
Andre na Praia Grande, Ubatuba, 1976
Nesse ponto, de qualquer forma, havia um conflito latente entre mim e o mundo que o Ewaldo levara com ele. Jornalista excepcional (de reportagens históricas, como a descoberta, escondido na Bolívia, do SS alemão Klaus Barbie), inteligente, culto, de uma cultura sólida e clássica moldada em seminário católico; mas por outro lado, com personalidade forte e uma certa dose de egocentrismo, ele sempre ocupou, com muita intensidade, todos os espaços em que esteve, tendendo, ainda que sem querer, a sufocar as pessoas em volta. E foi assim com minha mãe, que, com sua personalidade mais contida, foi a vida inteira cedendo, cedendo, cedendo. E a casa de Ubatuba era o melhor exemplo. Lotada, nos fins de semana, de parentes dele, que não eram más pessoas, mas que eram muitos, e chegavam cedo, e saiam tarde, e falavam alto, e bebiam, e comiam, muito. O lado bom é que, em parte por essa sensação de estar na Roma invadida pelos bárbaros, num determinado momento, mais tarde, eu comecei a surfar, e passava o dia inteiro dentro da água.
Mas então, de repente, o Templo foi definitivamente profanado. Ou, usando uma palavra mais adequada, estuprado. Uma irmã do Ewaldo, que morava em Ubatuba, teve algum problema com a casa dela, e minha mãe cedeu a nossa para ela morar. Pronto: minha casa não era mais minha, tinha agora uma fulana que ocupava os espaços e mandava em tudo. O nome dela era Bessie (homenagem a Bessie Smith, embora a nossa Bessie fosse pronunciada Bêssí, e não Béssiii, como a blues woman americana), ela era uma professora de escola primária em Ubatuba, casada com um funcionário do Departamento de Estradas de Rodagem, o DER. A Bessie, naturalmente, com aquele autoritarismo típico das pessoas de classe média que vivem a decadência social com pânico e inconformismo, costumava querer se impor a cada suposto subalterno que encontrava pela frente, e logo se encrencou com a Iosa e a Rosely, que por seu lado também não aceitavam aquela invasão de território. Nos fins de semana, nós agora ficávamos na antiga “garagem”, pois a Bessie, o marido e as duas filhas agora chamavam de lar a casa da frente, aquela que meu pai havia construído com as próprias mãos com a ajuda do caiçara Benedito Raposo. Ela mandava lá, e tratava como dela, a casa que meu pai fez e onde eu nasci! Mas o pior não eram os fins de semana, quando minha mãe estava por lá. Eram as férias, quando eu ficava por semanas sozinho, apenas com a Iosa e a Rosely. Agora, armada com as concepções psico-pedagógicas de um tempo longínquo, a Bessie achava que tinha não apenas o direito, mas a obrigação de mandar em mim, de interferir na minha educação, na rotina, na alimentação. Ela nunca conseguiu. Mas eu de qualquer forma me sentia como um francês na França ocupada pelos nazistas e, do ponto de vista prático, era obrigado a passar a maior parte do tempo longe de casa.
Assim, de um jeito ou de outro, em São Paulo ou na praia, rompia-se definitivamente com o passado mítico, outrora localizado em Ubatuba, onde vivera, na imaginação de um garoto, uma família feliz. E o Ewaldo, com todos os defeitos que pudesse ter, foi uma figura presente e carinhosa, para mim, e acabava representando o papel de figura paterna, do qual eu estava tão carente. Pois Jean, cada vez mais, se ausentava. Conforme o relacionamento com a namorada francesa, chamada Marie, se aprofundava, mais e mais ele se afastava. O desequilíbrio mental dela parecia, desde o começo, um caso clínico patente. Ela era emocionalmente instável, do tipo que, de uma hora para outra, e sem motivo aparente, entrava em transe, dando escândalos, berrando, chorando, batendo portas. A família de meu pai também se assustou com aquela figura, mas não houve nada que pudessem fazer para impedir que o carente Jean fosse ficando cada vez mais enredado na relação com ela. E um dos traços da Marie era um ciúme doente com relação a tudo o que, de alguma maneira, lembrava que ele tivera uma vida anterior a ela. Minha mãe, é óbvio, ocupava o primeiro lugar na lista. E eu vinha logo atrás, em segundo. A partir daí, a presença esporádica de Jean se transformou numa ausência quase permanente. Às vezes eu chorava, implorava para que minha mãe me deixasse vê-lo, e ela tentava preservá-lo para mim, em nenhuma hipótese dizendo que ele não queria me ver. Longe de mim, ela telefonava para ele, e pedia apenas isso, que ele me visse. Até porque dinheiro ele nunca deu. Escola, roupa, comida, médico, dentista, brinquedo, biju, tudo era pago por minha mãe, por Cleonice (roupa e sapatos eram com ela, sempre), por Brenno (uniformes do São Paulo, bicicleta, bolas e artigos esportivos em geral), até por Ewaldo. Jean alegava que não tinha recursos, que era pobre. Isso antes, desde a separação. Com Marie, ele era vigiado de perto, e qualquer gasto comigo seria duramente punido por ela. Então minha mãe telefonava, ele atendia, ela implorava que ele me procurasse. E ele ficava bravo: “Eu já falei para não ligar aqui em casa!”. Era a ex-mulher fazendo o papel da “outra”, da clandestina, da que faz telefonemas escondidos. E a ironia da situação é que ela não queria, nem de longe, o marido de volta. E nem queria o dinheiro dele, coisa que não só ela nunca cobrou, como pelo contrário, até evitou, para que ele não se arvorasse em pretextos e direitos. Sem a questão do dinheiro, ela sentia que podia cobrar dele, mais claramente, algum afeto, alguma atenção, ao filho.
1970 foi o ano da Copa do México, do Brasil tricampeão. Meu ídolo era o Jairzinho, e eu vestia, sempre que podia, a camisa 7 amarelinha, com o escudo da CBD (o D de Desportos, que seria mais tarde substituído pelo F de Futebol), e ganhava todos os jogos, desafiando o paredão lá em casa. Foi o ano, também, em que fiquei doente com uma nefrite que me deixou de cama por um mês, o que me rendeu duas coisas. A primeira foi um entupimento estomacal, quando comi uma quantidade absurda de nhocões, uns três ou quatro, um prato que a Bê fazia, massa de nhoque recheada com mussarela, do tamanho de uma baguete grande, molho de tomate por cima. E a segunda coisa foi uma rara e preciosa visita de meu pai, comovido à força pela doença de seu filho.
Assim que Jean se casou com Marie, em um evento que não sei se teve festa ou comemoração, pois eu, pelo menos, não fui convidado, eles se mudaram para um apartamento na Avenida Nove de Julho, do lado do Centro, não muito longe do prédio da Fundação Getúlio Vargas. Que eu me lembre, só fui lá uma vez. Nesse dia meu pai montou, comigo (eu só olhava), um aviãozinho de madeira balsa, da Aerobrás, um Piper movido a elástico, que atravessava toda a fuselagem, e era retorcido, e aí, quando solto, fazendo girar a hélice e o avião voar. O avião tinha janelas pintadas, e eu pedi para que desenhasse na da frente ele próprio, como piloto. Ele desenhou. E me desenhasse, como passageiro, na terceira janela. Ele desenhou. E a Tuca, a cadela de Ubatuba, que nessa época já tinha morrido fazia tempo, e ele desenhou, e a Tuca ficou na última janelinha, de trás. E pedi que ele desenhasse minha mãe na segunda janela, e não me lembro como ele se saiu da situação, com a Marie por ali, rondando feito um cão bravo. Não tenho certeza absoluta, mas acho que ele desenhou minha mãe sim. E talvez tenha sido por este motivo que, quando torceu o máximo que dava o elástico, fazendo o aviãozinho decolar da mesa da sala, ele soubesse que o Piper iria então atravessar a janela aberta e sair voando, sem qualquer chance de ser recuperado. Para mim, a situação começou com o fascínio de ver que o aviãozinho estava completo, com todos a bordo, todos os passageiros que deviam estar lá, e atingiu o apogeu quando eu vi que ele decolou e voou com sucesso. Em seguida, correndo para a janela, o júbilo deu lugar ao desespero, quando percebi que ele não voaria de volta, que se perderia para sempre, nos vãos sombrios daquele mar de prédios que havia diante de meus olhos. Acho que ficou claro ali, naquela cena da qual nunca me esqueci, que aquela tão preciosa reunião de pessoas (e da Tuca), representada pelos desenhos nas janelinhas do avião, não aconteceria de novo.
Logo Marie estaria grávida, e eles deixaram o apartamento, mudando-se para uma casa um pouco maior, um sobradinho típico paulistano com um pinheiro na frente, na Vila Mariana, rua Joinville (que ele sempre pronunciou, com seu indefectível sotaque francês, “joanvile”), perto da 23 de Maio, mais ou menos na altura onde, alguns anos depois, seria construída aquela caravela/restaurante, “vendida” ao inculto público, na época, como réplica perfeita da nau de Cabral. A casa da rua Joinville foi onde, pela primeira vez, eu pude ver de perto, com clareza e sem disfarces, com todas as cores e todos os sons, a loucura.