Quando tinha 9 anos de idade, um garoto canadense da vilinha de pescadores
de New Brunswick brincava de dar nome às duas lagostas de estimação – Bug
Eye (Olho de Inseto) e Flouderface (Cara de Farinha) – e ao seu
melhor amigo, Bucky, um castor da floresta com quem ele adorava nadar durante
o verão. Um dia, ao chegar à mata, ele encontrou Bucky morto
por caçadores, a pata presa em uma armadilha. Encasquetou que poderia
destruir as armadilhas que encontrasse pela frente e que resgataria todos os
bichos que visse presos. O menino cresceu, estudou comunicações
e foi trabalhar na Guarda Costeira Canadense. Aos 18 anos, se engajou no comitê Não
Faça Onda, que lutava contra os testes nucleares nos oceanos. Em 1972,
com apenas 21 anos, transformou o comitê no mais conhecido grupo ambientalista
do mundo: o Greenpeace.
Hoje, aos 57, Paul Watson continua desarmando armadilhas e ajudando os amigos
do mar. Expulso da ONG que ajudou a criar, fundou em 1977 a própria
organização, a Sea Shepherd. É considerado uma lenda do
ambientalismo, o nome supremo na proteção dos oceanos, “o último
dos homens”, conforme declarou o ator Sean Penn. A atriz e amiga das
focas Brigitte Bardot é sua fã. Entre os mais de 40 mil colaboradores
e militantes voluntários da organização estão Richard
Dean Anderson, o MacGyver, e os Red Hot Chilli Peppers.
Justiceiro
Mas há também uma legião de desafetos. Pessoas que não
concordam com a postura enérgica e agressiva do capitão. Gente
que prefere lutar em terra firme, fazer passeatas, colher doações
e mudar a legislação – em vez de se enfiar em um navio
e se mandar para a Antártida, onde milhares de baleias são assassinadas
por ano, disposta a afundar o navio inimigo, como os apaixonados militantes
da Sea Shepherd. O Greenpeace é o mais célebre deles. Dentro
da ONG, seu nome é tabu. “Não falamos sobre ele. Paul Watson
foi ‘saído’ porque adotou atitudes não pacifistas,
das quais discordamos”, afirma Glades Eboli, diretora de comunicação
da ONG. “Há boatos sobre um baleeiro que pegou fogo! Extra-oficialmente,
comentam que foi coisa da Sea Shepherd. E tivemos que ir lá ajudar a
salvar vidas. Resolvemos não polemizar mais sobre isso.”
Watson dedicou sua vida à causa ma-rinha. Em 1977, foi atacado por um
barco de caça a focas no Canadá; não pensou duas vezes
antes de se pendurar nas cordas do navio inimigo. Caiu na água congelante,
teve hipotermia e quase virou comida de tubarão. “Não tenho
a menor dúvida de que ele daria a própria vida para salvar uma
foca ou uma baleia”, exalta Thiago Malachias, diretor da Sea Shepherd
Brasil. “Ainda me emociono quando falo da trajetória dele. Tenho
certeza de que nunca ninguém fez tanto pelo nosso planeta.” Thiago
conta que o chefe é das pessoas mais quietas e reservadas que já conheceu.
Um homem que guarda as energias para os momentos de decisão
e liderança. No livro Piratas no fim do mundo, o jornalista Denis
Russo, que conviveu com o guru verde durante uma campanha à Antártida,
retrata: “Pensava que o Watson fosse um sujeito imponente,
pose de líder, capitão, herói. Nada mais longe da realidade.
Definitivamente passou do peso, seu cabelo branco cortado
em forma de capacete estava sempre desgrenhado. Mas é também
um ativista profissional, que vive de livros e palestras e por isso
precisa da mídia. Tem defeitos, exageros, inseguranças,
limitações. Grandioso e caipira, admirável e deselegante,
Paul Watson é um herói, mas não 24 horas por dia.
Parte do tempo, é só uma criançona meio mesquinha
que gosta de filmes açucarados e videogames, repete piadas
e conta mentiras”.
Enquanto não está derrubando um baleeiro – já afundou
dez; cada um recebeu uma bandeira pintada no casco do navio da ONG como troféu –,
Watson gosta de escutar folk, rock clássico e blues. Adora biografias
e livros sobre história natural e ciência. Namora Mihirangi, uma
música neozelandesa de origem maori, e tem uma filha de 27 anos, Lilliolani.
Vegetariano, só fica em casa duas semanas por ano: o endereço é sigiloso,
devido às inúmeras ameaças de morte que recebe todos os
dias.
Os japoneses são os maiores inimigos. Para manter a tradição
milenar em comer carne de baleia eles conseguiram uma brecha na lei que
impede a caça ao animal: alegam que todos os navios que seguem à Antártida
trabalham em pesquisa científica. São navios imensos, verdadeiras
fábricas de enlatar baleias. E Paul trabalha sob a alegação
de que faz valer a lei com as próprias mãos.
Sobre seus novos projetos, Paul Watson diz que prefere se concentrar na religião.
Está escrevendo um livro em que entrelaça
ecologia e mitologia: nele, pretende esclarecer
sua tese de que o cristianismo é uma religião pagã, demonstrando
como “nos afastamos da natureza creditando somente aos humanos o que
consideramos divino”. Já neste plano, no fim deste mês embarca
de novo para o Antártida, em mais uma aventura contra os baleeiros japoneses. |