da faculdade de Direito, e que viria a ser Senador pelo Paraná, prefeito do Rio de Janeiro e ministro do Supremo Tribunal Federal. Os cadernos guardados pelo terceiro Estevão mostram valores vultuosos, e sempre crescentes, de empréstimos jamais devolvidos pelo amigo Ubaldino. E assim o dinheiro foi diminuindo, diminuindo, diminuindo, e acabou.

O caso dele é quase a representação exata daquele surrado ditado sobre as fortunas no Brasil antigo: pai rico, filho nobre, neto pobre. A decadência do terceiro Estevão acabou representando uma desgraça familiar bem maior do que a perda do dinheiro em si. Minha bisavó Stella Querubina cresceu pobre e complexada. Por conta do casamento sem a bênção do Barão, a família Resende a desprezava, ainda mais órfã e sem dinheiro. Ela sabia falar francês, tocar piano, tinha boas maneiras. Mas acabou, para sobreviver, dando aulas de datilografia. Era fim de século, do XIX. Uma moça de origem na alta nobreza imperial, neta de barão, bisneta do marquês e senador que aparece no quadro segurando a bíblia para D. Pedro II prestar o juramento na coroação, precisando dar aula de datilografia para aprendiz de escriturário (até porque, então, romancistas e poetas escreviam à mão), era humilhação social bastante pesada. Quando se casou com meu bisavô Avelino, ele já viúvo e mais velho, ela imaginou estar fazendo um bom negócio. Mas não. Avelino, que já havia sido um próspero fazendeiro, não andava assim tão bem de finanças, e provavelmente escondeu de propósito, da noiva, sua verdadeira situação. Quando descobriu, ela não gostou nem um pouco, ainda mais por ter que assumir os três filhos que ele já tinha. Ela teria com ele dois filhos: minha tia avó Lourdes, a escritora, e meu avô Brenno, para com os quais ela sempre foi chata, difícil e mandona, mas, apesar de tudo, mãe. Com os filhos do primeiro casamento de meu bisavô Avelino, ela foi, além de chata, o que o nome diz: madrasta.

E o que o nome diz, também, ela foi com Cleonice após o casamento: sogra. Só tenho uma lembrança de minha bisavó Stella, já em seus últimos dias, deitada na cama, pele muito branca e um grande, enorme, nariz aquilino (marca registrada dela e presente em Brenno e em tia Lourdes), dando a ela, que vejo agora em fotografias, sempre esteve bem longe de ser bonita, uma aparência de bruxa de desenho animado. E o que parecia, era. Complexada, com mania de grandeza, ela sempre desprezou e tratou mal minha avó. Com Brenno a relação sempre foi complicada. Mãe dominadora que ele dizia idolatrar mas que provavelmente não suportava, ela fez o que pôde, e com sucesso, para minar o casamento dos meus avós. Brenno, que eu saiba, nunca falou mal da mãe, algo que o moralismo de outros tempos consideraria uma aberração. Mas há algo que, acredito, fala por ele. Um dia, meu avô foi a um cartório e mudou, oficialmente, de nome. Nasceu Brenno Caramuru de Resende Teixeira e morreria apenas Brenno Caramuru Teixeira. O sobrenome do marquês, do barão, do barãozinho, e de dona Stella, sumiu.

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Postado em 10.12.2009 | 12:12 | André Caramuru Aubert
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Meu avô Brenno era considerado um rapaz bonito. Recém formado em Direito, funcionário do Instituto do Café, parecia ter um futuro promissor. Era, também ele, de boa, “tradicional” família. Por parte de pai descendia dos Teixeira de Barros, uma antiga família de bandeirantes e tropeiros originários de Itu que desbravaram a região da Serra de Itaqueri, seguindo a trilha do Picadão, que desde 1725 ligava São Paulo às minas de Cuiabá. Ali, no pé da serra, os irmãos Joaquim, José (meu tetravô) e Luiz Teixeira de Barros fundaram a cidade de São Pedro. Gente rústica, tranquila, teve em meu bisavô Avelino um bom descendente: fala mansa, amante de um cigarrinho de palha e uma boa pinga, envelheceu olhando a vida passar, na varanda, sentado na cadeira de balanço de palhinha e madeira clara.

O Poeta da Roça, meu tio bisavô Gustavo Teixeira

O Poeta da Roça, meu tio bisavô Gustavo Teixeira

Deste lado, um parente simpático é Gustavo Teixeira (São Pedro, 1881 – 1937), primo irmão e muito amigo de meu bisavô Avelino, um poeta ora romântico, ora parnasiano, ora simbolista, mas sempre arcaico. Solteirão, muito tímido e reservado, eleito para a Academia Paulista de Letras, morreu pouco tempo após receber a notícia, não chegando a tomar posse. Gustavo Teixeira publicou apenas dois livros em vida, Ementário, em 1908, e Poemas Líricos, em 1925. Em 1959, a Editora Anhambi publicou um grosso volume de mais de quinhentas páginas de Poesias Completas, com muito material até então inédito e prefácio de Cassiano Ricardo. Gustavo Teixeira, rigorosamente esquecido em todo o planeta, é ainda hoje uma celebridade em São Pedro. Lá, ele tem, com seu nome, uma praça (nada menos que que a antiga praça da Matriz), uma escola e um museu, e celebra-se a cada ano, em setembro, o mês de sua morte, a “Semana Gustavo Teixeira”. Na última, a de número, é difícil crer, cinquenta e seis, o cartaz foi desenhado por Paulo Caruso e a programação incluiu teatro adulto (Gustavo Teixeira, o Poeta da Solidão), infantil (Cadê Kika?, Cidade Azul), baile para a terceira idade, volta ciclística, aula de tai chi chuan, show dos Trovadores Urbanos, concurso de poesias inéditas e de poesias gustavianas (bem curiosa esta modalidade) e muito, muito mais... Talentoso, mas conservador, ele deixaria o movimento modernista passar em segurança ao longe, mantendo-se firmemente fincado no século XIX. Tia Lourdes conta, em suas memórias, que durante umas férias que passou em São Pedro, adolescente, levara na mala diversos livros dos modernistas, entre os quais o Paulicéia Desvairada, de Mario de Andrade, o Juca Mulato, de Menotti del Picchia, e O Livro de Horas de Sóror Dolorosa, de Guilherme de Almeida. Lá, o tio Gustavo pediu todos emprestados, só devolvendo no fim das férias. Vez por outra ele aparecia, e mostrava um ou outro verso, discutindo, comentando. Ela se lembra de uma das tiradas dele sobre os versos modernistas: “Interessante... interessante...”

O relativo sucesso de que sua obra desfrutou, até pouco depois dos meados do século XX, deve-se talvez ao fato de que, na maioria das escolas, não existia poesia moderna, e autores como Bandeira, Drummond, Mário e Oswald de Andrade não podiam passar nem perto das salas de aula. Assim, não poucas crianças, especialmente as meninas, ao copiar poemas de amor, ou religiosos, ou de fundo histórico, em seus álbuns, recorriam a Gustavo Teixeira, assim como a Vicente de Carvalho, Olavo Bilac, Emilio de Menezes e outros do mesmo calibre. Se não fosse pelo panegírico patriotismo municipal de São Pedro, é provável que Gustavo Teixeira, hoje, estivesse completamente esquecido, enterrado no passado. Não é fácil atingir com poemas os adolescentes do início do século XXI, carregados com MP3 players, celulares e internet, ainda mais se os poemas forem parnasianos, românticos ou simbolistas. Veja-se, de meu tio-bisavô, Cleópatra, um de seus poemas mais conhecidos:


Sob o pálio de um céu broslado de cambiantes,

Poesias Completas de Gustavo Teixeira, catatau de 532 páginas do mais ininteligível parnasianismo

Poesias Completas de Gustavo Teixeira, catatau de 532 páginas do mais ininteligível parnasianismo


a galera real, de tírias velas têsas,
avança rio a dentro, arfando de riquezas,
cheia de um resplendor de pedras coruscantes.

Sob um dossel de bisso, entre espirais ebriantes
de incenso, a escultural princesa das princesas
cisma... Remos de prata, à flor das correntezas,
deixam móbeis jardins de bolhas terpidantes...

Soluçam harpas dóiro às mãos de ancilas belas;
Branda a aragem enfuna a púrpura das velas
E à tona da água alveja um espumoso friso.

E a Náiade do Egito, ao ver a frota ingente
De Marco Antonio, ri, levando unicamente
Contra as lanças de Roma a graça de um sorriso...


Vou e volto ao longo das mais de quinhentas páginas de Poesias Completas, procuro, mas não encontro algo de que realmente goste. Outra época, outro estilo, outra estética. Na página 397, enfim, me deparo com Noite de Inverno, e fico feliz, pois quase consigo gostar do que leio:

...

Dorme a cidade, gelada.
Na longa rua deserta
Nem uma janela aberta,
Nem um rumor na calçada!

Das árvores semimortas
Vão-se as folhas, amarelas.
O vento, embuçado nelas,
Tirita batendo às portas.
...

Penso em ti. Fico pensando...
Nesta hora de um frio horrendo,
Talvez estejas sofrendo!
Talvez estejas chorando!



De qualquer forma, parece que o tio bisavô Gustavo era boa pessoa, sossegado, pouco ambicioso, e merece todo o respeito por ter conseguido, em arquiteturas verbais tão complexas, construir sólidos sonetos que tanta gente leu e que nós hoje, com algum esforço, conseguimos até compreender. A ironia do destino é que quem estava a seu lado, na cabeceira da cama, quando morreu, era Oswald de Andrade. O mais ácido e iconoclasta dos modernistas tinha, por algum motivo, respeito pelo caipirão parnasiano Gustavo Teixeira. E foi Oswald quem comunicou ao Brasil, via agência Havas, a morte do Poeta da Roça.

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