Havaí, 24 de abril
Ergue os braços, fala acelerado, faz onomatopéias, vozinhas estranhas e piadas tolas a todo momento. Caminha como um comediante, mantém os olhos arregalados, carrega uma bengala azul com fitas douradas e usa macacos de pelúcia e uma Barbie vestida de havaiana como recurso didático lecionando a 14 adultos de boa formação. Pode até parecer, mas Stephen LaBerge não tem nada de bobo. Sua persona na aula, que não difere muito do que é nas tardes livres de seu workshop, é um tipo de marca. Um carisma inusitado que orna ironicamente bem com o produto que vende: lucidez. É que, para LaBerge, lucidez tem mais a ver com questionar a realidade do que exaltá-la.

Ele se tornou doutor em 1980 por seu estudo com sonhos lúcidos. Até então a experiência era restrita a relatos de ocorrências espontâneas, à prática oriental
 

de dream yoga, ao cultivo do estado por artistas e curiosos ou ao simples descrédito por parte do mundo acadêmico. E foi na academia que LaBerge mirou quando começou seus experimentos. Caminhando em seguras estradas científicas, ele provou com sinais e registros de eletroen­cefalograma a lucidez no estado do sonho. E pelos últimos 30 anos tem gasto seus fartos neurônios a explorar possibilidades e aplicações para tal condição, a convencer céticos de que tais fenômenos existem e a dar aulas para gente de todo tipo que se dispõe a viajar ao Havaí para aprender a sonhar.
Gente como Nick Palmer, americano sessentão de humor ácido e pessimista, cínico e amoroso senhor que vive quieto no vasto Estado de Montana e está lá para “sonhar uma saída para o estado horrível em que o mundo se encontra”. Ou como Luciana Hall, inglesa de roupas e sotaque clássicos, que levou na bagagem um aparato para escanear as cacholas dos colegas de graça. Ela é uma artista que usa ondas cerebrais como matéria-prima para suas apresentações. Ou Frederick, um funcionário do comissariado dos direitos humanos da ONU no Nepal. Ou Lina, sueca de 23 anos rodando o mundo pela primeira vez. Ou Daniel, um químico francês pesquisador de psicoativos na casa dos 50. Por nove dias, dividindo quartos e mesas, assistimos a duas longas aulas diárias e preparamos nossas mentes para o sono, as horas mais agitadas de nossa jornada.
Não tem truque. Mas há uma chave que acorda a consciência enquanto o corpo dorme. A memória. Ela é a ponte entre os dois mundos. Uma distância que LaBerge, já no primeiro dia, cuida de reduzir ao mínimo. Com a palavra, nosso teacher:
“Quem aqui acha que está acordado?” Os alunos dão risada. Mas Stephen está falando sério. “Levanta a mão quem acha que está acordado.” E logo começa um colóquio que, apesar de rotineiro para ele, é proferido com clara paixão. LaBerge insiste que é mais difícil do que parece diferenciar os dois estados. E que o questionamento constante sobre em qual estado estamos é a base para a lucidez. No sonho e na vida desperta. Os nove dias de internação não são para complexas lições ou malabarismo mental. Servem mais como um intensivão de reprogramação. Ou como forma de incutir na cabeça dos sonhadores uma constante suspeita. Um modo desconfiado de reconhecer que tudo, todo o tempo, não passa de uma simulação.
A princípio pode parecer besta, um jeito fácil de entender a realidade. Mas LaBerge tem estrada nesse campo. Não apenas como explorador da terra dos sonhos, mas como estudioso das ciências cognitivas. Sabe alterar certezas na base do argumento e da sedução. E explicar que nossos cinco sentidos e a forma como a mente humana é construída servem mais para restringir do que revelar. Mais para resumir do que destrinchar. Passa suas aulas disparando grandes verdades cósmicas e existenciais em tom de uma estranha comédia. “Stephen é como um personagem de sonho”, define Keelin, comparsa de Stephen nas aulas e no instituto Lucidity.
A rotina no curso é bastante simples. Uma aula de duas horas e meia pela manhã e outra à noite. A tarde é livre para exercitar a vontade e a intenção de sonhar lucidamente; e para “testes de realidade”. Uma prática tão bizarra quanto útil, cuja função é desfazer a simples suposição de que estamos acordados. Basicamente devemos criar a obsessão de checar o dia todo se estamos dormindo. Os testes podem ser bastante simples. Olhar um relógio, desviar a vista e checar de novo a hora. Em sonhos, números e palavras costumam ser instáveis e confusos. Coisas assim. Ou, na ocasião do workshop, apertar um botão em nossa testa...
Estranho, pois não. Mas estranheza é nossa matéria-prima. O botão a que me refiro é parte do NovaDreamer, a máscara criada por Stephen e seus asseclas. Trata-se de um acessório para a noite, aparelhado com uma sofisticada engenhoca eletrônica. Ela monitora o sono do usuário e o ajuda a se tornar lúcido dormindo. Da seguinte forma: o NovaDreamer sabe quando você está sonhando. Ele possui sensores junto aos olhos que reconhecem o sintoma número um da atividade onírica: o REM (Rapid Eyes Movement), o movimento rápido dos olhos. Dependendo da programação, o NovaDreamer dispara LEDs vermelhos piscantes para dar uma pista ao sonhador. Se no meio de um sonho o céu começa a piscar ritmadamente, ou um caminhão dá flashs com seu farol, ou os olhos de um personagem começam a emitir uma forte luz... fica mais fácil de lembrar. De chegar àquele delicioso “Ahá! Isso é um sonho”.

 
 
 
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