Havaí, 26 de abril
Então é isso: esta matéria é um fracasso. Que vergonha. Stephen LaBerge desistiu da turma, sem mais nem menos. “Vocês são umas bestas”, disse algo assim e partiu, deixando para trás 14 alunos e seus companheiros de workshop. Quanta grana, ou melhor, quanta verba editorial foi gasta para que o presente repórter desfrutasse de nove dias em um curso que soava promissor. Dreaming and Awakening, uma série de aulas e exercícios que oferecem ao pagante a chance de obter a lucidez e poder controlar aquela hora doida em que seus olhinhos mexem depressa e seu corpo está entregue a uma doce paralisia: o sonho.
Um curso de sonho lúcido, resumindo, com o papa do assunto, Stephen LaBerge, Ph.D. Pesadelo, melhor dizendo. Pois, se agora mesmo eu estava em um pacato refúgio à beira-mar da Big Island do Havaí, olho para o lado e só vejo a avenida Rubem Berta. Plena tarde horrorosa de São Paulo. Ao meu lado caminham Keelin e Dominick, os parceiros de LaBerge. Eles mantêm o sorriso e tentam passar um pano no surto arrogante do dreamstar, temerosos do que esta reportagem vai relatar aos senhores leitores. “Calma, Bruno”, a doce Keelin começa, “Stephen nunca fez isso... a maioria dos alunos sai muito satisfeita.” Digo que sim, mas ainda me assombra a idéia de terminar tão esperada matéria com uma grande brochada onírica. Mas... Mas...
Hum.
Paro o passo e me pergunto. Keelin e Dom em São Paulo? Na Rubem Berta, indo a pé para o aeroporto? Espera... Espera... Presta atenção. Tem um outdoor do outro lado da rua... Publicidade exterior em SP?! Ahá! Me lembro! Sim, eu me lembro. Stephen não desistiu coisa nenhuma. Estou no meio de um sonho. Sim! Sim! Isso é um sonho!
Agora só preciso recordar das lições:

1- Esfregar as mãos. Sim, esfrego mãos de sonho como forma de estabilizar a presença. Sinto meu corpo sólido e seguro no sonho.
2- Não esquecer. Segurar a lucidez na base da martelação mental. Como um mantra repito: estou sonhando.
3- Caprichar. É o que faço.
Despeço dos dois com educação e saio voando como se a gravidade fosse um opcional do mundo.

Meu corpo está em uma cama de solteiro em um quarto de um retiro predominantemente gay e budista na Big Island. Uma máscara desajeitada cobre meus olhos com sensores de movimento rápido dos olhos (REM), timers, alarmes e LEDs piscantes.
Meu cérebro está influenciado por dias de vontade, exercícios, informação e duas pílulas roxas com extratos de plantas psicoativas – um turbo de memória para ajudar o sonhador lúcido na sua tarefa número um: lembrar que está sonhando.
Já minha consciência está aterrissando de barriga em um gramado bem aparado de uma mansão com vista para o oceano. Um cachorro enorme me recebe deitado no chão e diz: “É divertido!”. Segue-se um sonho longo e exploratório trespassado de cenas cortadas e palavras que são lidas como frases. Atravesso paredes, faço vôos acelerados até que... de novo... eu ME LEMBRO. Ao lado do meu corpo, em cima do criado-mudo de meu quarto, o plano de sonho que redigi dizia a intenção da noite com todas as letras: encontrar Albert Hofmann.
Em um golpe só no sonho, me vejo no apartamento do chapa Ronaldo Bressane. Sentado em uma larga cadeira escura está ele, dr. Albert Hofmann, o pai do LSD, aos 102 anos de idade. Primeira pergunta:
– Recebeu meu bilhete, doutor?

 
 
 
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