Michael Franti solta a voz e o discurso nas ruas de Hebron, na Faixa de Gaza, Palestina
 
   




Michael Franti ainda lembra bem de seu primeiro dia de aula.

Nem teria como esquecê-lo. Foi em uma escola pública de Oakland, cidade da Califórnia onde nasceu, perto de San Francisco. A primeira lição, como em quase todo colégio americano, foi o juramento de lealdade à bandeira. Estava no pátio, sentando em um banco, decorando com a turma a tal promessa, quando sente algo morninho a molhá-lo. De tão nervosa, tadinha, a pequena Anne – ele não esquece o nome – fez xixi nas calças. E por tabela no pequeno Michael Franti, sentado ao seu lado.

Apesar do constrangimento e da urina alheia que o empapava, teve de se erguer diante do estandarte de estrelas e listras e repetir da maneira mais solene que uma criança nessas condições é capaz: “Prometo lealdade à bandeira dos Estados Unidos da América e à República a qual representa, uma nação, sob Deus, indivisível, com liberdade e justiça para todos”.

Lição de patriotismo que o músico Michael Franti, de 41 anos, trata de relembrar todos os dias, com o mesmo constrangimento e a sensação na pele de que algo está bem errado. E que o ativista Michael Franti coloca em ação com o festival que organiza há nove anos, o Power to the Peaceful, megaevento de San Francisco que, em vez de queimar bandeiras, prefere encontrar caminhos para a paz e a justiça. E que o cineasta Michael Franti colocou em imagens quando embarcou para Bagdá e para a Faixa de Gaza para levar música e trazer histórias filmadas.

“Eu me envergonho muito quando viajo pelo mundo enquanto meu governo faz o que faz. Principalmente depois da reelei­ção de Bush. Não dá para justificar meu país.” Sente uma vergonha que só pode se dever ao tal juramento, porque o próprio Michael não tem do que se desculpar em termos políticos. Há mais de 20 anos sua vida tem sido uma sucessão de protestos e engajamentos: contra as guerras, os conservadores, o sistema carcerário, a globa­lização, o racismo, o sexismo. Contra a opressão dos índios, dos trabalhadores, das crianças, dos mendigos, dos sem plano de saúde, da natureza, dos bois nos matadouros, dos fazendeiros... Enfim, a favor de qualquer um que esteja apanhando do big stick corporativo.
A nada modesta luta começou nos anos Reagan (1981-1989), após receber a notícia de que seria pai. Largou a faculdade de ciências humanas, a bolsa de estudos pelo time de basquete.

E depois de dar desgosto a seus pais adotivos, ambos professores, Michael Franti descobriu que “não estava pronto para a vida real. Então entrei para uma banda”.

Beatnigs era o nome, punk industrial, o som. Fez um EP em 1986, lançado pelo Alternative Tentacles, o selo heróico de Jello Biafra. Apadrinhado pelo único Dead Kennedy que manteve a dignidade, começou a botar na rua sua raiva contra a escalada conservadora republicana. Mas foi sucesso só na cena local. Entre um pogo e outro, uma passeata e outra, abria mais os ouvidos para novos sons e idéias. Ele mesmo conta: “Quando comecei a me manifestar eu tinha muita raiva. E meu discurso era muito revoltado. Mas com o tempo você entende que não adianta só bater, gritar. Mais importante é ouvir”. E foi ouvindo, mais até do que cantando, que aprendeu muito nos anos seguintes. Até o dia em que a pancadaria punk perdeu o sentido. Junto com seu parceiro de Beatnigs, Rono Tse, e o guitarrista de jazz Charlie Hunter, fundou uma nova banda, The Disposable Heroes of Hiphoprisy. Aí a coisa andou.

A crítica social das letras e o som experimental de Franti e companhia fizeram eco nos ouvidos de Bono Vox. E os ativistas de San Francisco caíram no mundo para abrir show do U2 na turnê Zoo TV (1992-1993), quando o discurso messiânico de Bono ainda destilava o cinismo que o imunizava da chatice.

Em um dos tantos hotéis na turnê, Bono apresentou um amigo aos “Disposable...”. Mr. William S. Burroughs, autor de Junky e Almoço Nu, herói beatnik, entrou na suíte com uma sacola para bola de boliche, de onde tirou um pequeno arsenal de pistolas carregadas. Exibindo sua coleção e ostentando a inconseqüência que o fez famoso, Burroughs escalou Franti e a banda para fazer a música de seu novo disco de leituras, Spare Ass Annie and Other Tales. Isso foi em 1993, ano 1 da era Clinton. A vida de Michael Franti estava indo bem e parecia que os Es­tados Unidos também...

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