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Como é voltar ao
Brasil depois de tanto tempo?
Eu fiquei bem puto por anos porque os brasileiros nunca
me convidaram para o Rock in Rio... Eu ficava pensando: “Seus
filhos-da-puta artificiais e superficiais, vão
se foder!”. Fiquei bem ressentido com isso... Eu
já havia tocado aqui antes, showzinho esquisito,
com pouquíssimas pessoas na platéia.
Quando foi isso?
1989, em São Paulo, num ginásio de universidade,
algo assim, com umas mil pessoas assistindo, na sua
maioria estudantes [nota do editor: foi na antiga casa
de shows Projeto SP, e em 88]. E depois aqui no Rio,
onde foi bom para caralho — um clubinho sujo,
não sei o nome, Copa alguma coisa... Lembro
que tinha um gato e um rato nos camarins e adorei.
Como foi tocar aqui desta vez?
Senti um astral muito bom, acho que as pessoas realmente
gostaram. Não tinha a menor idéia se
elas nos conheciam ou não, ou se só gostavam
de rock’n’roll tipo Billy Idol, que é só vestir
jaqueta de couro, ser bonitinho e ter uma megaprodução.
Sabia que vinha o Sonic Youth, que tem um som mais
cabeça, e sei que aqui existe o “intelectual
latino-americano superprotegido” [risos] — em
todo país tem sempre um grupinho de gente
com grau universitário que nunca é ameaçado...
Pensei: “Bem, se eles gostam de Sonic Youth,
o que vai ser de nós?”. Subitamente
o público foi tão receptivo, as pessoas
estavam com uma mente aberta. Não sei e não
me interessa qual era a expectativa que elas tinham,
mas era visível, enquanto tocávamos,
que elas estavam com os olhos e ouvidos abertos e,
aí, o público começa a entrar
no ritmo. Essas coisas são bem básicas,
mas são as mais importantes, sabe?
Quando o vejo
no palco, me pergunto se em algum momento você se sente como se uma entidade o possuísse.
[Rindo] Uau, já me fizeram essa mesma pergunta... É isso
o que você vê?
É como se eu o conhecesse como Jim, e o Jim é um
carinha bacana... Aí ele sobe ao palco e se
transforma no absurdo Iggy...
Bem, não sei bem o que acontece. Geralmente
não me expresso muito. Mas quando estou no palco,
fazendo um disco ou qualquer coisa que tenha a ver
com música, aí digo “o.k., é aqui
que eu preciso”. Sei lá, complete com
o clichê de sua preferência: “expressar
meu lado humano”; “fazer a diferença”; “passar
para outra dimensão”, blablablá,
qualquer merda, ser um palhaço, virar um chimpanzé,
o que der na telha...
Sente como se estivesse servindo a um poder superior?
Isso eu já não sei... Poderia ser um
poder inferior.
O que você costumava
fazer nos anos 60?
Eu fazia coisas... Exemplo, depois que consegui montar
uma casa para tentar fazer nossa música, eu
tomava ácido, ligava um órgão
elétrico que eu tinha no porão, colocava
o amplificador no 10 e ficava com os pés no
teclado por umas oito horas direto. Os pés
em cima da porra das teclas, sem mexê-los,
nem precisava, porque estava tudo se mexendo, saca?
Então passei por toda essa merda idiota… Lembro
de outra vez que tínhamos todos fumado DMT
e eu vi um Buda enorme, rico em detalhes, no teto
dessa casa. Me dei conta de que ele não estava
lá de verdade, mas percebi que era detalhado
demais, muito mais do que minha mente teria a capacidade
de imaginar. Pensei que aquela devia ser minha mente
superior, ou inferior, e disse: “Tenho que
tirar as roupas”. Estava morando com três
caras jovens, minha banda, e eles não ligavam: “Ele
tem que tirar a roupa”. Então eu fiquei
pelado por um ano [risos]…
E as pessoas da
pequena Muskegon, onde você nasceu,
que achavam disso?
Sentiam pena de mim. Toquei pelado em uma festa no
Halloween de 1967 e todo mundo ficou constrangido.
Mas não desistimos. Depois, um jornal universitário
publicou um artigo a nosso respeito e só sabiam
que meu nome era Pop graças a uma banda chamada
Iguanas em que eu tinha sido baterista anos antes.
Odiei aquilo. Quem é que quer ser chamado de
Pop? Tente paquerar alguém, em 1968, dizendo: “Oi,
meu nome é Pop”. As pessoas fazem careta,
querem te bater, entende? Hoje funciona, algumas coisas
mudaram.
Sabe que às vezes penso em “Search and
Destroy” como a trilha sonora do apocalipse... Assim
que voltamos a tocar juntos, eu e o The Stooges, alguém me disse: “Isso é maravilhoso,
porque houve o Vietnã, agora a guerra no Iraque
e vocês voltaram. É o momento perfeito
para o The Stooges!”. Então tá,
talvez tenha algo a ver: banda de guerra, de repente.
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