 |
Acredita em Deus?
Gosto de um monte de deuses, o deus da xícara
de café, o deus da mulher gostosa, deus de todas
as coisas. Tem uma palavra para isso... politeísta, é isso,
sou politeísta.
E como é que você voltou
a trabalhar com os seus antigos comparsas?
É um astral totalmente diferente, porque o tipo
de profissional que você consegue quando contrata
nunca é tão bom quanto aqueles com quem
você está em pé de igualdade.
Então é um
lance de lealdade?
Yeeaahh... Mas detesto admitir isso [risos]. Quando
aparecem esses sentimentos, penso [voz mecânica]: “Perigo!
Este é um sentimento babaca e destrutivo.
Pare por aqui. Se liga...”.
Qual é sua impressão
a respeito do Brasil depois desses anos todos?
[Sorrindo como uma criança] Grande. Aberto.
Descontraído. Legal. Aqui as pessoas não
esqueceram como sorrir, elas sorriem até nos
encontros normais do dia-a-dia. Sei que existe uma
realidade por trás disso, um monte de outras
coisas, mas as pessoas são calorosas. Quando
cheguei na imigração, no aeroporto, já dava
para perceber um mundo totalmente diferente. Eu meio
que invejo você, morando aqui. Na verdade não
gosto de morar nos Estados Unidos, continuo lá só porque
não desisto, esse é o único motivo.
Eles não vão se livrar de mim tão
facilmente, hã hã. As ruas têm
um astral bem bacana e as pessoas em geral são
mais magras que as norte-americanas. Dá a sensação
também de que elas têm mais tempo, e me
identifico com isso porque sou do Meio Oeste americano,
onde temos muito tempo livre porque não há porra
nenhuma para fazer.
Você vê potencial pra ter esse mesmo nível
de popularidade aqui?
Não diria que não. Estava falando à minha
namorada, Nina: “Ei, talvez a gente conseguisse
trabalhar de verdade aqui, tipo vir de novo e tocar
um pouco mais...”. Mas não sei qual é a
força da MTV aqui, porque eles tendem a distorcer
tudo e a TV é uma potência.
Fico me perguntando,
são as pessoas que assistem à TV
ou a TV que assiste a elas?
É bem sinistro. Tem um bairro aqui que é inteirinho
uma TV, passamos por ele indo para o show [Projac,
da Rede Globo]... E tem a Barra, 30 quilômetros
de lixo pré-fabricado e aquela horrível
merda moderna, um lugar chamado New York City Center
e um Hard Rock Cafe totalmente horroroso.
Bem-vindo ao McGlobo, posso tirar seu pedido para
uma nova ordem mundial?
[Risos] Com queijo… Mas, cara, eles têm
uns 150 quilômetros de praia lá, e eu
queria ter aquela praia.
Por falar em Brasil,
ouvi uns sons “secretos” que
você fez há alguns anos e nunca mostrou
pra ninguém, antigas canções da
bossa nova que você tocou de brincadeira com
sua outra banda, lembra disso?
Cara, merda... Sim, aquela história de bossa
nova que eu estava fazendo, uau, você ouviu aquilo?
Vocês estavam tocando João
Gilberto, Tom Jobim, alguma coisa da Elis Regina...
Agora me lembro. Realmente gosto dessas canções.
Na época eu estava vendo se sabia alguma coisa
de música tradicional que pudesse usar para
gravar um álbum. Gosto de toda bossa nova, e
também da tradição da música
popular brasileira. Não sou tão versado
nela quanto gostaria, não sei a história
do tropicalismo e tudo mais, mas já ouvi muita
música brasileira. Conheço o Caetano
Veloso, já fui a shows dele, e fui com você ao
show da Astrud Gilberto em Nova York, lembra? Sempre
penso em fazer alguma palhaçada dessas. Quem
sabe um disco de Natal? Mas tenho que esperar o Rod
Stewart parar de fazer os seus [risos].
O que
te diverte mais no rock’n’roll?
Dos 18 até uns 40 anos de idade, meu ideal de
diversão era basicamente fumar um grande baseado
durante um dia lindo, fazer sexo e... só, entende?
Os únicos outros momentos em que me sentia bem
eram quando eu criava algo novo musicalmente, como
a primeira vez em que ouvi o playback de “Search
and Destroy” no estúdio e me dei conta: “Caramba,
isso aqui tem mesmo qualidade, tem um pouco de imortalidade
aqui”. Houve um momento específico que
foi um daqueles momentos clássicos, que definem
a sua vida. Era primavera, aula de álgebra,
primeiro colegial. A professora era uma velha, falando
sem parar, o dia lá fora estava lindo e eu me
senti mal. Fiquei com dor de estômago, a pele
ficou mal, engordurada. Fiquei com falta de ar, não
conseguia mais ouvir a voz dela e só queria
pular aquela janela. Pensei: “Se fosse um músico,
não estaria aqui agora mas fazendo qualquer
bosta que me desse na telha”. Para mim, sempre
foi sobre liberdade.
|