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| Sílvio Fabiano: seis anos de carroça, meia dúzia de bananas para levar 600 quilos de sucata, oito filhos com cinco mulheres |
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Esta revista vai pro lixo. Não, não é a nossa vontade. Mas que demore um mês, um ano ou um século (como este repórter considera justo), esta revista vai sair das suas mãos para ir às mãos de outra pessoa, de outra pessoa, outra, e outra e mais outra... até talvez chegar a uma máquina de reciclagem de papel. Nessa viagem, porém, esta Trip tem que passar pelas mãos de alguém como o Sílvio. “Vida boa, hein, playboy?”, galhofou Carlos Motta, designer de móveis e editor convidado deste número, ao passar pelo carroceiro Sílvio Fabiano Aparecido de Souza, 38, que em plena tarde mandava uma breja debaixo do viaduto da João Moura, Pinheiros. Sílvio levantou seus óculos-de-mosca Chilli Beans e devolveu filosófico ao homem no Mitsubishi: “Se não relaxar, vou trabalhar pra quê? Aceita um copo, ô bacana?”, convidou. Do papo gaiato em diante, o designer e o carroceiro foram se encontrando, trocando idéias, ficando amigos – e viraram pauta. “A gente tem que se ligar nos detalhes da vida na nossa cidade: não pode subir o vidro do carro e ficar preso lá dentro”, sugeriu Motta, na reunião de pauta desta Trip 155. “Se não, por exemplo, acaba achando que todo carroceiro que a gente vê na cidade é o mesmo carroceiro!”, analisava. Nada mais longe da realidade.
Segundo o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, MNCMR, só em São Paulo os catadores ambulantes formam um exército de 20 mil pessoas – em todo o Brasil, as estimativas variam entre 300 mil e 1 milhão. Mesmo tantos (para comparação, há 33 mil táxis em São Paulo), podem ficar invisíveis a um olhar apressado. Ou, pior, parecer mero transtorno na contramão da sociedade de consumo, a atrapalhar o tráfego. Para quem tem olhos para ver, porém, encarar os carroceiros como obstáculos à velha idéia de “progresso” é miopia preocupante. “O planeta está cheio”, anuncia o sociólogo polonês Zygmunt Baumant em seu Vidas Desperdiçadas, em que relaciona a indústria do lixo à exclusão social. “Isso significa que típicos processos modernos, como a construção da ordem e o progresso econômico, ocorrem por toda a parte, e assim por toda a parte o ‘refugo humano’ é produzido e germinado em quantidades sempre crescentes – agora, porém, na ausência de depósitos ‘naturais’ adequados para sua armazenagem e potencial reciclagem. [...] Um dos resultados mais fatais do triunfo global da modernidade é a crise aguda da indústria de remoção do lixo humano: como o volume de refugo humano supera a atual capacidade gerencial, há uma expectativa plausível de que a modernidade, agora planetária, se sufoque nos seus próprios dejetos, que ela não pode reassimilar nem suprimir”, adverte o sociólogo.
“O que mais me incomoda nesse trampo são as pessoas que passam xingando dos carros, no bem-bom do ar-condicionado: ‘Vagabundo!’, ‘Tira essa merda da frente!’”, reclamava Sílvio, 38. “Chuva, sol, poluição, isso a gente passa por cima. Chateia é o desrespeito de quem não vê a importância do nosso trampo.” E que trabalho: puxar no braço até 500, 600 quilos de material reciclável – papelão, madeira, metal, plástico, vidro (os carroceiros descartam pegar lixo orgânico). Para segurar a bronca de levar até dez vezes seu próprio peso, Sílvio manda meia dúzia de bananas, bem cedinho. Vindo de sua casa no Taboão da Serra, chega no ferro-velho de Moisés Oliveira, na rua Padre João Gonçalves, Vila Madalena, às 7h30. E circula pela zona oeste até as 18h, quando Moisés encerra o dia e paga a féria – neste ferro-velho guardam suas carroças 26 trabalhadores fixos, mais uns 20 avulsos. Pela tabela, Moisés paga 25 centavos pelo quilo de ferro, doze o de papelão, quatro o de vidro, R$ 1 o de metal e R$ 3 o quilo de latas de alumínio. Em um mês ruim – em geral, janeiro (“As pessoas gostam de jogar as coisas fora em dezembro”), Sílvio calcula tirar R$ 500. A determinação da prefeitura em retirar os excessos de publicidade para combater a poluição visual ajudou, de certa forma, esses profissionais. “Outro dia fiz R$ 1100 no material que retirei da fachada de uma loja”, conta Sílvio. Evidentemente, o dono da tal loja, que poderia ter contratado um serralheiro, não pagou pelos serviços de Sílvio – outra face desse seu trabalho invisível, de formiguinha. A média salarial do playboy da catação, que trabalha na área mais valorizada da cidade, também não confere com a média nacional. Para o MNCMR, o catador brasileiro tira cerca de R$ 140 por mês. “É uma vida que se ganha no dia-a-dia”, afirma Sílvio, “e você só depende de você.” E muita gente depende de Sílvio: ele é pai de Diogo, Marllon, Silvia, Cintia, Raquel, Gustavo, Ricardo e aguarda a vinda do oitavo filho (com cinco mulheres diferentes...), Onofre, mesmo nome do pai. “Faltam três pra eu completar um time”, sorri a força humana, orgulhoso.
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