Ele se referia a Albert Hofmann, que não apareceu para o encerramento do fórum. Do começo ao fim, foi como um Godot sorridente e iluminado. Só na terça, dois dias depois, vim a saber: o bom doutor estava muito bem de saúde. Só não gostou que marcaram o fórum na Semana Santa. Não católico, ele enxerga valor e sentido nas datas sagradas. Ainda assim, no dia da ressurreição de Cristo, papas da psicodelia declaravam devidamente renascido o movimento psicodélico clínico. E eu contava os minutos para a manhã seguinte, quando eu jogaria meus microgramas sob a língua.

Havaí, 29 de abril
É a última manhã do curso de sonho lúcido e eu estou satisfeito. Da turma fui dos que mais tiveram sonhos lúcidos e dos mais férteis, longos e estáveis. Em três noites voei, atravessei paredes, escapei de prisões de pesadelo, fiz sexo, dirigi uma motocicleta feito um alucinado, pilotando sobre telhados e ônibus. Certo de que teria material para a presente reportagem. Porém, mais do que dono de um videogame interno, começava a absorver mais profundamente a idéia martelante de LaBerge. De que a realidade é uma abstração. Uma versão de uma verdade invisível a olhos humanos.
Depois de mais de um mês na estrada, em uma trip que começou na Suíça, no Fórum Psicodélico, e termina hoje mesmo, no Havaí, o sentimento que carregava era uma espécie de jet lag da consciência. Ainda reverbera em mim a experiência com LSD em Basel, a série de incontáveis coincidências que deram as caras depois. A habilidade recém-adquirida de mergulhar nos sonhos com máscara e oxigênio parecia um ponto final perfeito para esse começo de primavera. Estou alegre especialmente pela possibilidade de transformação interna, de encontrar na ciência, nos psicodélicos e no sono uma lucidez mais aguçada no sonho compartilhado que chamamos de realidade.
Mas a vida tem seus arroubos de ficção. Naquela última aula, LaBerge trata especialmente de sonhos com mortos. Sem puxar certezas, ele emenda relatos sobre como a lucidez ao lidar com a presença de mortos em sonhos pode ser curativa. Uma experiência semelhante ou mais profunda do que encontros na vida desperta. Fala sobre a visão quase mística da consciência como algo imaterial, solta no tempo. E que, real ou poeticamente, sonhar com mortos é uma forma de encontro entre duas consciências.
Eis que no fim da aula, puxando e-mails, a bomba bate à caixa: Albert Hofmann morreu naquela manhã em Basel.

   
 
 
 
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