A fé do cineasta na meditação é tamanha que ele criou em 2005 a David Lynch Foundation para financiar bolsas de estudo a todos os alunos do ensino fundamental e médio interessados em praticar a MT. E, no ano passado, lançou o livro autobiográfico Em águas profundas – criatividade e meditação, no qual conta como a técnica revolucionou sua vida e obra.
A cruzada de Lynch para multiplicar a meditação pelo mundo chega neste agosto ao Brasil, onde ele irá lançar seu livro pela editora Gryphus, em uma viagem que passará por Rio, Belo Horizonte e São Paulo, entre os dias 3 e 9. Entre as atividades programadas, estão tardes de autógrafo e encontros com alunos de escolas de BH que adotam a MT.

Quando fala sobre meditação, Lynch parece em transe, disparando uma seqüência de palavras e expressões como “bênção”, “iluminação”, “oceano de pura consciência” e “mergulho em si mesmo”, com um fervor que não dedica a outros assuntos, nem mesmo ao cinema.

Mas como o homem que diz ter encontrado a felicidade interna convive com o cineasta famoso por seus personagens perturbados e tramas macabras? Essa é apenas uma das aparentes contradições que Lynch – renascentista e homem à frente do seu tempo, diretor independente no coração da indústria, ser espiritual em meio à capital mundial da vulgaridade, sujeito pacato e gentil viciado em nicotina e cafeína – tenta desvendar na entrevista a seguir.


O que faz um cineasta consagrado percorrer o mundo para promover a meditação?
Eu tenho praticado meditação transcendental há 35 anos, duas vezes ao dia, todos os dias. Comecei na época das filmagens de Eraserhead [1977]. Por cerca de 30 anos, foi uma coisa íntima. Eu respondia se alguém me perguntava a respeito, mas eu não saía do meu caminho para falar sobre isso. Daí eu soube que Maharishi Mahesh Yogi, que trouxe a meditação transcendental ao Ocidente há 50 anos, havia inventado os Grupos de Criação da Paz, para praticar técnicas avançadas de meditação que podem levar o ser humano ao nível mais profundo da vida, o que a ciência moderna chama de campo unificado. Se cerca de 1% da população mundial praticar essas técnicas avançadas, é possível iluminar o campo unificado de forma a trazer harmonia, coerência e paz a um número enorme de pessoas. Eu ouvi falar disso. E disse: nós vamos ter paz no mundo. Mas ninguém estava ouvindo. Então pensei: eu devo falar sobre isso. Foi o que me levou a promover a meditação.

É essa cruzada que você vai levar para o Brasil agora, certo?
Sim. A David Lynch Foundation já ajudou a apresentar a meditação a 41 mil alunos na América do Sul. Eu quero encontrar muitos desses estudantes na viagem. Também vou falar sobre filmes, claro. Mas cada vez mais as pessoas estão interessadas na meditação. Hoje há 14 escolas nos Estados Unidos que oferecem meditação para todos os seus alunos, professores, funcionários e diretores. Antes da criação da nossa fundação, havia três. Agora existem outras 75 delas na lista de espera, porque a palavra se espalha. Depois de um ano de meditação, o diretor de uma escola vê uma mudança de 180 graus em seus alunos. As brigas, a violência e a tensão desaparecem, porque os estudantes
estão mergulhados em si próprios. As notas melhoram, as relações pessoais também.

O que você tem a dizer sobre as críticas à meditação, como ter se tornado muito comercial e parecida com um culto?
Existem muitos mal-entendidos em relação à meditação, e eles estão rapidamente desaparecendo.
Um deles é que se trata de uma religião ou um culto, o que não é verdade. Você pode ser de qualquer religião e aprender a meditar. É para todos os seres humanos. Não importa onde você vive, no que acredita, qual sua religião, se é rico ou pobre, alto ou baixo. O outro mal-entendido é que a meditação é muito cara. Mas custa dinheiro montar uma organização, ensinar professores a dar aula. E acho que, em pouco tempo, não haverá professores suficientes para o número de pessoas que vão querer meditar, porque o mundo está mudando nessa direção. Funciona, mas tem seus custos. Por isso minha fundação está levantando fundos para oferecer meditação transcendental para qualquer aluno que queira praticá-la, em qualquer
lugar do mundo.

Você é conhecido por ter criado algumas das imagens mais perturbadoras do cinema recente. Mas, pelo que entendi, encontrou a felicidade interna com a meditação. Como essas duas coisas convivem na sua cabeça?

Sempre me perguntam: “David, se você é tão feliz, como faz esse tipo de filme?”. E eu respondo:
a maioria das histórias reflete o tempo em que foram feitas. E nós vivemos em um mundo atormentado. Mas o artista não precisa sofrer para mostrar sofrimento. Hoje é quase “cool” sofrer. As pessoas transformaram o artista
esfomeado em herói, elas pensam “nossa, ele é tão puro...”. Mas, para o artista esfomeado, não é tão legal assim... Se ele está realmente deprimido, não vai conseguir nem levantar da cama para fazer seu trabalho.

Vou mencionar dois fatos que podem ter te deixado com raiva de Hollywood em diferentes épocas e você me diz se a meditação ajudou a superá-los: o primeiro foi não ter o corte final de Duna (1984) e o outro foi não ter encontrado distribuidor americano para Império dos sonhos (2006).

Foi uma tristeza e um pesadelo não ter o corte final de Duna. Eu sabia, intelectualmente, que não deveria aceitar isso. E, assim que topei, percebi que estava me vendendo. Mas não haveria um corte do qual eu me orgulharia, porque comecei a me vender já na fase do roteiro. Sabendo que [o produtor] Dino [De Laurentiis] pensava de um jeito, eu tentei conseguir tudo que queria dele, mas certas coisas eu sabia que não ia conseguir, elas saíram do caminho. No fim do processo, eu estava destruído internamente. Porque o filme sempre sou eu. Eu me identifico tanto com meu trabalho que, se ele é ferido, eu também saio machucado. Eu juro: se eu não estivesse meditando, algo muito ruim teria acontecido comigo.
Acima, Lynch filma Laura Dern em Império dos sonhos com uma câmera digital, experiência que o levou a decretar “a morte da película”; ao lado, o cineasta em um intervalo de filmagem de Cidade dos sonhos com Naomi Watts e Laura Harring, que protagonizaram a melhor cena de lesbianismo do cinema recente
 
 
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