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Chama o síndico
Do alto do Terraço Itália, seu Affonso estende a mão atendendo a um pedido para a foto. “Parece uma bênção”, compara, antes de contar que já foi pastor adventista. Não deu certo: “Igreja é coisa dos homens”, conclui, e volta a estender a mão em direção ao rebanho de que cuida há 14 anos – o maior edifício da América Latina. Está em seu sétimo mandato consecutivo como síndico do Copan. Avenida Ipiranga, 200, bairro da República, projeto de Oscar Niemeyer, 32 andares, 1.160 apartamentos, mais de 5 mil moradores e um CEP exclusivo: 01066-900.
Homem prático, senta-se para a entrevista e, ao clicar do rec, adianta: “Meu nome é Affonso Celso Prazeres Oliveira, Affonso com dois efes. Tenho 62 anos, sou formado em administração de empresas e química. Sou síndico do Copan desde 1993”. Acaba o preâmbulo e não sorri. Foi morar no Copan em 1963, três anos antes de sua inauguração. Pouca gente habitava o colosso do centrão, muita coisa ainda estava em obras. Por 30 anos o prédio foi somente um lar para seu Affonso. Trabalhava muito, próximo de governos federais e municipais, fiscalizando e analisando obras – inclusive as de Niemeyer, em Brasília. A proximidade com o governo milico, nos anos de linha dura, deu a seu Affonso um estigma fácil para seus desafetos no Copan: autoritário. Rótulo que refuta com preguiça... Suspira antes de começar.
“Olha isso”, aponta duas caixinhas velhas de madeira com montinhos de papéis bagunçados. “Era o que tinha para administrar o prédio quando assumi.” Em seguida, abre o sorriso e mostra um armário de metal repleto de arquivos em pastas, com todos os dados e documentos dos apartamentos e moradores. “Isso toma muito tempo...” Quatorze anos. Tempo suficiente para resolver problemas como prostituição aberta nos corredores do bloco B, tráfico de drogas ostensivo, sujeira, elevadores podres e uma dívida gigante. Tempo suficiente para valorizar em 300% o valor real dos apartamentos. Qual o segredo? “Trabalhar sério.” Linha dura? Ele devolve: “Em primeiro lugar, nunca quis ser síndico. Me pediram para assumir porque sabiam que eu era neutro e honesto”. E, indagado na lata, responde o que é preciso para colocar na linha tantos seres humanos: “Autoridade”.
PORTAS ABERTAS
A degringolada do Copan – bem como de todo o centro de São Paulo – começou no final dos anos 70, com a lei de zoneamento, que fez da região um lugar de trabalho e passagem apenas. Daí Affonso afirmar: “Quem está de passagem não tem compromisso”. Ele lembra com nostalgia e desgosto do boulevard da avenida São Luís, dos cinemas luxuosos, da boemia elegante e da vida descasada, estudantil ou artística de seu prédio, e de como tudo isso virou memória e pistas para mais automóveis. Analisa: “O problema da cidade, do país, é falta de autoridade. Não se respeita mais nada. Hoje sou um brasileiro triste”. Mas continua com agenda cheia, um mandato renovado e um plano na cabeça: trocar os elevadores dos blocos A e B, colocar interfones em todos os apartamentos e reinaugurar o terraço da cobertura como um mirante da cidade e um memorial com originais de Oscar Niemeyer e do Copan.
Jura que não quer mais ser síndico. “Tenho que encontrar alguém pra me substituir. Mas quero uma pessoa melhor do que eu, não é fácil.” Imodéstia que não soa arrogante nem autoritária quando conclui: “Tenho orgulho do que fiz aqui porque trabalhei com amor. E, quando vejo o país nesse estado, acho que fiz minha parte: arrumamos o Copan e ele continua aberto”. Fato: não há portaria no Copan. O povo do centro pode simplesmente passar pelas curvas modernistas. Ou quase todo o povo. Se R. ou um de seus 613 colegas derem pinta por ali, para pedir uma esmola ou escorar em uma parede, serão devidamente enxotados.“Esses meninos não são gente. São bichos mesmo, perigosos de verdade.” Não, a frase não é do austero Affonso. Quem afirma isso é o boa-praça Zuza, um homem que há 28 anos passa as madrugadas de pé sob um teto rasgado de luzes fluorescentes, cobrando dos milhares de clientes que vão atrás do mais famoso sanduíche de pernil da cidade. Há 28 anos e a 150 metros do Copan, Zuza é caixa do fecha-nunca Estadão.

Chefe de Estado
A lanchonete Estadão só fecha uma vez por ano: 1o de janeiro. Passa o resto do ano aberta, vendendo quase 30 pernas de porco assadas e curtidas em cebola e pimentão, devidamente destroçadas na faca de seu Amaral para rechear um pão francês. R$ 6,80. Além do pernil, um vasto cardápio de sanduíches, salgados e pratos 24 horas. Refeições para uma clientela diversa: policiais, bêbados, jornalistas, médicos de plantão, travestis, prostitutas, taxistas, gente saindo ou indo para festas, guardas de trânsito, porteiros, funcionários públicos, moradores, insones... Todos precisam comer.
Das 22 às 6 horas, é Zuza quem cobra desse povo. Detrás do caixa, explica o que aprendeu em quase 30 anos: “Acho tudo normal”. De pé, nunca teve um banco, está pronto para descansar de vez. “Em dois anos me aposento. Vou passar o dia sem fazer naaaada.” Promete que só vai tomar cerveja em sua casa própria na zona sul, onde guarda pai e irmã. Quem cuida do cafofo durante o dia é ele; à noite, é Preto, seu rottweiler. Zuza tem orgulho do cão: “Estraçalha um em dois minutos, não sobra carne no osso”, garante. Espia os funcionários enxotando com as costas da mão os garotos que tentam pedir algo aos famintos clientes. Não usa calculadora para as contas – e não calcula suas palavras: “Esses moleques... sabe o que tinha que fazer? Matar tudo. Eles são ruins de verdade”. Mas, Zuza, matar? “Nem precisa matar... eles morrem logo.”
SANGUE RUIM
Zuza está seguro de que, do seu jeito, mantém a ordem de um lugar caótico. Ninguém sai sem pagar, ninguém tumultua, ninguém recebe sanduíche errado. Todos os garçons prestam contas a ele e entendem a voz frouxa que escapa de suas bochechas moles. Todos sabem seu nome, e para ele todo mundo é “mano véio”. R. e seus 613 colegas cercam o Estadão com freqüência. Tem gente, comida, dinheiro e luz fluorescente, forte, bom lugar para fazer hora e ficar longe de perigo. É só não tentar entrar. Mesmo com dinheiro na mão, Zuza não vende nada para menores. Por quê? “Sangue ruim. Não interessa se é criança: se deixa entrar, roubam.” Mas já foi roubado, Zuza? “Nunca, em 28 anos nunca. E não é um moleque que vai fazer isso.”
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