Volto ao quarto transtornado, em comoção suspensa, e vasculho meus blocos. Mais de 250 páginas rascunhadas no último mês, 20 delas sobre uma trip de LSD na segunda-feira em Basel. Outras cinco sobre meu sonho com Albert Hofmann, quando ele disse não ter recebido, afinal, meu bilhete. Sentado em minha frente, afirmou que nem para uma entrevista onírica ele tinha tempo. Estava velho demais, já havia dito tudo o que tinha para dizer. Me dá um conselho: nunca tente fazer LSD. É perigoso e difícil demais. Peço um retrato dele, algo que sei ser inútil, já que não dá para levar ao mundo uma foto de sonho. Ainda assim aponto a câmera. Dr. Hofmann sorri, mas vai encolhendo e encolhendo até desaparecer antes do clique.
Remoendo as duas reportagens que teria que escrever, o acaso de novo faz das suas. Alguém no retiro budista me oferece um LSD puro. Me rendo. Em honra de Albert Hofmann, eu precisava da trip derradeira. Quando ingeri a dose, defronte a uma estátua de Buda deitado, tinha um plano simples: sentar na falésia negra onde o Pacífico quebra furioso e de onde se avista a poucas milhas a lava que brota fresca das fendas vulcânicas e cai no mar.
Caminhando debaixo do sol a pino, uma estranha onda toma os olhos. Um velho que caminha na frente tem um movimento complexo. Sua corcunda, seus braços soltos... ele parece um animal. Mas espera. Ele é um animal. E eu também. Vejo minhas mãos com pêlos. E poros. E as folhas das árvores têm poros e respiram. E as pedras no chão também têm poros e uma voz inaudível me diz que elas também respiram. Que também existem. A tarde fica acesa e me invade quando chego à vista oceânica.
Simmm, agora bateu, são duas da tarde quando acho um lugar à sombra e solto nos fones de ouvido a música favorita de Albert Hofmann para experiências de LSD. “Quinteto em dó maior”, de Franz Schubert, Adagio. O mar e o céu se revelam em perfeitas espirais, idênticas a galáxias e DNAs e ao vórtex que se forma toda vez que fecho os olhos. As conchas são tingidas da mesma estampa que planetas. Quando a realidade parecia absolutamente manifesta, penso em Albert Hofmann. Mente manifesta, meu caro, não realidade.
Uma consciência clara, a sensação presente de que tudo o que vejo e sinto, o tempo inclusive, não passa de uma abstração. Simmm, fez sentido. Um monte de osso e carne que escolhe uma identidade, ganha um nome. E a entrevista com Albert Hofmann chegou toda junta, sem palavras, apenas lição. A existência é ilusória e real. Uma conta que não fecha. Deus é humor.
Vibrou em mim aquele suspense terrível, a iminência da resposta que está em toda parte, escondida por trás dos átomos e das idéias. Mas que eu sentia estar pulsando, quase visível. Estaco na paisagem, o macroscópico. Eu nunca fui quem eu sou agora. Nunca estive tão estranho – e próximo da lucidez, pois, acordado como nunca, senti o grande “Ahá! Isso é um sonho”.
Vejo o oceano, uma veia em minha mão e a fumaça branca que sobe do encontro da lava que escorre a uma milha e dá no oceano. Que eu posso dizer? Eu não sei. Só me dou conta de algo indizível quando escuto o acorde final da sinfonia que me trouxe aqui. Uma beleza forte demais se revela. Nada está derretendo, tudo está perfeitamente em seu lugar, e cercado de vida e de morte naquele pedregulho que brotou no meio do mar estou, simplesmente, existindo. Nada dura. Desabo em lágrimas incontidas. Uma voz doce e articulada me lembra: “Seja agradecido”. Eu Sou. Hofmann e LaBerge, Suíça e Havaí, psicodélicos e sonhos lúcidos... tudo leva ao mesmo ponto. Acordar, estar atento.
Penso na futilidade deste texto que luto agora para terminar e agora compreendo por que o centenário gênio é tratado com tamanha reverência. Hofmann trouxe o LSD, foi o primeiro a tomá-lo e, até hoje, o que melhor descreveu a experiência psicodélica. Porém não se considerava mais do que um contemplador dos mistérios da existência. Não separava a química da física, da morte, da vida e do tempo. E inaugurou no mundo, no meio da Segunda Guerra Mundial, uma era que começou silenciosa e ainda está para florescer. Do estudo sistemático e aventureiro dos estados alterados de consciência. Um tempo capaz de nos fazer entender, sub e supraconscientemente, o clichê budista: tudo está conectado, tudo é ilusão, tudo que existe não passa de uma coisa só, solta no tempo, mergulhada em um imenso vazio que cuida de deixar tudo... como é.
A resposta estava ali, como está em qualquer canto do universo. Albert Hofmann não é importante, LaBerge não é importante, nem horas de aulas e palestras onde a consciência é tratada como uma jóia bruta. O que importa é aquele instante, algo bem simples. A realidade é um capricho mental, uma manifestação daquilo que há entre a carne e a alma, uma aventura psicodélica, um sonho.
