Quando o senhor decidiu virar jornalista?
Quando eu tinha 12 anos
só passava um filme por semana na TV. Um dia vi em
nosso televisor preto-e-branco
um filme chamado Correspondente
Internacional,
do Alfred Hitchcock. Era a história de um jornalista
do Daily Globe,
que é enviado para a Europa na iminência da
segunda guerra. Ele vê o assassinato de um ministro
europeu, é perseguido por espiões alemães,
dá cobertura para agentes ingleses, fica com a mulher
mais linda do filme. Para um garoto de 12 anos parecia um
trabalho e tanto, até porque ele continua vivo. Daquele
dia em diante eu quis ter essa vida excitante – e
ser pago pra isso, é claro.
Seu
pai gostou da idéia?
Não. Ele queria
que eu fosse advogado, médico. Ficou muito chateado.
Ele comprava o Daily
Telegraph,
que era um jornal de direita de Londres. Eu costumava ler
de cabo a rabo todas as reportagens, correspondente de
Moscou reportando o congresso comunista, a morte de Stálin,
as notícias do Oriente Médio, é claro.
Quando eu estava no segundo grau, sabia muito sobre as
grandes guerras e estava totalmente obcecado pela idéia
de me tornar jornalista.
E
como foi o começo da carreira?
Praticamente implorei
ao Times para
me mandaram para a Irlanda. As batalhas pela independência
estavam esquentando. Depois fui mandado, em 1974, para
cobrir o estouro da Revolução dos Cravos
em Portugal. Por isso eu sei ler português muito
bem. Então, um belo dia, o correspondente no Líbano
casou-se com uma mulher bilionária que não
estava disposta a viver no meio da guerra civil. Ele me
propôs o cargo no Oriente Médio. Me senti
como o rei Faisal quando lhe ofereceram a Jordânia. "Sim!"
Você não
teve medo?
Quantos anos você tem?
28.
Eu tinha acabado
de fazer 29. Com essa idade você não pensa
que vai morrer. Até hoje a maioria das pessoas
acha que vai
viver para sempre. E era uma proposta tão boa,
do melhor jornal na época, a melhor história
do mundo. Mas quando cheguei lá vi que não
era divertido, era uma guerra de verdade.
E
como se sentiu quando chegou lá?
Eu era jovem o suficiente
para manter o otimismo sempre. Nos primeiros anos eu vi
no chão a invasão soviética no Afeganistão,
os comunistas combatendo os mujaidim (guerreiros santos,
a base do Taleban). Estava no Irã na Revolução
Islâmica, nos primeiros tiros da guerra Irã-Iraque,
estilhaços voando, gente ferida para todo lado.
Parecia que eu vivia uma vida bem charmosa, nada me atingia,
nenhuma bala. E percebi naquela época que eu podia
escrever muito bem.
Não
mudou muita coisa de lá pra cá...
Eu tive uma namorada
jornalista que me dizia: "quanto mais guerras você cobre,
mais aprende a sobreviver. Quanto
mais você vai para guerras, mais chance tem de morrer". É uma
equação difícil de resolver.
Você tem
algum prazer no risco? Em ver as bombas e os
tiros?
Churchil dizia que
nada é mais satisfatório do que atirarem
em você e você não
tomar o tiro. Olha, quando eu estava no sul do Líbano
e a guerra estourou, usei meu medo para observar. Os
aviões, as bombas, de onde os perigos vinham.
Se você for atingido por acaso não pode
fazer nada, mas se você não entrar em pânico
em uma guerra tem que usar o cérebro e prestar
atenção. Eu sempre volto a salvo para Beirute
e escrevo histórias das pessoas que estão
sofrendo, dos horrores. E claro que celebro no jantar
que voltei vivo, mas isso não significa mesmo
que eu tenha prazer no risco. |