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Sobrevoando o canal de Moçambique, com a primeira porção de terra à vista daquela ilha-continente, sentadinho na poltrona de um avião suspeito me dou conta de que estava para realizar um dos maiores sonhos desta minha reencarnação. Vinha de Johannesburgo, África do Sul, rumo a Antananarivo, capital da enigmática e paradisíaca "Ilha do Amor". Finalmente, Madagascar estava pronta para ser desvendada por mim - não via a hora de retirar a espessa cortina de veludo do desconhecido que pairava sobre a ilha. | ![]() |
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| A história de Madagascar revelava-se diante de meus olhos e sentimentos como uma justaposição de imagens e colagens. Havia pesquisado tudo sobre a ilha, desde memórias soltas da minha tenra infância até esta data. Fauna, flora, pirataria, língua malgaxi, ritos e crenças religiosas, turismo sexual, geografia, culinária, história, música, bocadas, aberrações e outros mistérios. Ao desembarcar no infecto aeroporto de Tana (Antananarivo), um mantra explodiu na porta do saguão: "Arthurzão?! Ma va fan culo!". Sim, era simplesmente a lenda viva Marco "Comando" Leone, a minha espera com seus assistentes. Que recepção! Oito meses atrás, durante entrevista concedida para a TRIP (edição #76), Marco entregou o jogo dizendo que era "rei da ilha com direito a harém particular", e que também trabalhava como guia off-road. Conforme o apontamento, lá estava o figuraço com seu jipão Toyota amarelo-post-it e seu fiel pirata "Gancho Billo". Comigo, o fotógrafo Christian Sievers, que ao sentir o tamanho da balada por vir não se conteve: saiu pulando de um lado pro outro no estacionamento como um pássaro dodô sem asas. |
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| BRINCANDO
COM A MORTE Antes do amanhecer, saímos da capital em direção à rodovia nacional N7. Estávamos indo em direção de Antsirabe, a 170 km de "Tana". Faltando 30 km, nosso guia Marcão se embrenhou por uma estradinha muquiada para subir uma pirambeira que não acabava mais. |
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Depois de quatro horas, chegamos ao vilarejo de Alarobia-Vatosola, onde iniciava-se o Famadihana. Trata-se de um festival em que se cultua o animismo tribal tradicional (Razana). Literalmente, Famadihana significa "Tirando os ossos", isto é, normalmente no período de agosto e setembro os malgaxe retiram seus ancestrais e mortos queridos para fora das sepulturas para dar uma arejada e bater o pó dos trapos que os envolvem. Os nativos acreditam que os túmulos são suas verdadeiras casas e que a vida normal é uma coisa passageira. Que doideira, cumpadre. A turba sem controle e em completo transe retira os corpos das criptas que mais se parecem com pacotes e fardos de fim de feira. O grande problema parece ser descobrir quem é quem. |
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| Enquanto as pessoas bebiam, cantavam e dançavam, dois bois zebus eram sacrificados a machadadas para finalizar o delírio completo. O estado de putrefação e o mau cheiro dominam o ambiente. Vejo um crânio separado do resto dos trapos. Começo a passar mal. As pessoas continuam a enrolar seus entes queridos com tiras de algodão e a curtir aquela "festinha particular". Que macabro. Que sinistro. Tento localizar Marcão e Christian pois o frio trincava minha medula. Pego os dois em flagrante tomando uma cervejinha e comendo a baba dos restos do Zebu. Permaneci em jejum: era impossível beber ou comer qualquer coisa depois do que havia presenciado. »»» | ![]() |
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