Mas não concorda muito com a visão do Ocidente.
Eu leio vorazmente livros de história, quase todos escritos por ocidentais, e não acredito nesse ridículo “conflito de civilizações”. Isso é pior que infantilismo, é coisa de bebê mesmo. O que me faz sentir como não-ocidental é ler gente falando em confronto de civilizações. O que eles escrevem não parece ter relação com o mundo em que vivo. E uma das razões pelas quais eu sou mais criticado nos EUA e na Europa, e escuto isso toda vez que dou palestras, é que não escrevo o que as pessoas querem ler. Eles querem saber do conflito de civilizações.

Se não é um confronto de civilizações, o que é a guerra contra o terror?
É sobre controle de petróleo e propriedade. Ponto. Não estamos no Iraque pela democracia, quem acredita nisso? Se o produto de exportação do Iraque fosse aspargos ou batatas não estaríamos lá. É uma guerra que serve para dar mais contratos para as companhias ocidentais.

Religião não tem a ver com isso?
Claro que há duas religiões por trás que se digladiam há tempos, mas não é o que importa. Só serve para perpetuar esses preconceitos terríveis de árabes e ocidentais. Nesse sentido o Bin Laden e os sociólogos americanos são exatamente a mesma coisa. Querem enxergar tudo como uma grande cruzada, uma briga do bem e do mal. Claramente Bush e Rumsfeld são pessoas amorais. Eles tratam religião como tratam o petróleo, são artifícios para conseguir o que querem.

Falando em Bin Laden, o senhor o entrevistou três vezes. Como ele é?
Ele tem uma tremenda autoconfiança, é impossível ter uma discussão com ele porque ele está com a verdade. Igual ao Bush. Ele se enxerga como uma figura religiosa.

Ele tentou te convocar para uma entrevista depois do 11 de Setembro?
Sim, no Afeganistão. Ele queria me encontrar, mas eu tinha outros compromissos. Robert Fisk não é cachorrinho. Eu não apareço quando alguém estala os dedos, tenho minha agenda, minhas prioridades, e Bin Laden não é uma delas. Depois ele se referiu a mim em vídeos. No que foi divulgado antes da última eleição americana, disse que se a Casa Branca quisesse saber o que realmente acontece no Oriente Médio deveria ler Robert Fisk. Bem, obrigado, Bin Laden, mas eu poderia ter passado sem essa no currículo. Tipo: “Eu leio o Independent. Assinado Osama Bin Laden”. E Zawahiri deu uma declaração há pouco tempo dizendo que eu deveria sair de cima do muro e me tornar um muçulmano. Bem, senhor Zawahiri, deixa que eu decido minha religião, pode ser?

E o Bush, o senhor já entrevistou?
Não. Não tenho interesse nenhum. Já o vi de perto em conferências, mas não teria nada para perguntar para ele. Iria mentir em tudo mesmo.

Já foi ameaçado por governos ocidentais de alguma forma?
Bem, o gabinete britânico já me concedeu o título de "jornalista mais impreciso da Inglaterra". Isso vindo de um primeiro-ministro mentiroso deve ser um elogio, eu ficaria triste se ficasse de fora da lista. Mas ameaças de governos não. Eles não seriam bobos de fazer algo comigo. A ameaça vem de outro lugar.

De onde?
Eu te digo. Há uns anos o ator John Malkovich respondeu a uma pergunta em uma palestra, dizendo que gostaria de me dar um tiro. Depois me chamou publicamente de um nojento anti-semita. O caso é que na internet, algo que não uso, blogs começaram a aparecer dizendo que Malkovich havia dado a dica. Fotos minhas com sangue no rosto começaram a ser publicadas. Só precisa de um cara com uma arma para me matar. E lá isso não é difícil... Então acho que a maior ameaça que sofro são essas da internet, do John Malkovich. Não as dos Blair e Bushes.


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