Basel (SuÍÇa), mais de um mÊs antes, 20 de marÇo

Estou no lobby de um hotel bacana, redigindo um bilhete escorado no balcão.
– Pois não, senhor?, chega um funcionário ariano.
– Estou procurando o quarto do dr. Albert Hofmann.
Enquanto o fleumático bell boy vasculha um monitor oculto, a nata da psicodelia engrossa no leite suíço, fazendo fila para o check in. Eles estão ali para participar do primeiro Fórum Mundial Psicodélico. Ali do lado pode ser avistado Ralph Metzner, dos mais fluentes e influentes autores de pesquisas e teses psicodélicas. Parceiro de Timothy Leary ainda em Harvard, quando promoviam testes com psilocibina em voluntários. Por ali também está Stanislav Grof, psicólogo tcheco, radicado nos EUA, considerado por dr. Hofmann como o padrinho do LSD. Ele abriu largas estradas na psicoterapia com estados alterados da consciência e desenvolveu campos como a psicologia transpessoal e técnicas de respiração holotrópica. Carolyn Garcia, mais conhecida como Mountain Girl, está sentada com seu sorriso de Buda em uma poltrona. Comovente observar tão bela senhora, passageira VIP no ônibus psicodélico de Ken Kesey que percorreu os Estados Unidos nos anos 60, esposa de Jerry Garcia, do Grateful Dead... Seria possível gastar toda a reportagem dizendo quem eram aqueles sujeitos que lotavam o saguão do hotel. Mas agora não, o bell boy trouxe seu saldo:
– Ele não chegou. Mas tem a reserva. Quer deixar recado?
– Um bilhete, sim?

Caro dr. Hofmann,
me sinto feliz em lhe escrever de próprio punho. Especialmente hoje, depois de tantas coincidências que me trouxeram aqui a Basel. Há tempos procuro uma forma de me comunicar com o senhor.
Meu nome é Bruno, sou repórter de uma revista brasileira chamada
Trip. Fui enviado para cá na ocasião do fórum para tentar entrevistá-lo.
Se uma entrevista não for possível, peço o quanto de tempo puder dispor para algumas palavras e para que eu possa lhe entregar um exemplar de nossa publicação.
Formalidades à parte, para mim seria uma imensa honra. Sou grande admirador de seu trabalho e rogo para que seu legado não se perca nas sombras de leis ignorantes.
Voltarei a procurá-lo mais tarde. Por enquanto, estou no mesmo hotel do senhor, quarto 516.
Muitas felicidades
Bruno

Dois dias antes, em São Paulo, eu corria para pegar o vôo para a Suíça quando a Polícia Federal bateu um recorde. A maior apreen­são de ácido já feita no Brasil. Dez mil unidades, ou “pontos”, como chamou o delegado, importados de Amsterdã, chegando a Curitiba. Os responsáveis pela dura divulgaram em nota que o “LSD é uma droga alucinógena”. Jogaram quatro homens na cadeia. Também divulgaram uma foto. Dez mil bicicletinhas desenhadas em quadradinhos de papel e uma singela homenagem. “100 years.”
A data celebra o centésimo aniversário de Albert Hofmann, em 2006. Ele descobriu o LSD em 1938, enquanto pesquisava compostos derivados do ergot, um fungo parasita do trigo. A tal vigésima quinta dietilamida do ácido lisérgico, o nome completo do LSD-25, era instável demais como molécula. Foi para a gaveta como muitos de seus primos. Mas, cinco anos depois, dr. Hofmann sentiu uma intuição que ele cuidou de seguir. Retomar a pesquisa com o LSD. E, por um “acidente”, como ele mesmo coloca entre aspas, em 1943 ingeriu uma quantidade ínfima da substância e sentiu-se, em suas palavras, “em um estado de sonho, com meus olhos fechados, percebi um ininterrupto fluxo de imagens fantásticas, formas extraordinárias com intensas e caleidoscópicas cores”. Aturdido, decidiu tomar deliberadamente uma dose diminuta, 250 microgramas. Não sabia que havia descoberto a mais potente molécula psicoativa. O quarto de miligrama que provou era uma dose bem forte de seu composto. Depois, voltou para casa de bicicleta. Eis a homenagem impressa nos 10 mil pontos de Amsterdã. Pedalando pelas ruas de Basel, dr. Hofmann teve a primeira grande trip de LSD. Até hoje, e cada vez mais, sua intuição e os acidentes que resultaram no composto são vistos por seus seguidores como algo metafísico, uma clara dissimulação das forças que regem a existência. Inaugurou-se a idade psicodélica.

 
 
 
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