 |
Uns dois anos atrás eu estava na fila
da livraria do aeroporto de Congonhas, esperando para pagar.
À minha frente uma velhinha simpática tinha a revista Caras
na mão. A foto da capa mostrava o Luciano Szafir, logo
pós-Xuxa, apresentando uma namorada nova. Era aquela garota
do tempo, a Fabiana Scaranzi. |
|
|
|
Quando chegou a hora da velhinha pagar, ela mostrou
a revista à moça do caixa, lançou
um olhar integrador pro meu lado e mandou o comentário:
"Tomara que desta vez dê certo, né"?
Eu não entendi nada mas a moça do
caixa respondeu na hora: "Ah, vai dar sim.
Ela tem muito mais a ver com ele". A velhinha
me olhou mais uma vez, aguardando uma contribuição
masculina ao debate que se iniciava. Eu a princípio
titubeei, mas numa fração milagrosa
de segundo, fulminado pela centelha do dom da
perspicácia que Deus deu aos humanos, captei
o tema da conversa: era o futuro conjugal do Luciano
Szafir.
"Não sei... acho que tem tudo
pra dar certo", eu disse inseguro, feito
um universitário do Show do Milhão,
imitando a mulher do caixa para não correr
o risco de dar uma bola muito fora. Mas elas
perceberam minhas fragilidades e preferiram
me ignorar. Excluído, fiquei observando
aquelas duas mulheres simpáticas, que
não se conheciam antes, conversando intimamente
sobre a vida íntima de duas outras pessoas
que elas nunca conhecerão. Mais à
frente, na sala de embarque, sentei atrás
de dois sub-executivos que liam a revista Veja
e pediam pena de morte para o cinema nacional.
E depois, já dentro do avião,
o adolescente do banco de trás proclamava
a certeza de que o Edmundo
não tinha lugar na seleção
porque era bissexual, "mormaço,
aquele que não parece mas queima".
|
|
|
|
FOFOCA DIGITAL
A forma mais antiga de mídia é a fofoca.
Desde as cavernas, este suporte imaterial foi o primeiro
veículo de comunicação a carregar
a interpretação pública de um fato.
Com a raríssima exceção daqueles
que conseguiram furar a barreira da consciência
coletiva e cravaram raízes em solo mitológico,
a grande maioria dos fatos públicos sempre navegou
de boca em boca para acabar à deriva, distorcendo-se
até desmanchar no ar.
A forma mais recente de mídia é a eletrônica.
É um suporte mais material que a fofoca mas,
como ela, também veicula histórias curtas,
com ingredientes picantes e que na maioria das vezes
têm vida meteórica. As histórias
difundidas pelos meios eletrônicos também
têm uma elo inicial com a realidade, mas à
medida em que são repetidas e repetidas, o elo
tende a desaparecer, inclusive antes da própria
história.
Mídia não é amor, aliás
não mesmo, mas também tem razões
que a razão desconhece. A primeira lei universal
a caducar na era midiática é a lei da
oferta e da procura. Contrariando qualquer racionalidade,
quanto mais a mídia se oferece mais ela se valoriza.
É uma lógica esquisita, mas é assim.
Anunciaram o fim do jornal quando o rádio surgiu.
Anunciaram o fim do rádio quando a TV surgiu.
|
|
|
|
 |
|
Agora,
com o surgimento da Internet, ainda tem gente que anuncia para breve
o fim da TV aberta. Só quem tem neurônios de silício
não quer perceber que quem mais ganhou com a chegada da internet
foi a mídia tradicional.
anhou em assunto de pauta, ganhou em meios de penetração
e, sobretudo, ganhou em dinheiro. A maior parte dos recursos investidos
na internet vai direto para a mídia tradicional, e de uma
forma ainda mais tradicional: publicidade. E nunca houve tanta mídia
tradicional no mundo. Nunca houve tanto jornal,
tanta revista, tanto rádio, tanta televisão. Uma em
cima da outra. Uma dentro da outra. A mídia tem a
esquisita característica de crescer à medida em que
se canibaliza. Num quadro destes, é óbvio enxergar
que nunca houve tanta fofoca, a mais tradicional de todas as mídias.
Da Veja à Caras. Da Globo News ao Programa
da Adriane Galisteu. Tanto nos veículos e produtos que se
acreditam sérios quanto naqueles sem-vergonha de ser o que
são, o fuxico é rei.
Quando Gutemberg inventou a imprensa e imprimiu a primeira Bíblia,
algum bispo guardião da moral deve ter gloriosamente anunciado
o fim da fofoca. Gente, não é que eu queira falar
mal não, mas o coitado deve estar com a orelha quente no
túmulo. A vida alheia é um eterno campeão de
audiência. A fofoca nunca esteve tão viva. Não
há nada a fazer. Só torcer para que o Luciano Szafir
tenha sorte com as suas namoradas.
|
|
*CARLOS NADER, 35, HOMEM
DE MÍDIA, SEU E-MAIL É CARLOS_NADER@HOTMAIL.COM
|
TRIP
#81
|PÁGINAS
NEGRAS: MURILO BENÍCIO| |TRIPGIRL:
MARYEVA DE OLIVEIRA| |ARTHUR EM MADAGASCAR|
|FAST FORWARD| |JANIS
JOPLIN: SUMMERTIME| |MODA UNDERGROUND|
|VINGANÇA DO NERD| |MÍTIA|
|OUTRAS PALAVRAS| |SHOW
IT| |EDITORIAL| |CD
DA VEZ| |EXPEDIENTE| |
|