Basel, 21 de marÇo
Custei a dormir na noite anterior, fritando com a expectativa de testemunhar um momento histórico. O auditório San Francisco, uma das bases do primeiro Fórum Mundial Psicodélico, está lotado. Uma silenciosa ansiedade no ar no que podia bem ser a última chance de ver um mito. Principalmente para aquelas centenas de almas que, de alguma forma, se sentem salvas pela experiência psicodélica. Conforme anunciado, Albert Hofmann faria o discurso inaugural, uma fala intitulada “Mudança de consciência como chave para um mundo melhor”.
Os cochichos pelo salão, no entanto, prenunciam a água fria. Quando Lucius Werthmüller, um dos cabeças do evento, sobe ao púlpito, anuncia que dr. Hofmann pediu para ficar em casa. Aos 102 anos não se sente mais obrigado a nada, e deseja o bem e a felicidade a todos por ali. Palmas entusiasmadas e uma decepção resignada. Que fiel, afinal, pode se ofender com um santo?
Por trás da ausência de dr. Hofmann esgueirava-se a adequação da data presente. Um instante e tanto no mundo: primeiro dia da primavera (no hemisfério norte), lua cheia, convergindo com um dia sagrado para os hindus, em que a maconha é utilizada como sacramento por milhões de pessoas em uma cerimônia na Índia em que todos jogam tintas coloridas uns nos outros. Naquela sexta, o dólar bateu seu valor mais baixo em décadas, imagens de monges tibetanos mortos vazaram da China e tomaram a TV. Também era uma Sexta-Feira Santa, mesma data sagrada de um momento histórico para a psicodelia, ocorrido 46 anos antes. Em um evento que ficou conhecido como Experimento da Sexta-Feira Santa, Timothy Leary e seus comparsas em Harvard promoveram testes com psilocibina em uma igreja de Boston. O resultado até hoje é usado como argumento para o uso legal de psicodélicos como forma de melhorar mentes e relações humanas... Enfim, a data era sem dúvida um sinal, pensavam muitos dos presentes. Pessoas que ao longo do tempo reconhecem como um dos principais efeitos de uma vida psicodélica a dissimulação da realidade. Percebem como falsa a aleatoriedade com a qual o acaso se traveste.

Mesmo com o patrono ausente, a mesa inaugural recebe as mais célebres figuras do evento. Ralph Metzner, Mountain Girl, Stan Grof e Rick Doblin. Este último o mais jovem da turma. O sujeito que está por trás da renascença psicodélica que pipoca em vários países, depois de 40 anos de pause. Rick é o presidente e fundador do MAPS, a associação multidisciplinar para estudos psicodélicos. No ano passado Rick financiou dezenas de estudos clínicos e arrecadou US$ 45 milhões em doações e vendas de livros. Conseguiu autorizações para abrir testes clínicos com MDMA, ketamina, LSD e psilocibina. Junto com fundações como a Heffter da Suíça e a Beckeley inglesa, ele e seus jovens funcionários estão provando, como Grof, Metzner e outros nos anos 50 e 60, que o poder dos enteógenos transcende questões químicas.
Tais instituições, presentes em massa no fórum, estão começando a desovar devagar, mas continuamente, resultados de pesquisas feitas nos últimos 15 anos quase na surdina. E Rick Doblin está centralizando um grande aglomerado de relatórios e ações para uma verdadeira intifada legal. Usando a própria lei americana como base, quer provar por a + b que psicodélicos devem ser autorizados em contextos seguros e terapêuticos.
“Depois de quase 40 anos de rumores e noções preconcebidas, estamos começando a transformar as certezas das pessoas que vão atrás de informação. Agora elas encontram dados clínicos incontestáveis. Ainda que seja muito difícil medir com padrões anacrônicos coisas como medo da morte ou redução de ansiedade, o acompanhamento a longo prazo mostra uma melhora significativa no estado emocional de sujeitos submetidos a terapia psicodélica. E, mais do que uma questão individual de saúde ou liberdade, a experiência mística resulta em um sentimento de comunhão, em mais justiça social”, Rick Doblin articula.
Com um sorriso que parece cicatrizado no rosto, Rick comemora o aniversário do experimento da Sexta-Feira Santa reproduzindo a pregação do pastor Panhke gravada na sessão de psilocibina na igreja de Harvard. “Rick está fazendo algo fantástico”, diz John Harrison, terapeuta e pesquisador de ibogaína, um potentíssimo psicodélico utilizado na recuperação de dependentes de opiáceos, “ele está dentro do sistema, joga pelas regras para transformar a lei. É por isso que estamos avançando.”
Tom Roberts, um dos organizadores do recém-publicado Psychedelic Medicine, dois volumosos tomos com os mais recentes resultados clínicos das vantagens e riscos da terapia psicodélica, define bem a crucial diferença do nascimento e do renascimento do movimento psicodélico. “A era de Timothy Leary, de exploração informal e ilegal, causou muitos problemas. Deu margem à histeria da imprensa e à caça às bruxas.”

 
 
 
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