
Psico = mente. Delos = forma, manifestação. Mente manifesta. Eis como o psiquiatra Humphrey Osmond e o escritor Aldous Huxley batizaram os efeitos das substâncias que começavam a despontar na elite da psicologia européia. Pelos 20 anos seguintes, tais compostos foram estudados em diferentes níveis, e os resultados das pesquisas não poderiam ser mais animadores. LSD, mescalina, psilocibina apresentaram um potencial inédito como psicoterapêuticos. Por um motivo: seus efeitos não são meramente alucinatórios quando aplicados de modo seguro e guiado. Boa parte da academia concordou que tais moléculas calibravam a mente em estados transitórios de profunda atividade sensorial e simbólica. Em última análise, enchiam a consciência de metafísica e possibilidades. As imagens, sinestesias, explosões de cores e outras visões não passavam de leituras de uma mente reinterpretando a realidade e se revelando a si mesma.
Tudo corria dentro da... normalidade? Terapeutas promoviam sessões psicodélicas e exaltavam tais substâncias como elixires milagrosos. Intelectuais e artistas se aventuravam pela intrigante promessa do Delysid (nome comercial do LSD vendido pela Sandoz) e reviam em questão de horas todas suas certezas estéticas. A CIA mantinha um secreto e maciço programa de testes explorando ao limite as possibilidades do LSD em gente sem noção do que estava tomando. O governo americano procurava nos psicodélicos uma arma de controle mental. Em uma história digna de um thriller, a extensão dos testes acabou abrindo margem para que o LSD tomasse as ruas como a droga da desobediência. Os anos 60 estavam começando, e a descoberta do dr. Hofmann foi o estopim que faltava a uma sociedade preto no branco, que estava pronta para explodir em cores e transformações.
Em questão de meses o LSD perdeu a bula. Muita gente foi salva, muita gente surtou. Hippies tomavam como chicletes, yippies como arma política, políticos como obra dos comunistas, religiosos como coisa do diabo e a mídia como a manchete perfeita. Quando a psicodelia tomou ares de revolução, manobras do conservadorismo norte-americano trataram de proibir o LSD e todos os psicodélicos. Tudo para a lista um das drogas mais perigosas, ao lado de heroína e outras. Resultado: as pesquisas cessaram e os traficantes fizeram a festa. O termo psicodélico, que prometia se tornar um ramo da psicologia, virou clichê, sinônimo de uma estética, não de uma escola. E hoje o que se conhece por ácido, ao menos no Brasil, não passa de alguns parcos microgramas de LSD combinados com anfetaminas e aditivos para festas.
Mas, enquanto as 10 mil bicicletinhas iam para o lixo em Curitiba, mais de 100 nomes voavam para Basel com a intenção de tirar substâncias como essa das mãos da polícia e devolvê-las a cientistas, terapeutas, filósofos e místicos. Lendas vivas dos últimos 50 anos e alguns dos 1.500 inscritos para as palestras estão no mesmo hotel em que o presente repórter. Pesquisadores, xamãs, botânicos, músicos e entusiastas em geral estão chegando dos cinco continentes. Especialistas em LSD, DMT, mescalina, iboga, ayahuasca, maconha e todo o tipo de composto capaz de levar mentes ao céu e ao inferno como escalas de um mesmo vôo.
Vai começar o Fórum Mundial Psicodélico. Missão: fortalecer o que eles acreditam ser a renascença do movimento. Uma sólida e coesa retomada das pesquisas e das políticas relacionadas a essas substâncias depois de 40 anos de sombras. Na visão desse povo reunido em Basel, a experiência psicodélica é cada vez mais necessária. Relativizar a percepção como forma de buscar mais lucidez. Mergulhar em estados descritos como sonho para despertar uma sociedade caminhando ao abismo.
Visão oposta da que orienta a lei e do pensamento genérico de críticos e muitos usuários. Para os defensores da proibição irrestrita, psicodélicos são indutores de psicoses, químicos que desencadeiam transitória ou definitivamente estados de loucura. Ou, na posição de psiquiatras mais céticos, o reconhecido fluxo de pensamentos simbólicos e reprimidos pode ser, no mínimo, tão arriscado quanto benéfico. Basicamente não devemos revirar lixo mental que está, sabiamente, enterrado. Ou, simplesmente, a idéia globalizada e reverberada nas campanhas de prevenção de que drogas são drogas. Melhor não usá-las. E ponto final.Por mais diferenças que toda a fauna humana pudesse ter naquele hotel psicoativo, de algo todos compartilhavam. A vontade de encontrar Albert Hofmann, ilustre habitante de Basel, convidado de honra do evento.
Aos 102 anos é percebido como uma espécie de santo, ou melhor, um profeta que trouxe um evangelho não verbal, não dogmático, onde a Palavra é recebida direta e internamente através de uma molécula. Para seus seguidores, sua descoberta foi para a mente o que as caravelas foram para os impérios. Um novo mundo a ser explorado, a chance de expandir certos limites de forma nunca antes possível.