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sensacionalistas ou desculpa para baluartes da sobriedade reforçarem o estereótipo dos viajandões. Para relatar um encontro de gente que vive e estuda o FLUXO, o ideal me pareceu segui-lo. E ter o que todas aquelas palestras emendadas exaltavam: a experiência psicodélica, uma larga e serendipitosa manifestação mental.
Assim como é contra a repressão, a comunidade psicodélica é avessa ao tráfico. Suas fontes em geral são clandestinas, mas desligadas de redes criminosas interessadas em dinheiro grande, armas ou substâncias mais nocivas. Acreditam que tais compostos são mais próximos de remédios do que de venenos. Também botam fé em carma e em forças sutis agindo em tudo o que existe. Se os psicodélicos contêm lições e, de alguma forma, vida, os químicos são os primeiros responsáveis. E idolatrados como místicos, herdeiros contemporâneos de xamãs e alquimistas. Suas intenções e mentalidades tocam as moléculas como os pais transformam seus filhos. Não é apenas química, como não somos apenas genética.
Assim, dinheiro não era um assunto para os interessados em comprimidos. O grande barato era “conectar”. Porque se algo une todos os entusiastas da psicodelia é a ânsia por companhia. E todos viam o fórum também como uma forma de estreitar contatos, conseguir trabalho e confiança das parcas fundações que bancam pesquisa. Mas que melhor lugar então para trocar cartões do que em festinhas nas suítes e no lobby do Swissotel?
Em uma dessas noites, eu explicava para os americanos que o etanol brasileiro não é a salvação da lavoura quando a onda de um MDMA muito fino chegou. Um fluxo verbal mais fácil e macio saía de todos e uma sensação interna semelhante a uma vitória. E tive certeza de que, dali em diante, tudo ficaria perfeitamente bem. Quando entra pela porta giratória um ancião negro de barba vermelha, ornado com infinitos broches e anéis. Custo a acreditar que era Lee “Scratchy” Perry. Vou ao encontro da entidade. Era um sinal, tinha que ser. Mas não sei. Sinal de quê? Só sinto uma felicidade tensa, um suspense que rufa em mim, como se uma resposta estivesse quicando na minha frente. Mas, por agora, era apenas Lee Perry.
– Com licença. Lee Perry?
– Simmm.
– O que o senhor faz por aqui?
– Eu moro aqui, my friend.
Faz sentido. Simmm, faz. Àquela altura eu havia entendido o que faz da Suíça um lugar único no mundo. Eles têm os melhores relógios, os melhores cientistas, lentes, cofres e a mais relaxada alfândega do mundo como forma de dizer: “Venham todos, bem-vindos. Não quebrem nada, não importunem ninguém e sejam o que quiserem. Nós só queremos olhar vocês passando”.
Se havia de fato uma renascença florescendo naquele hotel, eu precisava de uma provinha, não apenas notas e cliques. Psicodélicos podem não ser viciantes como alegam seus profetas, OK. Mas o pensamento sobre eles é. E muito. Os “pontos” do tipo que a PF jogou fora, o que dá para achar no Brasil, já me divertiram, me confundiram e ensinaram muita coisa. Mas não posso dizer que tive uma experiência mística, transpessoal com LSD. O fato de estar em Basel, perto de dr. Hofmann e cercado dos papas da lisergia, era mais do que um chamado. Não pregava os olhos: eu estava fissurado.
Basel, 24 de marÇo
Foram muitas horas, muitos cartões trocados, noites maldormidas e diferentes moléculas até o último dia de fórum. Eu nutria uma esperança muda de que Hofmann apareceria na cerimônia final naquele domingo de Páscoa. Um domingo de... renascimento, eu queria acreditar, já que, por obra do ponta firme destino, 200 microgramas do mais puro LSD disponível vibravam no meu bolso. Eu desejava, e já assumia toda a onda quântica/budista, que meu simples pensamento fosse capaz de trazer o químico para abençoar minha trip vindoura. E me dar uma entrevista.
Todos os palestrantes tomaram o palco. E, antes das considerações finais, John Hana, fundador do Erowid, maior fonte online de informação sobre drogas, com a voz embargada, abre o jogo: “Não podemos ser hipócritas”. Os entusiastas de psicodélicos conseguem seus “sacramentos” de fontes clandestinas. Naquela tarde, John conversou com Casey, seu amigo, um químico inglês preso, condenado a 35 anos de cadeia por sintetizar LSD. Ele gravou uma mensagem por Skype que foi reproduzida a todos. Toda a questão metafísica, pessoal, esbarra, para não dizer se estabaca, no ideário político. Casey pedia que cada um ali se engajasse na luta pela discussão de leis mais... lúcidas.
Derramei lágrimas. Assim como muitos pelo auditório. Depois de três dias em uma zona livre, escutando nada além de relatos de liberdade interior e sentimentos de unidade, aquele homem preso justamente por fabricar as chaves das portas da percepção foi um banho da alucinatória realidade em que estamos enfiados. Sob palmas, alguns dos palestrantes deram suas palavras finais. Alex Grey, artista plástico de Nova York, especialista em reproduzir as visões de estados alterados, puxa uma oração final:
“Pai nosso que está em Basel...” |