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Muitas pessoas acreditam que seus filmes seguem a lógica dos sonhos. Mas você escreve no livro que é muito raro tirar idéias de algum sonho para um filme.
É verdade, eu quase nunca tiro idéias dos sonhos que tenho
dormindo. Mas sonhar acordado é uma outra coisa. É uma forma ótima de ter idéias. O desejo é a isca. Se você deseja enquanto está sonhando acordado, as idéias vêm à sua mente. Você pode não gostar delas, mas outras virão. Você pode estar sentado em uma cadeira, pode estar andando ou almoçando num restaurante. Uma pequena coisa pode engatilhá-la. Daí você precisa botar no papel. Diga a todos: sempre escreva as idéias pelas quais você se apaixona, porque você não pode esquecê-las.
Como foi a experiência de trabalhar na TV com Twin Peaks? O tempo mais longo da série em relação a um filme permite um fluxo melhor das idéias?
Sim, contar uma história numa série é emocionante, porque as idéias não precisam ser concluídas de forma tão rápida como em um longa-metragem. O problema é que a TV consome demais o seu tempo. Em um ponto de Twin Peaks, eu parei de escrever e de me envolver com a série. E daí deixou de ser divertido. Eu filmei o longa Coração selvagem [1990] em meio à série. Não é a forma certa de fazer as coisas. Você tem que estar envolvido o tempo todo, estar dentro do processo, sentir o trabalho.
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No livro, você conta que estava obcecado com o julgamento de O.J. Simpson durante a filmagem de A estrada perdida, e que isso se refletiu no filme (como Simpson, o protagonista teria sofrido uma “fuga psicogênica”,
em que sua mente se ilude para não pensar no horror cometido). Você parece um artista mais voltado para seu interior do que para o mundo externo.
Foi uma surpresa saber que você acompanhava um fato tão mundano como o julgamento de Simpson. De que forma você acompanha questões urgentes do dia-a-dia, como as eleições americanas, por exemplo?
Antes de responder, tenho que dizer que vou votar em Barack Obama... Bom, eu sempre fico obcecado por certas coisas, e o julgamento de O.J. Simpson foi uma delas. Eu costumo dizer que seres humanos são como detetives, nós pensamos no mundo como eles. Pistas dispersas vêm de todos os lugares, TV, rádio, revistas, e nós tentamos usá-las para desvendar o grande quadro.
História real (1999) é um trabalho de encomenda, com uma narrativa muito mais linear que a maioria de seus filmes, embora ainda tenha várias marcas de sua obra. Foi mais difícil trabalhar dessa forma,
já que essa não é a maneira como sua cabeça geralmente funciona? Você acha que Hollywood tornou-se linear e óbvia em excesso?
Com certeza. Mas talvez tenha sido sempre assim. Eu costumo dizer que História real é meu filme mais experimental, porque há uma emoção que eu tentei tirar da narrativa, mas poucos elementos se movimentando para isso. Essa história de uma pessoa na tela chorar, mas o sentimento não se traduzir para o espectador... É delicado, arriscado. Mas às vezes uma pessoa ri na tela e todos vão junto. É uma mágica. Como acontece? Não sei. Por isso digo que esse é um filme experimental.
Cidade dos sonhos tem uma visão dura de Hollywood. De certa forma, o filme compara
os produtores com mafiosos. Isso reflete sua opinião sobre Hollywood?
Essa é sua visão do filme. Não há uma maneira de um único filme representar toda a Hollywood. É sempre uma pequena fatia de algo. Como acontece com meu filme preferido, Crepúsculo dos deuses [1950], de Billy Wilder, que captura o sentimento de Hollywood em uma época específica.
Você diz que não há só uma Hollywood. E, observando a vista do seu estúdio, dá para entender por que você gosta daqui como um espaço geográfico. Mas como é sua relação com os estúdios?
Eu nunca trabalharia em um estúdio.
Apesar de sabermos que essa é uma cidadecheia
de absurdos, certas coisas podem ser muito dolorosas. Mas há algo de mágico em Hollywood também: ela é sempre a mesma, mas está sempre mudando.
Se você quer sobreviver, é melhor encontrar o balanço no sucesso e no fracasso. Aí você estará OK.
Muitos espectadores tentaram decifrar quais partes de Cidade dos sonhos eram pesadelo, imaginação ou realidade. Você considera esse tipo de interpretação
válida ou preferia que as pessoas simplesmente aceitassem o mistério do filme? Por que você sempre se recusa a explicar seu trabalho ou a gravar faixas de comentários para seus DVDs?
É perfeitamente normal tentar fazer qualquer interpretação do filme. A razão pela qual eu não falo sobre meus filmes é que o que eu tenho a dizer realmente não importa. Sou apenas mais uma pessoa. Se disser algo, é o que representa para mim. Eu não quero estragar as interpretações de ninguém. É importante tentar manter o filme o mais puro possível.
Ele leva muito tempo para ser feito. Depois que está concluído,
nada deve ser adicionado, nada deve ser tirado.
No livro, você diz que não faz idéia do que a caixa e a chave representam em Cidade dos sonhos. É verdade?
Eu sei o que é para mim. Mas não quero arruinar a visão das outras pessoas sobre o assunto.
Depois das experiências com vídeo digital em Império dos sonhos, para onde vai sua carreira
no cinema?
Não sei. Estou fazendo um documentário sobre a turnê que fiz por 50 países falando de meditação e paz. Quando terminar, verei o que acontece. Quero saber aonde as coisas estão indo, porque o cinema não é mais o mesmo. Onde um filme será exibido? Que mundo será esse? Eu estou em uma fase de contemplação.
O Brasil vai ser incluído em seu documentário?
Pode ser. Porque o filme ainda não está concluído. Estou levando uma pequena equipe de filmagem ao Brasil e estamos pedindo ajuda a estudantes de cinema locais.
Para terminar, uma pergunta enviada por um colega brasileiro,
grande admirador do seu estilo: quem transa seu cabelo?
[Risos] O nome da minha cabeleireira
aqui em Los Angeles é Kathy Norris. Ela trabalhou em A estrada perdida e é filha de Patty Norris, que foi figurinista e produtora
de muitos dos meus filmes.  |
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