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Realismo fantástico
Ah, as coisas mudam. Os dreads de Franti cresceram muito. George Bush está em
seu segundo mandato. A direita americana voltou com tudo, fazendo Reagan
parecer um redator da Caros Amigos. Franti tem um pequeno estúdio lotado
de instrumentos, livros de esquerda, como Sem Logo, Manual do Cineasta
de Guerrilha, de história, como Os Reis Africanos e Coração
Rastafári, I Ching, álbum de fotos do U2... |
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Já lançou
sete discos com seu nome e há sete anos anda descalço em
San Francisco e em qualquer lugar.
Não tem mais sapatos. |
“Tem gente que acha que é uma posição política,
um protesto contra as condições de trabalho nas fábricas
de calçados na Ásia. Não é nada disso... Eu conheci
os índios Maori e os vi andando descalços na selva. Resolvi ver
se conseguia andar sem sapatos por três dias em San Francisco. Aprendi
tanta coisa que resolvi continuar.” Aprendeu o quê? “A olhar
onde piso, pra começar...”
Franti, dá pra ser otimista e realista? Ele suspira. “A gente
tem que ser otimista. E realista para saber que as mudanças demoram
o tempo de uma árvore crescer. Eu já fui a muitos protestos,
e ainda vou, onde gente quebra automóveis, briga com a polícia.
Acho que os donos do poder não entendem isso.” E do alto de seus
quase 2 metros de altura e 20 anos de ação, ele conclui: “Eu
acho que precisamos de um ativismo 2.0. Parar a briga e escutar mais. Eu quero
sentar na mesa com empresários e poderosos e explicar o que penso. Quero
ouvir deles, quero ouvir dos presidiários, dos pobres também”.
O discurso irretocável poderia soar bastante hipócrita,
se os pés cascudos de Michael Franti não pisassem em pedras bastante
duras em busca de diálogo. “Aonde dizem que eu não devo
ir, é pra lá que eu vou”, sorri, contando como decidiu
ir à Bagdá em 2004. O próximo piso para onde Franti vai
olhar bem é o brasileiro. Ele toca por aqui em agosto e dezembro (ver
página 3).
Pouco famoso no mundo, mas conhecido até dos agentes da imigração
dos aeroportos americanos que deram prensa na reportagem da Trip, Franti não
espera mais fama para ser feliz. Prefere gastar a energia arrebanhando votos
para fazer da “maior democracia do mundo” uma democracia de fato. “Aqui
cada voto não tem o mesmo valor. Gostamos de defender a democracia,
mas não somos uma de fato.”
Agora, depois de quase três anos, já se conformou com a reeleição
de W. Bush, e está com a esperança em dia. “Barak Obama
me impressiona como líder e orador, e tem um olhar muito sincero. Hilary
Clinton é mulher, o que seria ótimo na presidência dos
EUA. Não sei quem prefiro, mas sei que quero ver os republicanos fora
de qualquer jeito.” Agora vai, Michael? “Ah... agora vai.”
E encerra cedo a entrevista para voltar ao ensaio com a banda. Explode alto
nos falantes um ragga, meio rap, meio funk, meio rock, de letra nada sutil.
Apontando o dedo para criminosos de guerra, torturadores, fraudadores de Wall
Street. Consola mendigos, vítimas das bombas, desempregados e soldados.
E se despede com um inevitável “Peace, brother”, antes de
voltar, agora sem sapato e sem camisa, aos comandos do Macbook Pro, tentando,
como sempre, secar as calças para sentir-se bem ao bradar orgulho de
ser quem é – apesar de tudo, um americano.
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