TRIP Quando você imigrou para a Califórnia, em 1989, já pensava em ser star?
MURILO Já. E fui pensando em nunca mais voltar. Mas quando cheguei, foi duro. Não por não ter experiência ou não saber me defender. O problema era a língua: eu não falava nada. Então, da forma que os cariocas me olhavam por eu ser de Niterói na primeira vez que fui fazer teatro no Tablado, os americanos me olhavam por ser brasileiro. Voltei à estaca zero, de certa forma. Aluguei um quarto numa casa de americanos, para ter que me comunicar. Chega um ponto em que você entende tudo, vai ao cinema e não perde uma palavra, mas não sabe o que falar. Para eu começar a falar e as pessoas entenderem o que dizia, levou um ano. Enquanto isso, me virava: no início lavando vidraças, limpando chão. Depois trabalhei num supermercado, limpando a adega. Já dei duro pra caralho...
      TRIP Depois do Fabrício, você interpretou o Juca Cipó, na novela Irmãos Coragem, em 1995. É verdade que você serrou o dente da frente só para fazer o papel?
MURILO Ali, enlouqueci de vez. Na verdade, já tinha quebrado parte do dente. Só dei uma acentuada no defeito (risos). Quebrei quando tinha uns nove, dez anos. Tinha um cara na escola que era metido a ser o mais forte. E, na época, encarava todo mundo. Tinha uma brincadeira que era uma espécie de sumô, num quadrado, em que você tinha que jogar o adversário pra fora. Chamei o cara porque queria dar uma porrada nele socialmente. Mas foi uma babaquice. Joguei ele pra fora, ganhei, mas ele me puxou. Rolei e, pra não cair em cima dele, dei um pulo e bati com a cara na parede. Aí me partiu o dente.

TRIP Você era briguento quando criança?
MURILO Nunca fui de briga. Até porque, quando fico nervoso a ponto de entrar numa briga, saio de mim. Me sobe o sangue, fico fora de controle. Lembro que meus primos adoravam brigar, mas isso não acontecia com eles. Eles ficavam cientes a briga inteira. Eu enlouqueço, viro bicho, mordo as pessoas.
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      TRIP Sua vida lá era muito solitária?
MURILO Lá eu soube o que era solidão. Solidão é barra-pesada. Durante a semana, estudava e trabalhava. Chegava sábado, ficava gastando dinheiro com besteira pra me distrair. Um dia, comprei uma secretária eletrônica, pra confirmar que ninguém me ligava (risos). Ela brilhava de longe, aquele zerinho... Chegava em casa, à noite, passava assim (tampa os olhos com a mão), e ia dormir sem nem olhar, na esperança de ter, imagina, uns três recados (risos). "Amanhã eu pego." Chegou um momento em que resolvi ir embora. Até porque pensei: "Não estou onde as coisas acontecem. Ou vou pra Nova York ou pra Los Angeles". Então decidi que ia dar um tempo no Rio antes de mudar definitivamente para os Estados Unidos.
TRIP Chega no Rio, sol, praia, caipirinha...
MURILO (Rindo) Você chega no Brasil e... Pô, mal cheguei e uma menina me agarrou na praia, me deu um beijo! Aí você pensa: "Que é isso? Ainda existe isso?" (Risos) Fui descobrindo motivos para ficar. Encontrei um amigo por acaso, na praia, que estava indo fazer teste na oficina de atores da Globo. Falei: "Vou também". Eu passei e ele não. Fiz seis meses de curso e então pintou o primeiro papel, na novela Fera Ferida (1994).
TRIP Qual foi a sensação de voltar para São Francisco como ator de cinema, dez anos depois de ter estado lá como imigrante?
MURILO (Sorri) Estava vendo um filme semana passada com a Carolina (Ferraz, namorada de Benício), aquele Proposta Indecente (do diretor Adrian Lyne), na Sessão da Tarde. Logo no começo a menina fala: "Se você quiser uma coisa, badly, deixa ela livre. Porque, se for sua, ela vai voltar. E, se não for, é porque nunca tinha que ter sido". A Fox veio me buscar aqui dentro deste apartamento. Mas isso não quer dizer que você possa ficar sentado no sofá. As coisas só acontecem porque você trabalha pra caralho.
"PÔ, TRAMPEI DE PEDREIRO! SEI O QUE É DAR DURO, SEI O VALOR DE UM REAL." TRIP Você foi entregador de pizza também, não?
MURILO Isso foi mole! Você não sabe o que é limpar aquela máquina de assar frango de padaria. Fica uma piscina de óleo no final do dia (risos). Tô falando que dei duro! Não que fui "baby-sitter". Pô, trampei de pedreiro! Sei o que é dar duro, sei o valor de um real. Fui operário brabo. E engraçado que, no final, passei dois anos nos Estados Unidos sem fazer escola de teatro, mas tive uma experiência de vida tão surpreendente que me valeu mais do que qualquer curso.
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Murilo Benício
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