Gringo, vermelhamente gringo, Robert Fisk chega para a entrevista. Senta-se, deixa de lado sua pastinha, quando uma pequena mariposa toca sua cabeça. Ele olha pra cima, para a inalcançável mariposa, e faz uma air metranca.
Tuf! Tuf! Tuf! Tuf! Tuf! Tuf!, simula o franco-atirador, como quem segura uma Kalashnikov. Tão natural sua reação que continuou a se aprumar para a conversa sem um sorriso. Ajeitou o colarinho e, à queima-roupa, disparou: “Estou pronto. O que quer de mim?”. Calma, mister Fisk, um pouco de calma para falarmos da vida que o maior correspondente de guerra vivo leva há mais de 30 anos.
Há 31 anos mora no mesmo apartamento alugado em Beirute, com vista para o Mediterrâneo. O aparente glamour vai pelos ares, já que a rotina de Fisk é esperar as bombas – e ir ao encontro delas. Seu cargo é correspondente do Oriente Médio para o londrino Independent. E sua reputação é um pouco maior que isso. Odiado por governos ocidentais, criticado duramente pela grande mídia norte-americana, famoso por abandonar a imparcialidade em nome do que entende por objetividade: “Minha função é apontar quem é a vítima e quem é o culpado”. Caso raro, quase único, em tempo de jornalistas embutidos no meio das tropas, Fisk cobre a guerra onde as bombas caem. Quer saber dos sobreviventes, não dos soldados. Dos motivos, não do saldo. Fazer história, não notícia.
Fala e escreve em árabe e ganhou a confiança dos grupos que o Ocidente chama de “terroristas” justamente por recusar usar esse termo. Não à toa, foi o único ocidental que entrevistou Bin Laden – três vezes, nos anos 90. Por isso seu nome sempre aparece no xadrez ideológico da “guerra ao terror”, ao lado de Bush, Osama, Rumsfeld, Cheney, Zawahiri, Karl Rove... Em geral, apontando seu arsenal de testemunhos para todos os lados. Fisk tem um problema com autoridade: seja para acusar EUA, Israel e Inglaterra de mentiras e atrocidades ou delatar corrupção e crueldade de governos e grupos árabes, sempre apóia seus textos em inapeláveis valores morais – a obrigação de desafiar o poder constituído e a empatia pelos fracos e oprimidos.
Desde 1974, esteve presente em todos os conflitos que desenharam o mundo. Revolução dos Cravos, Guerra Civil do Líbano, Revolução Islâmica do Irã, Guerra Irã-Iraque, Guerra do Golfo, Kosovo, Bósnia, incursões e massacres israelenses, assassinatos de ministros, premiês e anônimos, invasão soviética no Afeganistão, invasão norte-americana no Afeganistão, a queda de Bagdá e a atual ocupação no Iraque.
Tal currículo calejou a paciência de Robert Fisk. Responde rápido, duro, não mede palavras. Também cuidou de polir sua mente e ego – sabe que, hoje, nome é um tipo de arma. E tal currículo não domou a capacidade de ele indignar-se com a apatia do mundo. Fisk postula: “A CNN, os governos, os presidentes querem fazer a guerra parecer um épico. Guerra não tem a ver com vitória e glória. Guerra nada mais é do que o total fracasso do espírito humano”.
Fisk conversou com a Trip durante sua passagem pelo Brasil, motivada pela quinta Festa Literária Internacional de Paraty, onde lançou a colossal autobiografia romanceada A Grande Guerra Pela Civilização, volume de quase 1.500 páginas.
Como no caso da pobre mariposa, metralha a quase intocável névoa de mentiras e preconceitos que condena o Oriente Médio há décadas. Só não abre a guarda para falar de sua vida pessoal. Até porque, não parece ter uma... nunca quis ter filhos nem casar, não fala de namoradas, nem sente o cheiro de férias. Não sorri para fotos, recusa deixar a pastinha que carrega para um retrato. “Não sou ator, sou jornalista”, define-se, enfim, revelando a vocação sobre-humana de cavar verdades para que os outros possam viver, com filhos e amores, em um mundo mais seguro.
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