TRIP Depois disso ela saiu da sua casa?
RICKY
Não, continuou. Meu apartamento quase pegou fogo: ela dormiu com uma vela acesa que lambeu a cortina. Bem, a destruição tinha tomado conta, era comida, cigarro, garrafas, um caos, você pode imaginar. Aí pintou um americano hippie, ela enfiou na cabeça que queria ir pra Bahia de motocicleta com ele. Mas perdeu a moto no caminho. No meio dessa loucura, tentei organizar um show com ela, mas nunca rolou. Ela desbundou total e não conseguiu cantar nada. A verdade é que ela estava muito mal...

TRIP Emocionalmente?
RICKY
Ah, ela sabia que era um gênio. Podia estar doidona, mas era consciente de seu papel como artista, sabia que era maravilhosa. Só que tinha um lado depressivo, de auto-estima baixa. Foi super rejeitada em Port Arthur, Texas, onde nasceu, porque só andava com músicos, a maioria negros.

Era frágil, muito angustiada, muito down. Tinha momentos de alegria, ria como menininha, mas era uma pessoa muito sofrida. Agora, imagina essa mulher vir bater no Brasil daquela época! O que devia ser o Brasil pra ela? O que é o Brasil pro americano médio? Cobra na rua, índio de bunda de fora? Imagina, em 1970!
TRIP Como ela foi embora?
RICKY
Não me lembro, mesmo. Depois, perdi totalmente o contato. Ela foi um cometa que passou. Meses depois, levei um choque ao saber que ela tinha morrido. Aquela voz era única. Quem consegue, hoje em dia, ouvir um disco inteiro da Janis Joplin? Ela é fortíssima, intensa, visceral. Até hoje, Janis é única.

O cantor carioca Serguei Bustamante, 68 anos, lenda viva do rock'n'roll brasileiro, conheceu Janis Joplin nos Estados Unidos em 1968. Voltou a encontrá-la naquele verão carioca de 1970. A convite de TRIP, ele narra de um jeito meio psicodélico - e muito emocionado - como foi ouvir Janis sussurrar em seu ouvido

"A gente se conheceu em Long Island, num festival de rock num parque, na época em que eu morava nos EUA. Ela chegou em mim e disse: 'Você tem muito feeling'. De cara, ficamos amigos. Fui com ela para San Francisco, passei um mês com ela lá. Tivemos uma convivência ótima. Janis tinha mania de tomar suco de laranja, era um ritual, preparava suco toda hora - depois jogava gim. Um dia, ela estava fazendo suco e bateram na porta. Fui ver, era um black power esquisito. Pode abrir, ela falou. Foi assim que conheci o Jimi Hendrix. Sei que eles começaram a discutir muito, depois se beijaram - era um outro estilo de vida, tá me entendendo? Dali a uns dois dias fomos à casa de Jimi, em Los Angeles. Sempre fui muito atirado, dançava, rebolava, ficava fazendo assim com a língua. Aí, a Janis veio e falou para eu parar com aquilo de mostrar a língua, senão aquele cabeludo afundado no sofá ia me enfiar um sunshine na boca. O cabeludo era Jim Morrison.

Numa outra festa, no Motel Senegal Boulevard, com Jimi Hendrix, Kris Kristofferson (parceiro de Janis em 'Bobby McGee') Jim pediu para Janis fazer um boquete nele. Ela fingiu que ia fazer, mas preferiu atirar a garrafa de whisky na cabeça dele. Jim nem estrilou: 'Vou tirar uma soneca', disse. Uns dois anos depois, eu caminhava pela calçada em frente ao Copacabana Palace - naquela época a gente podia andar na Avenida Atlântica sem ser assaltado - quando vejo um casal bem diferente: um loiro alto, bonito, interessante e uma mulher com turbante e saia cigana. Puta que pariu! 'Janis!', gritei, e logo nos beijamos na boca.

Nessa época, eu cantava num buraco chamado New Holliday, no porão 73 do Leme, Copa. Cantava coisas como 'Satisfaction' e 'Tropicália', abria o show da Darlene Glória. Quis levar a Janis lá. O gerente, um português, barrou-a na porta: 'Esta mendiga imunda não pode entrar aqui'. Imagine, num bar de putas a Janis foi barrada! Briguei com o português e ela acabou entrando. Alcione estava cantando 'Upa neguinho'. A Janis logo sentou e pediu vodca - sabe, quando você toma metadona dá muita vontade de beber vodca, e ela fazia tratamento com metadona, na época, pra sair fora da heroína. Tinha uma bandinha tocando, subi no palco e falei 'com vocês, a maior cantora de todos os tempos'. Pedi para os caras a acompanharem, mas eles não sacavam a música, ficaram nervosos. Então ela soltou a voz e cantou 'Ball and chain'. Meu Deus (Serguei emociona-se, chora)... O canto dela era sublime! A boate toda se levantou. Alcione gritou desvairada. Tony Tornado, que também se apresentava ali, tremia todo, sem camisa. O português se ajoelhou aos meus pés e pediu: 'Puta que pariu! Como fui barrar essa maluca? Dá na minha cara, que eu mereço!'. Logo em seguida, ela cantou 'What I'd say', do Ray Charles. Foi lindo, a glória, uma loucura total. A boate inteira nos mandava bebida.

Saí de lá, alcancei ela com o David Niehaus, o tal holandês loiro, já na praia. Uma lua cheia… Você sabe, né, sou um sem-vergonha por natureza: transamos nós três até de manhã. Na verdade, eu estava mais ligado no holandês, aquela bunda branca ao luar, não tinha muita atração nela porque pra mim a Janis era algo inatingível, um ídolo, sensualidade e protesto, tudo. Ela era tudo o que eu queria ser. Mesmo que a gente estivesse próximo, transando, pra mim ela era um ponto de luz perdido no espaço."

(depoimento a Ronaldo Bressane)

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PS: As imagens originais desta matéria ficaram por 30 anos nos arquivos de ricky, e, por uma opção editorial, decidimos mantê-las exatamente como foram descobertas, sem qualquer restauração química ou digital.

TRIP #81
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