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Nem um pouco feliz, Dino, o sarado Lee Perry do Glicério, reclama do rapa da polícia; Heleno “Fela”Carneiro e seu Carro do Malassombro: “Se o Kassab me der R$ 15 mil pela minha carroça, eu volto pra Palmares”
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Vida bandida X trabalho cooperado
O orgulho é a marca distintiva desses modernos condutores de jiriquixá reciclável. Talvez pelo fato de o carroceiro habitar o primeiro estágio de cidadania: a carroça é seu primeiro zero à direita. Muitos são recém-desempregados, ex-moradores de rua, miseráveis, mendigos ou detentos que acabaram de cair na rua e não conseguem nenhum outro tipo de serviço. “O carroceiro é um profissional que não passa por nenhuma entrevista de emprego, não arranja nenhum trabalho remunerado nem na economia formal nem na informal. Por outro lado, ele é autônomo, dono de seu ganho, e não vive à mercê dos outros, como um pedinte”, conceitualiza Sebastião Nicomedes, 48, ex-catador e hoje escritor, autor do livro “Cátia, Simone e Outras Marvadas” (Dulcinéia Catadora), além da peça “Diário de um Carroceiro”, que está sendo transformada em roteiro de filme por Lula Maluf (acredite, é esse mesmo o nome do cineasta – tudo se recicla...). “Às vezes o cara sai da cadeia e, ainda que tenha habilidades, a única coisa que sobra pra ele é uma carroça. E ainda tem que correr do rapa policial”, afirma Sebastião.
Carro do Malassombro
“Para que algo seja criado, deve-se destinar alguma coisa ao lixo”, escreve o sociólogo polonês Zygmunt Baumant. “Não pode haver oficina artística sem uma pilha de lixo. Isso [...] confere ao lixo um poder aterrorizante, verdadeiramente mágico, equivalente ao da ‘pedra filosofal’ do alquimista – o poder de realizar a maravilhosa transmutação da matéria inferior, sem significação e desprezível, num objeto nobre, belo e precioso.” Talvez por isso a outra ponta do orgulho do carroceiro se dá pela própria alquimia de seu trabalho. Não contentes em simplesmente caramujar seu ofício por aí, os carroceiros customizam a caranga: adicionam retrovisores, placas, geladeirinha de isopor, rádio, TV, beliche, cães de guarda... Suas máquinas à Mad Max circulam vagarosamente por todos os pontos da cidade como se fossem resquícios de uma antiga civilização. Com perfeita paciência, introduzem um ritmo extravagante na furiosa correria de motoboys, automóveis e ônibus.
“A gente é a contramão”, apresenta-se Heleno Carneiro, 60. Pernambucano de Palmares (cidade onde Zumbi criou o famoso quilombo), tem como alcunhas Pernambuco, Zefinha ou Fela – por chamar todo mundo de “fela-da-puta” ou cantar incessantemente o forró “Zefinha, essa saudade me mata”... Usando cobras carnavalescas, cabeças de bonecas pintadas de preto e efígies de caveiras – lembrança dos tempos em que morou num cemitério –, Fela transmutou seu carro alegórico em verdadeira Harley Davidson medieval. “É o Carro do Malassombro”, batiza. “Coloquei esses vudus aí pros meia-boca não jogarem olho gordo em mim”, explica. E, se a inveja for muita, Pernambuco não tem dúvida: puxa a peixeira de dentro da calça – na verdade, um facão da Tramontina. “A gente que vive na rua tem que se cuidar”, manda Fela, depois de descarregar meia dúzia de palavrões sobre o prefeito Gilberto Kassab – ele acaba de tirar a carroça da subprefeitura de Pinheiros. Reclamaram que o Carro do Malassombro estava atrapalhando o tráfego. “Não agüento mais esta vida”, desabafa. “Se esse fela do Kassab quiser, vendo pra ele o carro e ele me manda de volta pra Palmares”, detona. O preço? R$ 15 mil. “Mas eu faço por
R$ 12 mil. Me dá licença?”, amacia o brabo, enquanto puxa seu carro, ladeira acima. Na contramão.
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