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(...) Cheguei a ir à embaixada americana dizendo que tinha
uma pessoa que não se sentia bem e pedi heroína, mas
fui expulso pelo médico de plantão. Então arrumamos
Mandrix, barbitúrico que ela misturava com álcool.
Ela levantava e já tomava uma garrafa de um litro de licor
de ovos Dubar, uma coisa grossa e enjoativa. Aí,
mandava umas pílulas. Lá pelo meio-dia, entrava no
Fogo Paulista (tipo de cachaça industrializada). Daquilo
iam garrafas
uns três litros. Depois, íamos à
praia, a garrafa junto. Fomos muito à praia da Macumba (Recreio
dos Bandeirantes). Em plena ditadura, 1970, ela fazia topless. Não
deu outra: saímos da praia presos por atentado ao pudor.
Depois, o velho jeitinho brasileiro ajudou a nos liberar.
TRIP E as baladas carnavalescas?
RICKY Bom, explode o Carnaval. Quando esteve hospedada no Copacabana
Palace, foi convidada para um camarote do Municipal. Ela não
colocou fantasia: foi de turbante, óculos redondos, pantalonas,
uma camisa cheia de miçangas, colares e pronto, já
estava fantasiada. Quando subimos numa passarela
que atravessava a Cinelândia, as bichas enlouqueceram: "O
que é aquilo? Homem, mulher, bicha ou travesti?".
Naquela época não tinha travesti, e como ela tinha
chumaços debaixo do braço, ninguém identificava.
Janis achava que estava fazendo um sucesso danado...
TRIP A imprensa cobriu o baile?
RICKY Para você sentir o clima, o Jerry Adriani era um
dos caras que entrevistavam as celebridades. Fui apresentando a
Janis para o Jerry, porque o cara era da Jovem Guarda e não
sabia nada de rock'n'roll. E ele veio: "Janis, quais foram
as suas impressões do Carnaval carioca?" Ele nem sabia
quem era. Nem a Globo, nem a Veja, nem ninguém. Chegamos
ao camarote: "Estou aqui com a Janis Joplin, que foi convidada".
O cara olhou pelo buraquinho, viu aquela mulher estranha e ouço
uma outra voz de lá: "É boa?" E o cara:
"Não, é um dragão!". A outra voz
mandou: "Mulher feia aqui não entra!"
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Fomos barrados. Janis entendeu tudo, porque
maluco não tem barreira de língua, e se ofendeu profundamente.
Desceu, comprou uma garrafa de champanhe, bebeu tudo e atirou a
garrafa lá em cima, no camarote. A garrafa se espatifou nas
pessoas e nós saímos. Ela decepcionada, aos prantos.
O Carnaval acabou ali.
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