No rádio do carro a caminho de Hollywood Hills, David Lynch, o homem do tempo, anuncia sua previsão para o dia na estação Indie 103,1: “Bom dia, hoje é 18 de julho, 2008, sexta-feira. Aqui em Los Angeles a névoa marinha dá lugar ao céu azul, ao sol dourado e a uma gentil brisa refrescante. 73 graus Fahrenheit, 23 Celsius. Tenham todos um ótimo fim de semana”.
Em seu estúdio perto de Mulholland Drive, David Lynch, o produtor de café, nos recebe com uma xícara de cappuccino feito com pó orgânico de sua marca. Sobre a mesa, há uma peça de madeira trabalhada por Lynch, o marceneiro. Ao fundo, uma grande tela abstrata criada por Lynch, o pintor.
Poucos artistas personificam hoje a antiga idéia do homem de mil saberes – e, no caso, do mesmo número de mistérios – como o norte-americano David Lynch. Mais conhecido
como o diretor de obras-primas como Eraserhead (1977), Veludo azul (1986), a série Twin Peaks (1991-1992), Cidade dos sonhos (2001) e Império dos sonhos (2007), mestre do bizarro e do obscuro no cinema e na TV, ele ainda estende sua atuação a um dos melhores sites da internet, ringtones para celular, quadrinhos, publicidade etc.
O que mais Lynch pode desejar? Ambicioso como uma miss, ele agora quer nada menos do que a paz mundial. E está seguro de saber o caminho: a meditação transcendental, que ele pratica diariamente há 35 anos. Introduzida
no Ocidente pelo indiano Maharishi Mahesh Yogi (o célebre guru dos Beatles nos anos 60, morto no início deste ano), a técnica baseia-se na repetição de um mantra individual dado por um professor em duas sessões diárias de 20 minutos.
“Se uma jovem vence um concurso de beleza e diz que quer a paz mundial, isso vira motivo de chacota, porque ninguém mais acredita nessa idéia. Mas e se estivermos errados? Se conseguirmos que 1% da população mundial pratique técnicas avançadas de meditação, poderemos criar uma corrente de consciência que se espalhará pelo mundo todo”, afirma Lynch, 62 anos, em entrevista a Trip, em seu estúdio em Los Angeles. |