Qual o prazer, então?
Eu
não faço só jornalismo, escrevo livros
de história. E o jornalismo se confunde com isso.
Eu te digo do que eu gosto mais. É quando vou para
a casa que tenho na Irlanda, paro na frente de tudo que
fiz, vou repassando para escrever um livro. Quando se trabalha
muito como eu, todo dia, das 8h às 19h, você acaba
não juntando peças importantes da situação
como um todo. Quando eu tenho tempo e posso olhar com calma
meus artigos, minhas anotações, livros, me
dá um estalo.
Qual é a
parte mais difícil do seu trabalho?
Não morrer. Se tem que ir ao
front, sua função é reportar. Se você morrer é inútil,
não vai contar a história. Um dos grandes problemas que eu
vi na Guerra da Bósnia é que
muitos correspondentes vieram de Nova York, de Londres, e não do
Oriente Médio. Nunca tinha visto guerra. A experiência deles
era a TV e Hollywood. E quando chegaram começaram a morrer. Morreram
38 jornalistas em 18 meses. É a mesma experiência que nossos
presidentes e primeiros-ministros têm hoje. Nenhum líder ocidental
de hoje esteve em uma guerra. Esses caras não sabem da responsabilidade
de mandar os garotos. Tony Blair acha que é televisão, entende?
Bush acha que é cinema. Ele até poderia ter ido ao Vietnã,
mas fugiu com a ajuda do pai. Gente que vive no Oriente Médio, que
viu diferentes guerras, aprende a evitar o perigo.
Como
o senhor vê a cobertura de guerras hoje em dia?
Eu me lembro de quando os jornalistas
americanos chegaram em Bagdá em 2003. Eu estava perto dos iraquianos,
onde as bombas caíam, não estava acompanhando as tropas "aliadas" como
quase todos. E aqueles jornalistas todos com cabelo cortado como soldados,
usando algum uniforme militar, fumando cigarros e fazendo cara de mau.
Era tão nítido que estavam representando um papel, algo que
haviam visto na TV. É mais seguro? Sim. Mas não é o
que eu chamo de jornalismo.
O
que é jornalismo para o senhor?
Contar o que realmente está acontecendo, mas com
uma premissa básica, que é desafiar a autoridade.
Sempre, é o mais importante. Hoje a imprensa se acovardou
ou se aproximou demais dos governos para questioná-los
de fato. Os jornais repetem a retórica dos governos
ocidentais sem o menor senso crítico. Dessemantizam
tudo, distorcem a linguagem para que ninguém possa
discordar. Chamam o muro que Israel construiu de cerca, os
assentamentos de territórios disputados. E a palavra “terrorismo” então!
Eu jamais a usaria no sentido comum.
Por quê?
Terror, terror, terror!
Para que serve isso? Para gerar medo. E criar uma divisão
definitiva de bem e mal. E vira a permissão moral
para a violência de Estado de um modo vergonhoso.
Quando se combate o terror vale tudo. Podemos torturar,
matar crianças, mentir, esconder, manter Guantánamo.
Porque estamos combatendo o “terror”. Ora,
sejamos claros... o Ocidente
fez atrocidades com o Oriente Médio durante tempo
demais. E, pela nossa completa ignorância histórica,
querem nos convencer de que eles nos odeiam porque somos
livres.
O
senhor está há 31
anos, mais da metade da vida, em Beirute. E é considerado
um dos mais ferozes críticos da política
do Ocidente. Ainda se sente um ocidental?
Ah sim! Ainda me sinto com 29 anos! Ainda estou no mesmo
emprego, no mesmo prédio, vendo os mesmos aviões.
Um salário um pouco melhor... Claro que sou um ocidental.
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