Olho da rua
Quantos anos tem um moleque? E com que idade uma pessoa deixa de ser moleque? Veja o Robertinho. Parece menor de idade. Tem corpo, voz e memória de criança. Só que R., vamos chamá-lo assim, não sabe quantos anos tem. Nem seu sobrenome. Quem avisa que seu nome é R. no diminutivo é H., uma assistente social voluntária que prefere não dizer onde trabalha nem ter seu nome revelado. Nasceu na rua. No centrão. Apesar dos supostos 9 anos, não dá para chamá-lo simplesmente de moleque.
R. faz parte de um grupo seleto, muito mais exclusivo que listas VIP de festas glamorosas: é um dos 614 menores de rua da cidade de São Paulo. Entenda, não são os garotos que trabalham na rua, nos faróis, fazendo malabarismo ou passando o rodinho. Esses são uns 2 mil, que têm um teto para dormir, depois do batente. Ao contrário do senso comum, desses 2 mil moleques que trabalham na rua, cerca de 90% vão à escola e vivem com os pais. Já R. e seus 613 colegas moram na rua. Nunca voltam pra casa; nenhum vai à escola. E, desse grupo de elite da miséria, R. é top: é, ele próprio, filho de meninos de rua. Seu sangue não sabe o que é um lar há duas gerações.
“Quantos são os filhos de meninos de rua? É um número impossível de definir”, explica Fátima Regina, assistente social há sete anos, cinco deles dedicados a menores abandonados. “A maioria dos garotos de rua que tem filhos foge de assistência”, afirma. Por quê? “Parece que eles acham que cometeram um crime”, sentencia. Ela ajuda a cuidar de uma casa que acolhe meninas grávidas em situação de risco. Das 20 vagas, só duas são ocupadas por meninas de rua. As demais são de adolescentes ameaçadas de morte ou fugidas de casa com medo de um pai ou padrasto perigoso. Por isso, nome e endereço da instituição são sigilosos.
TURMA VOLÁTIL
O fato é inescapável: o último censo da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento de São Paulo aponta estranhos 614 menores que moram na rua. Há muito mais milionários do que crianças de rua em São Paulo – cerca de 24.700 (dados da Escopo Geomarketing). Há mais helicópteros em São Paulo – quase 700. A descentralização das verbas públicas, hoje correndo soltas para ONGs especializadas, certamente ajudou. A cifra de 614 já é um avanço: em 2002, eram 1.500. Mas a solução não está em simples assistencialismo.
H., assistente social, teme que suas palavras prejudiquem o recurso público do qual depende sua ONG: “Tem mais de 300 assistentes sociais em São Paulo, e menos de 700 crianças de rua. Era para o problema estar resolvido. Mas um número X das crianças não aceita, não se interessa pela ajuda – porque não entendem o que é isso: não reconhecem nenhum tipo de amparo”, desabafa. Ela mesma demorou a reconhecer: “Sexo e drogas são os únicos prazeres que muito moleque tem. Pensa... nem brinquedo eles sabem o que é”. R. é desses: não sabe o que é brinquedo nem o que é uma casa. Só conhece a rua. E o que assusta não é o fato de que nunca comeu Sucrilhos, nunca viu uma cartilha ou nunca dormiu de banho tomado. R. nunca aprendeu a falar mamãe ou papai. R. nunca viu mamãe ou papai.
“Quando conheci R., ele mal sabia falar. E tudo para ele era masculino. ‘O noite’, ‘o lua’... não aprendia de jeito nenhum.” H. explica como foi a educação de R. “A primeira vez que soubemos dele já tinha uns 4 anos de idade e dormia com garotos mais velhos perto da estação da Luz. Não tenho a menor idéia de como sobreviveu. O que me disseram é que a mãe tinha uns 13 anos e sumiu do mapa.” R. faz parte de uma turma volátil. Não é gangue, não funciona como família, não há amizade em sua turma. Há empatia e um agudo senso de sobrevivência. Em grupo fica fácil tocar a vida, entre os pés apressados do centro. E, se muitos preferem andar sozinhos de dia, na madrugada escolhem o bando. Quando a noite cai, nenhum deles dorme.
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