
Ah, o glamour. A vida mansa. O direito de passar uma manhã de terça-feira à beira-mar, de papo pro ar. Enquanto homens comuns arrancam seu sustento trocando dez horas de cada dia útil por dinheiro, enquanto os normais empalidecem seus egos e almoçam em restaurantes por quilo, há meia dúzia que vive de fazer canções. Acordam quando e dormem com quem quiserem. Passam a vida com a sensação de serem especiais, eleitos - pop stars. É para isso que hordas juvenis empunham guitarras, montam bandas e tatuam desgosto aos pais. Ah, juventude ingênua. Mal sabe que no Brasil o buraco é mais embaixo - ou mais em cima. Exatos seis andares acima do chão, número 318 da avenida Ipiranga, centro de São Paulo. Na sede da Ordem dos Músicos do Brasil - o órgão que exige do músico sua filiação, R$ 245 por ano e "predicados mínimos para o exercício da profissão".
O presente repórter também é músico. Depois de dez anos na clandestinidade, me apresentando pela cidade como um contraventor, resolvi tirar a carteira da OMB (leia relato na TRIP # 130). Para celebrar o feito, convidei Tatá Aeroplano, vocalista e compositor das bandas Jumbo Elektro, Luz de Caroline e Cérebro Eletrônico, verdadeiro workaholic do underground, para vagabundear em uma manhã de terça no maior benefício que a Ordem oferece: uma colônia de férias na Praia Grande. Abaixo, o relato que desfaz qualquer sonho adolescente. Quer glamour? Aqui não. |
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Colônia sem rei
Enquanto o ônibus descia a serra, sacudindo nas curvas da estrada de Santos, Tatá Aeroplano se recordava de Roberto Carlos. Explicava ao repórter que o rei se recusou a tirar sua carteirinha da Ordem nos anos 60. Só cedeu à lei quando o presidente da OMB, Wilson Sândoli, até hoje no poder, o impediu pessoalmente de cantar na TV Record. Tatá sonhava que a colônia seria digna de seu rei. |
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Quando aterrissamos de ônibus na frente da rua dos Sindicatos, em Cidade Ocian, bairro da Praia Grande, percebemos que o sonho de viver um dia de pop star já ficava opaco. Essa alameda de 300 metros que desemboca na praia é o epicentro da farofa dos balneários paulistas. São mais de 50 colônias de férias de sindicatos nos mais bizarros estilos arquitetônicos. Cheia de barraquinhas de sanduíches de calabresa e souvenirs baratos, a rua recebe milhares de famílias sedentas por um lugar ao sol em qualquer feriado prolongado. |
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Mas naquela terça-feira, pleno dia útil, toda a estrutura da colônia era nossa. Mal deixamos as malas sobre os triliches de nossa suíte e fomos à praia. Acomodados em bambas cadeiras plásticas, degustando oleosas iscas de peixe na "Barraca do Japa" e amendoins torrados, surge o maior inimigo do veranista da Cidade Ocian: os pombos. Essas malditas aves imundas, esses ratos alados não respeitam a superior condição humana. Sobem na mesa ao menor descuido para bicar os amendoins, o peixe. Por mais de meia hora, fomos obrigados a esquecer o horizonte marítimo para espantar pombos, tentando acertar molho de pimenta em seus olhos. >> |
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