O senhor
tem filhos?
Não.
Nunca
quis?
Nunca pensei nisso.
Sério? Por
causa do trabalho?
Não. Me viro bem sozinho. Fico bem assim.
Não
sente falta de família, companhia?
Quantas vezes quer que eu responda?
Qual
seu maior medo?
Tirando ser morto? Não sei te responder. Preciso pensar
mais.
O
senhor acredita em sorte?
Eu não acredito não.
Nem no destino, no maktub árabe.
Eu acho que se o cérebro se mantém lúcido você salva
sua vida. Acreditar em sorte é como acreditar em religião.
Você começa a ficar supersticioso. Dá pra usar as palavras
azar e sorte como imagens para coisas boas ou ruins que acontecem, no fundo,
por acaso. |
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O
que o senhor sentiu quando ficou sabendo do 11 de Setembro?
Eu estava em um avião, a caminho
dos EUA quando recebi a notícia. Quando soube que alguns aviões
haviam sido seqüestrados,
fui na cabine do piloto conversar. E saímos, comissários
e eu, procurando passageiros suspeitos. Naquela hora o velho liberal
pró-árabe Robert Fisk se tornou um racista. O que eu senti
naquele dia foi que a Al Qaeda estudou Hollywood melhor que nós.
Al Qaeda Produções apresenta11 de Setembro. Eles viraram
o espelho na cara de Hollywood, que criou monstros muçulmanos
na tela por décadas. De repente. Eles estão vivos! Mas
eu vi atos de extrema violência muitas vezes. Vi a embaixada americana
explodir em Beirute, senti a pressão do ar mudar no meu quarto
por causa de bombas, vi americanos derrubando prédios com mísseis
na minha frente. Claro que fiquei muito impressionado. Mas para alguém
como eu... não fiquei surpreso.
O
senhor previa de certa forma?
Eu sabia que,
em algum ponto, a coisa iria estourar. Eu fiz um filme para a BBC em 1992,
chamado De Beirute a Bósnia.
No filme eu mostro uma mesquita pegando fogo. E digo: “Quando muçulmanos
fazem coisas assim, nós os chamamos de terroristas. Olhando o que
o Ocidente fez com esse templo, eu me pergunto o que os muçulmanos
estão preparando para nós. Acho que deveria encerrar todos
os meus textos com ‘Cuidado!’” Escrevi muitos artigos
depois dizendo que uma explosão iria acontecer, que dava pra sentir
pelas minhas fontes no Oriente Médio. Falando “Cuidado!”.
Você acha
possível que os EUA soubessem do 11 de Setembro
antes dos ataques, como sugere Michael Moore no seu filme?Esqueça
o Michael Moore. Ele não sabe de nada. Fez um
filme inteiro sem citar Israel uma só vez. No
dia 9 de setembro uma mensagem chegou à CIA
dizendo que aviões seriam usados para atacar prédios.
O governo sabia que um atentado ocorreria. Mas no dia
11, em Nova York? Duvido. Acho que Dick Cheney e Rumsfeld
discutiram que se houvesse um ataque nos EUA eles poderiam
implantar sua agenda no Oriente Médio. Isso é tudo
em que posso acreditar.
Se
os democratas assumirem a Casa Branca alguma coisa muda?
Não. Os EUA vão sair
do Iraque e vão convencer o público pelos jornais de que “fizemos
o possível, mas eles não querem a democracia, não
são civilizados”. Agora, a política mais importante
dos EUA no Oriente Médio, que é apoiar Israel,
não vai mudar. E, se isso não muda, nada muda. Fim de papo.
Você acha
que Israel vai mudar sua política no Oriente Médio?
Quando vou para Israel falo
com liberais de esquerda que querem ver um governo que traga a paz. Mas
liberais não são a maioria por lá. Eu vejo a nação
que destrói o Líbano como no ano passado, que bombardeia
casas de famílias para dar o troco... Essa é a que está no
poder e não vejo vontade séria de mudar. Eu acho que a única
saída para a paz é que Israel respeite a resolução
242 da ONU, que determina que retirem todas as tropas dos territórios
ocupados de 1967 para cá. Ponto final. Mas, enquanto Israel tiver
apoio dos EUA para fazer o que quiser, não interessa a opinião
de ninguém.
A paz é uma perspectiva realista no Oriente
Médio?
Todo mundo
quer paz, exceto os totalmente loucos. Agora... existe a
paz em que todos têm direitos iguais e existe a paz
em que um quer espancar o outro até que ele se conforme
com a submissão. Nós queremos provar aos árabes
quem são os fortes, quem é que manda. Como
se não pudéssemos mostrar nenhuma fraqueza.
E as pessoas que conheço no Líbano não
se impressionam com força, elas se impressionam
justamente com fraqueza, porque faz com que fiquemos mais
próximos, mais humanos. A decisão está aí.
Você pensa
em mudar de vida, parar de ser repórter?
Sim. Eu sempre
penso em me tornar acadêmico seis meses por ano, lecionar
história irlandesa,
que é minha maior especialidade. Ser o dr. Fisk. E
quero escrever roteiros de cinema. Filmes têm um poder
inesgotável de convencimento, mais do que o jornalismo.
Sou muito fã de cinema, sempre vou a festivais.
Você tem
um roteiro em produção?
Passo a pergunta.
O
senhor cobre uma região onde religião e fé são
questões de vida ou morte. O senhor acredita em
Deus?
Eu vivo no único lugar onde
a fé ainda existe. O Ocidente
já a perdeu faz tempo. Claro que no Texas tem um monte de gente
que se diz cristão, mas não importa. Em geral ocidentais
só acreditam em Deus quando estão morrendo, muito doentes,
em apuros, se casando. Mas se eu acredito... tive uma discussão
com meu motorista e meu mediador, um é sunita e o outro xiita, sobre
vida após a morte. No final eles me perguntaram se eu acreditava
em Deus. E estávamos em uma estrada cruzando montanhas lindas, com
neve no topo, árvores maravilhosas no sopé, o céu
azul. E eu disse: não me diga que isso está aqui porque há 5
bilhões de anos duas nuvens de gás se chocaram. Claro que
não conseguimos pensar, sentir amor, porque criaturas do mar aprenderam
a andar. Há algo sim, mas não sei dizer mais do que isso.
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