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As redes de vôlei de Franca, no interior de São Paulo, não sabem e as passarelas do mundo nem desconfiam, mas por um capricho dessas senhoras que ditam as regras, as modas, e vestem Prada, Giselle Nascimento não foi e nem será habituée das fashion week. Azar delas. Sorte a sua.

Porque por meros cinco centímetros na vertical, a mineira, nascida há 23 anos em Governador Valadares, foi alijada do mundo dos desfiles. Giselle só fotografa. E, pra falar a verdade, ela até prefere.

“Eu gosto de foto, sabe? Comecei minha carreira meio cedo, adolescente, lá em Franca, a cidade em que morei depois de deixar Minas Gerais assim que meus pais se separaram. Eu tenho um metro e setenta. Não sou baixa. Jogava vôlei na escola. Era razoável. Mas para os padrões da moda não tenho o físico certo. Claro que tem uma ou outra exceção, a Kate Moss, por exemplo, que tem um e sessenta e pouco. Mas ela é a Kate Moss, né?”

É. E daí que, obrigada a caminhar distante da top inglesa, Giselle rendeu-se aos flashes. Mas vejam só que coisa linda: numa inversão luminosa de grandezas, pasme, os flashes é que terminaram rendidos por ela. Você sabe. Você a viu agorinha há pouco, espalhada sobre o sofá, de camisetinha diáfana, as formas criando relevos de perfeição sob o tecido delgado. Dá para negar?

Régua e compasso
Pessoalmente, a pele é branquinha. Há algum bronze, é verdade. Mas fica naquela mistura envernizada dos creminhos e pozinhos que deixam a derme com uma textura de pêssego. Às 11 da manhã de uma segunda-feira, quando a pequena atendeu a Trip em sua casa no centro de São Paulo, cidade em que mora desde o ano passado por obrigações da carreira, a menina estava dos pés à cabeça irretocável. Um desses casos em que as fotos são apenas a véspera do que reserva a vida real. A Giselle de carne e osso é melhor. Tem pouco da pele e do osso de suas colegas mundialmente famosas e desesperadamente mais magras. O negócio aqui são as curvas. Reta por reta, a gente deixa com os Detrans e com as outras colegas de métier, como a xará, a Bündchen.

Aqui entre nós, sou mais a nossa.

A falta que ela faz
Olha só, longe de gorar, mas é até possível imaginar. Cada vez que uma dessas modelos com a envergadura de um sulfite escorregam seus saltos nos tablados de Milão ou Paris devem ser nas lágrimas das passarelas que elas derrapam. Lágrimas choradas numa muda e inconsciente tristeza: a falta que a Giselle faz.

Quem certamente sente uma saudade ainda mais dolorida, porque recente, são seus colegas da faculdade de psicologia, trancada há poucos meses. Ainda que a grande paixão da morena esteja no observar, no escutar, na psique humana, os tempos não estão para muitas reflexões. A beleza de Giselle é quem bota a mesa.

“Vou aproveitar os poucos anos que essa profissão rende. Devo ir para o Chile e para o México nos próximos meses fazer alguns trabalhos. Mas meu grande amor é a psicologia. Começou quando conclui o magistério e dei aula para crianças. Ali eu percebi que meu negócio era estudar a cabeça dos homens. Mas, quando digo homens, é a humanidade, viu?”
Vi. Então o teu negócio é homem e mulher?

“Não, não”, ela ri. “Eu gosto é de homem. Nunca senti atração por mulheres. É claro que já rolou assédio. Nesse meio de moda tem muito, né? Sou tranqüila. Tiro de letra. Mas é um assunto interessante, entende? Eu tenho muita vontade de estudar o homossexualismo. Acredito bastante que não é uma questão genética, mas de pessoas que se gostam. No fundo, acho que é assim. Por isso não descarto as possibilidades. Posso até vir a gostar de uma mulher...”

Ela diz por dizer. Hora e meia de prosa com a moça transparecem os sonhos comezinhos, comuns, românticos. Giselle quer casar e ter filhos. É família. Programa predileto é ficar em casa, ver filmes, conversar com os amigos, namorar...

“Ah, não tô namorando no momento. Tenho um casinho ou outro, nada fixo. Sem problema. Sou uma pessoa que agüenta numa boa ficar sozinha. Acho que até preciso às vezes. Sabe, um tempo pra ficar comigo mesma?”

Foram dois os namorados até hoje. A primeira deitada no divã das travessuras carnais, aliás, foi com o primeiro deles, Giselle ainda adolescente. “Foi bacana. Não foi bom porque nunca é pra mulher a primeira vez. Mas rolou tudo certinho.”

A sexualidade da mineira, segura, sem grandes arroubos, resume-se numa frase surrada: “Entre quatro paredes a gente tem que fazer o que sente vontade”, conta, com aquele sorrisinho de Monalisa, um esgar imperceptível mas pressentido. Dá para sonhar com a distribuição de senhas para uma conferida nesse quarto. Para poucos.

O bem-estar na civilização

Distante dos livros e da psicologia, Giselle toca a vida de olho no futuro. Diz que quer ter mais tempo: para ler (“amo as coisas do Jabor”); para filmes (“chorei vendo Diário de uma Paixão”); para peças (“adoro musicais”); e para amar (“gosto de namorar. Sou dessas que, se encontrar o cara certo, casam na hora”).

O grande desafio da modelo nesta temporada de novos trabalhos e da primeira viagem internacional é aparar a ansiedade. Ela explica que seu lado leonina (“sou solidária, vaidosa, emocional e fiel”) carece de alguns ajustes. Corre todas as manhãs na academia, único esporte que pratica hoje em dia. É uma espécie de terapia, substituta dos dias em que se submetia a análise.

Mas ainda que faltem segundos e minutos nos dias espremidos de Giselle, ela pretende decifrar o cerne dessa angústia. A dela e a dos outros. Quando encerrar na moda, retoma a faculdade. Com os dedos enrolando um tufo de seu cabelo castanho, ligeiramente ondulado, ela divaga:

- Sabe, isso de ouvir problemas, descobrir o que alguém pensa, tentar ajudar, é muito interessante...

É verdade. A mineira já deve ter lido uma porção de coisas a respeito. Freud, por exemplo?

- Olha, acho interessante, mas as teorias dele estão um pouco ultrapassadas...

E é assim, os dedos agasalhados pelas melenas, que Giselle Nascimento, 23 anos, lindinha e segura, soterra, sob uma camada de beleza e pêlos, o grande austríaco e 150 anos de teorias geniais.

Giselle explica:

- Não é que eu não goste, viu? Mas só estou dizendo que muita coisa não se aplica mais, evoluiu...

Cruzadinha

Se as mitológicas esfinges trocassem aquela carapinha empoeirada e amarelecida por uma plumagem sedosa, de longos fios amendoados, e seus olhos pétreos fossem substituídos pelas duas borras redondas que dormitam sob os cílios da mineira, e se aqueles lábios de areia fossem tornados uma boca carnuda e rosada, garantido: filas e filas de Lawrences da Arábia, de Alis e Babás, e muito mais do que 40 picaretas ansiosos, se postariam à sua frente. E quando a pergunta filosófica, irresistível e fundamental viesse – o “Decifra-me ou te devoro” –, a resposta sairia num uníssono inapelável e fatal:

- Ai, me devora. Devora tudinho, menina.

Giselle explica.