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| Cumprindo sua missão
entre mariners descontentes em Bagdá |
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Em 2004 Michael Franti se cansou de ver a guerra pela TV. Longe de se alistar,
embarcou para o Iraque. Sua missão: tocar para invasores e invadidos,
em Bagdá e na Faixa de Gaza. Estava atrás de histórias
de gente real, de inspiração para suas músicas e com sua
declarada vocação de espalhar palavras de paz. Juntou um dinheiro,
câmeras digitais, acertou um tradutor e foi para a cidade – graças
a seu governo – mais perigosa do mundo.
Passando longe das vias oficiais, onde repórteres e músicos só circulam
em blindados pela supersegura Zona Verde, caminhou (descalço, como sempre)
pelas ruas de violão e DV em punho. O resultado
foi um impressionante
e didático documentário
que mostra como são as ruas de
Bagdá e
da Faixa de Gaza e como vivem as pessoas acostumadas a abaixara cabeça para bombas – e erguê-las ao verem suas bandeiras.
Na passagem pelo Brasil em agosto, Michael vai mostrar seu filme. E vem munido
de sua câmera para um novo filme sobre... nem ele sabe ainda.
Como você teve a idéia desse filme? Eu estava muito incomodado
com a cobertura feita da guerra no Iraque. Só via na TV as mesmas imagens
de lugares destruídos, ou militares em ação... Percebi
que não tinha a menor idéia de como era a vida das pessoas naquele
país, como arrumavam a vida naquela situação. Pensei: “Foda-se!
Eu vou pra Bagdá”. Liguei para minha empresária e contei
que queria ir pra lá. Só lembro do silêncio do outro lado
da linha [risos].
E teve problemas com o governo para ir para lá? Tive uma surpresa quando
descobri que não precisava de visto, de autorização, de
nada para ir para lá. É só chegar! Foi o que fiz. Claro
que antes me preparei muito, levei equipe, câmeras, algumas letras traduzidas
para o árabe. E mesmo em Bagdá não me envolvi com o governo
dos EUA. Era tudo o que eu não queria. Minha idéia sempre foi
conhecer as pessoas reais e sua histórias.
E você foi hostilizado de alguma forma por ser americano? Não.
O povo foi muito gentil comigo e ficava feliz de ver um americano tocando na
rua para ele. E escutei de algumas pessoas de lá que não tinham
raiva dos americanos, dos EUA. Eles achavam que nós também éramos
vítimas das mentiras do Bush, da eleição roubada. Mas
eles me diziam que, se o Bush fosse reeleito, eles teriam de pensar que a
culpa era dos americanos mesmo. Quando ele ganhou a eleição
tive muita vergonha. E só conseguia me perguntar “o que o mundo
vai achar de nós?”. É triste demais.
E se sentiu em risco no Iraque? Claro que não é um lugar seguro.
Mas as únicas vezes que fiquei paranóico foi por causa dos governos
dos EUA e de Israel. Exemplo: eu comprei um pedal de guitarra iraquiano. Era
feito com uma lata vermelha, cheia de fios e botões para fora. Quando
estava a caminho de Israel, me liguei que iriam me dar uma prensa, achar que
era uma bomba. Não levei... Quando saí dos EUA, percebi
que levava um monte de papéis escritos em árabe com o título
em inglês “Bomb the World”, o nome de uma música minha.
Desisti também, pra não ser preso como terrorista.
E os soldados americanos se sentiam ofendidos de alguma forma com você cantando
contra a guerra? Não. Claro que alguns estavam com aquele espírito
de “fazer nosso trabalho”. Mas quando eu cheguei havia um sentimento
novo, com todas as mentiras sobre as armas de destruição em massa
desmascaradas. Muitos soldados estavam se sentindo traídos, enganados.
E arrasados por terem feito mal àquele país. Tanto que me chamaram
para tocar em um bar aonde eles costumavam ir. No começo, eu fiquei
preocupado em ofender, e toquei músicas com letras mais de esperança,
positivas. Mas depois eu desencanei e achei que devia pegar mais pesado e toquei
as mais críticas. Eles adoraram.
E o que você sentiu de diferença entre o Iraque e a Faixa de
Gaza? No Iraque, apesar da tragédia toda, as pessoas têm mais
esperança de que uma solução vá chegar. Na Palestina
eles são mais raivosos, pois é muito tempo de guerra e ocupação.
Todas as pessoas, israelenses e palestinos, têm algum parente morto em
atentados ou ataques de exército.
E você vê uma esperança para essa questão? Sempre
tem de haver esperança. Temos que esperar o melhor, senão
as coisas vão ruir de vez. E acho que um dia as pessoas irão
para o Oriente Médio estudar a paz. Porque, quando solucionarem essa
briga eterna, eles vão provar que dá para fazer a paz em qualquer
lugar no mundo.
E você pretende fazer mais filmes? Sim. Certamente. Ainda não
tenho um projeto pronto, mas vou filmar meus shows em presídios nos
EUA, minhas viagens pelo mundo... Vamos ver.
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Frente a Franti
Michael Franti chega em agosto para promover o festival Power to the Peaceful/Brasil,
que acontecerá em dezembro. Será a versão brasileira do
evento que o próprio Michael criou em 1999 em San Francisco. Na época
o objetivo era protestar contra a pena de morte
imposta ao jornalista e ativista Mumia Abu-Jamal. Nas oito edições
seguintes, as causas e
a lista de artistas aumentaram muito. Contra todo tipo de injustiça
social, o festival reuniu mais de 60 mil pessoas em 2006 no Golden Gate Park,
em San Francisco.
Aqui no Brasil, o festival beneficiará ONGs da zona sul de são
Paulo– 100% do valor dos ingressos será doado a elas. Mais do
que discutir e promover a paz, o festival também pretende apontar caminhos
para pessoas e empresas interessadas em ajudar projetos sociais. Franti, a
banda de reggae australiana Blue King Brown e Seu Jorge já estão
confirmados. Mas nem só de música será o festival. Com
dez horas de duração, o evento terá uma feira de produtos
orgânicos, palestras, ioga coletiva, área para crianças,
exposição dos trabalhos das ONGs, filmes e documentários,
personalidades do terceiro setor e artistas fazendo pequenas intervenções
entre um show e outro. Outras bandas podem ser escaladas até dezembro.
E, no dia seguinte dos shows, Michael Franti e Seu Jorge vão se apresentar
de graça em uma comunidade dentro do Capão Redondo. Além
disso, as visitas de Michael Franti a favelas do Rio e São Paulo vão
virar um documentário em DVD. Mais informações pelo site
www.powertothepeaceful.com.br. |
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